Luís Castro fala sobre profissão, o Botafogo e até a morte: 'Não desfruto o futebol, não consigo’

“As pessoas não vão ao psiquiatra para ouvirem elas próprias?”. Antes de começar a entrevista, Luis Castro, técnico do Botafogo, usou essa metáfora para explicar que a pressão que sente para o jogo contra o Corinthians, hoje, às 19h, em São Paulo, vem dele mesmo. O que se seguiu na hora inteira de conversa lembrou uma sessão de terapia. A beira do campo do CT virou um divã onde o português falou sobre a vida, o trabalho no Brasil e até a morte.

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No Brasil há quatro meses, Castro chegou trazendo esperanças pela carreira vitoriosa, mas o time formado às pressas, problemas de estrutura, adaptação e lesões o levaram a momentos difíceis, com 10 derrotas em 13 jogos antes da última vitória, sobre o Athletico. Com o trabalho em evolução, se diz mais feliz e consciente. Quando uma máquina de grama começa a aparar o campo, pede desculpas e pede para que parem. O barulho atrapalha, e ele precisa se concentrar. Castro quer falar. E parece fazer questão também de ouvir a ele próprio.

Corinthians foi o seu primeiro adversário como técnico do Botafogo. Você está mais feliz hoje ou antes de tudo começar?

Era um objetivo trabalhar no Brasil. O Botafogo foi uma escolha minha em função do meu contexto. Ao longo da minha carreira, falava muito de um jogador que me impressionou pela forma como jogava, que era o Garrincha. Para minha felicidade, vim representar um clube que ele representou com tanto sucesso, e isso foi um momento muito feliz. Como estou hoje? Sou uma pessoa mais consciente da realidade do que é o futebol, a sociedade e a mídia brasileira. Tenho um conhecimento maior, o que me faz estar mais preparado para ouvir, refletir e entender.

Mas você se alegrou ou se decepcionou com o futebol, a sociedade e a imprensa daqui?

Eu vim aqui exclusivamente para trabalhar para o Botafogo, em um projeto de crescimento do clube, de colocá-lo num patamar elevado. Eu não tenho que me decepcionar ou me alegrar. Só constatei que aqui se vive o futebol 24 horas por dia. Há muitos sites, youtubers, blogueiros, debates e o futebol não precisa de tanto tempo. Então tem que se inventar coisas para falar sobre futebol, porque o jogo em si pode ser desmontado em um período de tempo, mas depois não há mais nada que pode ser dito sobre aquilo. Depois tem tudo que há ao redor, mas isso já não me interessa, e há quem queira que isso seja o mais importante do futebol. Já a sociedade brasileira é fantástica, é muito leve, apaixonada pela vida e são pessoas simpáticas, que vivem a vida no esplendor. E eu entendo a mídia como um parceiro de caminhada. Fico triste quando faz críticas desrespeitosas. Há a crítica elegante, cuidada, e que considera o ser humano. Outra é a que é humilhante, que sangra e faz sangrar, crítica de novela, drama, para ser vendida. Isso só será alterado através de uma reflexão profunda, porque é uma questão educacional, e só a escola pode dar aquilo que as pessoas não têm.

Te incomoda mais a crítica da imprensa ou da torcida?

Não se pode depois de três derrotas dizer que um treinador está sob pressão, que tem que ganhar o próximo jogo. A imprensa é que coloca essa pressão e há interesse que exista toda essa agitação em volta do treinador. Um técnico perde três jogos e a imprensa quer que o treinador saia, ou diz que ele deverá sair. Por que só nós somos colocados contra a parede nesse fenômeno que é o futebol no Brasil? O xingamento no estádio é uma coisa que eu acho que é cultural no Brasil. Essa forma “leve” de soltar palavras ofensivas é algo que não deve preocupar a mim, e sim à sociedade brasileira. Nunca fui despedido de nenhum clube, mas interiorizei que isso poderia acontecer no Brasil. Chega-se aos tais momentos insustentáveis porque há todo esse envolvimento — que ainda não entendi a razão — em criar esse ambiente tão hostil. Posso ser incompetente, ok. Mas muitas vezes a competência não está ligada ao resultado. Se ganho uma sou bom, aí perco na outra, sou ruim. Não tem sentido.

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Mas os palavrões da torcida machucaram...

Uma coisa é ficar desiludido, outra é ficar triste. Quando a torcida do Botafogo me mandou tomar no cu, fiquei triste. Não desiludido, porque sei que no futebol acontece isso. Fiquei triste porque sou um deles. Sou uma das pessoas da torcida, eu também torço. Eu fui xingado pela minha própria família. É como um filho chegar em casa com notas ruins na escola e xingarmos nosso filho, ou nosso pai que não foi tão bem no trabalho. Eu não sou máquina, sou ser humano, fico e tenho o direito de ficar triste.

