Luana Génot: Caras da COP

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Uns dizem que a COP26 (Conferênciadas Nações Unidas sobre MudançasClimáticas), que aconteceu este mêsem Glasgow, na Escócia, foi umfracasso — especialmente entre ospaíses mais ricos. Muito “blablablá”em belos discursos e poucaspropostas concretas para deter oaquecimento global. Outros defendem que o simples fato deter a pauta sobre a mesa é melhor do que nada. Eu acreditoque a conferência ajuda a dar nomes aos responsáveis pornegligência e a provocar uma maior proximidade com otema, aproveitando a cobertura da mídia em torno doassunto, que se estende além do próprio evento.

Percebeu que algumas marcas, inclusive, vêm secomprometendo a compensar e até eliminar emissões decarbono? Parece pouco e é, perto do que precisa ser feito.Mas, ao mesmo tempo, é também alguma coisa. Aindaolhando o lado do copo cheio, apesar da frustração sobreo balanço do evento, um ponto importante foram outrasfiguras que apareceram, além de Greta Thunberg. Nãohavia tanta diversidade entre as lideranças globais, éverdade, mas, sim, entre os jovens brasileiros que foram lános representar. Como Txai Suruí, líder indígena, de 24anos, que discursou pela demarcação de terras indígenase contra o desmatamento, citando Ailton Krenak e nosdando esperança e ideias para “adiar o fim do mundo”,assim como o ambientalista escreveu em seu livro.

Líderes da Coalizão Negra por Direitos,como Douglas Belchior e Kátia Penha, daCoordenação Nacional de Articulação deQuilombos (Conaq), marcaram presençapela primeira vez falando sobre racismoambiental e titulação de terrasquilombolas. Vimos Raull Santiago, doColetivo Papo Reto, destacando a ausênciados governos nas favelas durante a pandemia. Tivemos MiaMottley, primeira-ministra de Barbados, abordando a crise queameaça a existência da ilha, por causa da elevação do nível domar. E acompanhamos ainda Vanessa Nakate, 24 anos, ativistaugandense, considerada uma das grandes vozes jovens emjustiça climática. Foi capa da revista Times.

Seguir estes nomes nas redes sociais é importante. Fiqueipasma de constatar que Vanessa possui apenas pouco maisde 100 mil seguidores no Instagram. Rolando seu perfil, hávárias fotos dela com Greta, que tem milhões de seguidores.Fiquei me perguntando por que vemos Vanessa com menosfrequência do que Greta. Encontrei resposta em outrosmomentos da história, como no Fórum Econômico deDavos, de 2020, quando Vanessa foi cortada de uma fotocom outras jovens ativistas brancas. Ela ressaltou que,ao apagá-la, tentavam cortar um continente inteiro.

Será que conseguiremos adiar o fim do mundo semcompromisso com mudanças climáticas e apagando ou dandomenos peso e seguidores a narrativas não brancas? Queroacreditar que, na contramão do descompromisso climático,há esperança para a mudança. E, sobretudo, muita ação paratornar a justiça climática uma realidade, que não fique nos belosdiscursos. Tenho esperança na possibilidade de umamultiplicidade cada vez maior de gente que tenha tanto pesoquanto Greta, entre a juventude e entre governantes. Porquetodas estas vozes importam, ou pelo menos deveriam importar,para além da COP26. Assim como a luta por igualdade racialdeve transcender o Mês da Consciência Negra

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