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Há a crítica que você não trabalhou em times com torcidas quentes. No Catar quase não havia torcida...

Estive no Porto, no Vitória de Guimarães... eu não venho da escolinha. Já estive em ambientes muito hostis, ou vocês acham que a Champions League é o quê? Jogar contra o City no Etihad, no San Siro contra a Inter?

Acha que falta saber lidar melhor com a derrota por aqui?

A derrota e a vitória são para todos. Clubes, treinadores, torcedores: ganham e perdem. Não é só para alguns. É isso que falta entender: acharmos que nosso clube vai ganhar sempre é uma deformação no pensamento. A derrota é uma palavra que aqui gera uma confusão. Não gosto de perder, vivo de vitórias, minha carreira foi construída com elas, não falhei nos objetivos na minha carreira. Mas uma equipe que tem como objetivo ir à Libertadores vai ter mais derrotas que a que vai ser campeã, certo? Mas se esta equipe que quer ir à Libertadores e tem três derrotas seguidas, o treinador pode ir para a rua mesmo cumprindo os objetivos. Isso tem sentido? Avaliações acho que se fazem no fim da temporada, mas fazemos minuto a minuto. A classificação é passada na tela durante os jogos! É a realidade, mas qual a função de uma tabela ao fim de cinco rodadas? Ok, é um ponto de avaliação, mas há muitos outros.

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Eu acho que deveria ser uma preocupação colocar o futebol como uma coisa natural na sociedade, e não algo acima de tudo. Como o futebol, algo que deveria ser prazer para todos, gera tanta violência física e verbal? Qual o caminho nós vamos? O que queremos?

Você repete que veio “de baixo” e fala sobre dificuldades no passado. Que passado é esse?

Falo sem dramatismo. Quem entende a vida como acho que entendo sabe que há momentos difíceis, portanto eu não sou vítima. Os momentos difíceis fazem parte de todos nós. Mas quando olham para nós nos veem no mundo fantástico. Acham que eu nasci com 60 anos, com o dinheiro e a vida que tenho hoje. Acham que o passado não existe, mas só nós sabemos da nossa história. A minha é difícil, vim de baixo, me sinto orgulhoso disso e de nos últimos anos ter disputado 22 jogos de Liga Europa e Champions, ter títulos, mesmo tendo começado da 4ª divisão (de Portugal). Muita gente que teve sucesso na vida nasceu pobre, com poucos recursos e cresceu na vida. Eu sou um desses, e não tenho problema em assumir. Tive muito pouca coisa quando pequeno, mas tive as fundamentais: educação que meus pais, treinadores e escola me deram. Foi decisivo. E o que quero dizer com isso é: me olhem como um ser humano, não como uma máquina ou alguém diferente. Me respeitem como eu respeito vocês.

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E por isso você não sente pressão?

Eu vivo pressionado desde criança, porque eu sentia que meus pais faziam um esforço para eu estudar e eu achava que deveria devolver em resultados. Segui assim porque era da minha consciência. Sigo pressionado porque cada clube que nos contrata tem expectativa. E sinto responsabilidade de responder com resultados. É a mesma história: eu me pressiono, mas é diferente da pressão realmente importante. Pressão importante é ter no Brasil milhares de pessoas com fome e termos que resolver isso. Isso é pressão para todos. Pressão por perder um jogo quando tem mil pessoas ao lado passando fome? Que pressão? A imprensa precisa falar tantas vezes da pressão em se ter em um país tantas pessoas com fome como falam da pressão que um treinador tem quando perde um jogo. Diante disso, acho que, na verdade, não tenho pressão alguma. Isso sim (a fome) deve ser algo que deve pressionar a sociedade, os líderes mundiais, toda a gente, que deve se voltar para esse caminho: de igualdade, de oportunidades iguais, isso é o que me preocupa. Eu tive que ir à procura das minhas oportunidades, porque eu não as tinha. Acho que o mundo deveria dar oportunidade às pessoas, porque uns têm, outros não, de forma discriminatória.

Entender isso é uma forma de saber aproveitar o futebol?

Eu não desfruto muito o futebol. Não consigo muito. Não entendo até hoje como desfrutar o bem da vida estando no futebol.

Mas de onde vem a motivação então?

Não desfruto e nem tenho que desfrutar porque sou pago para trabalhar em uma profissão que não deixa desfrutar. E é por isso que nos pagam tão bem. Eu entendo que o tanto que me pagam não é para que eu desfrute. É para eu sofrer na profissão que eu desempenho. Sempre cresci assim. Eles me pagam para trabalhar, o trabalho me gera algum sofrimento e eu não me importo de sofrer. Eu assumo que os jogos me destroem por completo, e depois tenho que me regenerar em dois dias para começar outra vez a semana e, no próximo jogo, me destruir, e depois me regenerar e assim segue. E quando são jogos seguidos, um atrás do outro, ainda é em uma cadência mais forte de destruição e recuperação.

Não é saudável...

Tenho consciência que não, e é por isso que tenho os problemas que tenho. Eu não posso comer isso, aquilo, não posso beber. Não desfruto, mas vivo intensamente e adoro minha profissão. Já disse várias vezes: vou morrer, e vai acontecer dentro do campo. Dando um treino ou em um jogo, cair para o lado... e não me importo. Amo minha profissão. E me emociono muito com ela.

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Você diz ser um pacificador do futebol. O que é isso?

Falar do jogo com verdade, respeitando os outros, e tendo o fair play no topo da pirâmide. Sabendo que eu perco o jogo, dou os parabéns ao adversário, que foram leais. Não quero paz e flores no futebol, quero “guerra”, mas entre aspas. Quero que minha equipe chegue, lute, bate, queira o gol, jogue equilibrado e para frente, no máximo das suas capacidades até o último segundo. Mas acabou o jogo, acabou a luta. Vou jogar contra o Vitor Pereira (ténico do Corinthians), somos muito amigos e temos uma relação ótima. Durante o jogo quero que ele perca, e eu sei que ele sabe disso. Mas não deixo de ser amigo dele.

Pensou seriamente em sair do Botafogo em algum momento?

Não, de verdade, nunca pensei em sair. Já houve convites financeiramente mais vantajosos do que o que tenho aqui, eu nem quis ouvir nada. Nunca dei atenção a uma possível saída porque eu acho que o entusiasmo que as pessoas que me contrataram puseram é uma responsabilidade para mim. Eu nunca quis desiludir ninguém, muito menos quem aposta na gente. É um compromisso que eu tenho com o Botafogo, comigo mesmo, equipe e jogadores. No dia que eu entender que minha permanência é mais nefasta que algo que possa engradecer o clube eu partirei e direi os motivos. Até eu entender isso, vou ter que esperar que me mandem embora, porque, por mim, não sairei. Escolhi o Botafogo porque havia aqui um trabalho diferente dos outros em função do que o John Textor me disse. Encontrei algo diferente do que tinham me descrito, mas isso não me abalou minimamente. Minha linha de vida tem sido essa: não me abalar nas dificuldades. E ser resiliente. E vou ser: não vou sair e vou ficar aqui até o último segundo do meu contrato. Posso falar de forma tão afirmativa? Não, mas não por mim. E sim por aquilo que é o futebol e por aquilo que são as pessoas que muitas vezes pensam diferente de mim. Há uma ou outra circunstância que se acontecer, terei de sair. Mas não vou dizer o que é, se não vão fazer e terei que sair mesmo (risos). Mas não queria.

E como pensa que será esse futuro junto?

O Botafogo é um clube histórico, o mais tradicional, com grandes glórias, tem um passado riquíssimo. E o que nos interessa agora é o presente, porque o futuro vai depender disso. Hoje, não estamos bem, mas estamos trabalhando muito para estarmos bem. Estamos com muitos problemas, mas a curto e médio prazo, o Botafogo estará em um nível muito alto nas estruturas físicas e de desempenho no futebol, o que vai deixar a torcida muito alegre. Não tenho dúvida disso porque sinto a estrutura empenhada em resolver os problemas. O CT é um problema, a base que não é junta e organizada também, a comunicação interna será sempre um problema, a organização também. Mas estamos todos fazendo um esforço para sermos fortes.

Para encerrar, depois de todo esse papo, repito a primeira pergunta. Está feliz?

Sinto me feliz no Brasil, no Rio, no clube. E ao contrário do que pensam, sinto muito mais apoio do que vocês imaginam, mesmo nas redes sociais. Fico espantado e surpreendido mesmo nas piores horas. Sinto que há muita gente que quer muito bem o Botafogo e a querer que o clube cresça, se eleve e entendem o momento. Há outros que não entendem o momento, mas que também querem ver o Botafogo crescer. Uns entendem mais, outros menos, mas me sinto feliz. Vivo de convicções, acho que vai dar tudo certo. Se não der, já sabem o que acontece.

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