Luana Xavier revela questões emocionais ao falar sobre obesidade em ‘Sessão de terapia’: ‘Angústias da personagem são as minhas’

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“Eu estou com medo. Se não emagrecer, posso morrer”, desabafa Giovana em sua primeira “Sessão de terapia” com Caio. Cara a cara com o psicólogo interpretado por Selton Mello na série que acaba de estrear nova temporada no Globoplay, Luana Xavier ativou questões emocionais muito íntimas. Diagnosticada com obesidade grau três, a atriz é voz ativa sobre a doença nas redes sociais e em campanhas de conscientização. E ressalta a força desta sua personagem dramática na prestação de um serviço importante à sociedade: “Quando o audiovisual mostra mulheres gordas, geralmente é de maneira estereotipada: elas tentam ter um relacionamento, mas nunca são as escolhidas. Ou são as engraçadas. Talvez seja a primeira vez que falamos sobre isso com tanta responsabilidade”.

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A arte imita a vida

“Giovana passou pela bariátrica por uma questão estética. Perdeu bastante peso, mas durante a pandemia recomeçou a engordar, por tanta tensão e ansiedade. Foi procurar um médico e se descobriu diabética, hipertensa, com gordura no fígado... Quando eu me deparei com os anseios e angústias da personagem, percebi que eram também os meus, embora eu nunca tenha passado pela bariátrica. Morro de medo de ‘entrar na faca’! Quero, antes, esgotar todas as possibilidades de tratamento para a obesidade”.

Emoção rolou solta

“Quando fui chamada para o teste, não tinha ideia do dilema da personagem. Na primeira leitura do texto, sozinha em casa, solucei de tanto chorar. Aquilo me tocou profundamente. Depois, com Selton (além de protagonista, ele é diretor da série) e a assistente de direção, também não consegui segurar a emoção. Ele disse: ‘É justamente por causa disso que a gente está vendo, por ser tão genuíno esse sentimento, que você foi aprovada’”.

Proximidade com Selton

“Antes de conhecer Selton, fiquei muito amiga do seu Dalton, pai dele. Amiga mesmo, a ponto de a gente se sentar para tomar um chope juntos e falar sobre a vida. É que, com 19 anos, fiz o espetáculo 'Dona Flor e seus dois maridos', e ele era contador da peça, viajava com a gente pelo Brasil. Então, criamos uma intimidade. Aí, em 2019, fui convidada por Fê Paes Leme para acompanhá-la num spa. Chegando lá, quem encontramos? Pai e filho. Selton contrabandeou para nós duas um prato de melão, no meio da madrugada. Ele podia comer mais calorias porque não estava lá para emagrecer, só para relaxar. Foi aí que a gente teve oportunidade de conversar mais, trocar ideias”.

Constrangimentos reais

“Eu já passei por tantas situações constrangedoras por conta do meu peso, do espaço que ocupo... No avião, o cinto de segurança não coube em mim, e eu viajei sem, com vergonha de pedir o extensor. Coloquei uma echarpe por cima, pra disfarçar e a comissária de bordo não perceber. E não foi uma vez só, não, foram algumas. A verdade é que a sociedade não está pronta para lidar com pessoas obesas. Amigas já me contaram que, para fazer determinado exame de saúde, precisaram subir em balança destinada a cavalos, porque a comum não suportava seu peso”.

Pressão estética

“Só tive sobrepeso diagnosticado aos 20 anos. Obesidade, aos 25. Antes, eu sofria era pressão estética, insistiam que eu precisava emagrecer porque era atriz. Ouvi isso durante muito tempo. Sempre fui uma mulher de estrutura física grande, tenho 1,80m de altura! Nos meus 14 anos, eu já vestia manequim 44, mas não era gorda, embora me fizessem acreditar que eu realmente era”.

A terapia como aliada

“Minha primeira vez na terapia foi em 2016. A psicóloga tinha uma linha mais espiritualizada, mas essa parte em mim já está muito bem-resolvida, frequento o terreiro de umbanda para isso. Depois, em 2018, eu estava fazendo ‘Orgulho & paixão’ na Globo e tive direito a um plano de saúde maravilhoso. Fui a uma psicóloga que também era nutricionista. Foi ótimo, mas acabou o contrato com a emissora e eu não pude continuar pagando as sessões. Em 2019, encontrei uma psicóloga preta, que foi um diferencial: muitas das minhas questões estão ligadas ao racismo enraizado na sociedade. Mas nosso ciclo se fechou. No ano passado, comecei com outra terapeuta negra, maravilhosa. Se ela me der alta, eu não aceito (risos). Mesmo on-line, ela me faz acessar lugares dentro de mim que eu nunca tinha conseguido. Digo para todo mundo: façam terapia! É tão importante!”.

Principais questões

“Todas as vezes em que cheguei na terapia pela primeira vez, falei: preciso emagrecer e aprender a dizer ‘não’. Essas eram as minhas questões. No desenrolar das sessões, fui encontrando outros pontos que precisavam ser trabalhados. O enfrentamento ao racismo, eu sabia que era necessário, mas não conseguia verbalizar logo de primeira. Era como se não saber lidar com isso fosse uma fraqueza minha”.

Compulsão alimentar

“A dificuldade de dizer ‘não’ está diretamente ligada à obesidade. Não consigo negar muita coisa, inclusive a comida. Daí, minha compulsão alimentar. Desde fevereiro, tenho conseguido alinhar os pilares alimentação, exercício físico e terapia, e eliminei 13 quilos. Isso pra mim foi uma vitória sem tamanho. Acho que agora estou num caminho real de autocuidado. O importante não é o número na balança, mas saber que o meu colesterol está ok e a minha pré-diabetes, controlada”.

Relacionamentos amorosos

“Faço 34 anos em julho e ainda não vivi um relacionamento amoroso, de fato. É só uma ficada aqui e outra ali, e acabou. Já achei que era por estar fora do padrão que os caras desejam, até perceber que isso está ligado à questão racial. É sobre a solidão da mulher negra. Muitas viram chefes de família, criam os filhos sozinhas. Geralmente, somos vistas como fetiche, preteridas a aventuras sexuais pontuais. Eu vim nessa vida heterossexual, errei. Espero que em algum momento eu evolua e deixe de gostar de homens (risos)”.

Valei-me, Santo Antônio

“Estou fazendo a Trezena de Santo Antônio (considerado casamenteiro) cantada. Herdei essa tradição da minha avó (a atriz Chica Xavier, que morreu em agosto do ano passado). Ele já deve ter colocado algodão nos ouvidos, não me aguenta mais (risos)! Faço a minha própria propaganda no Instagram (onde ela tem 256 mil seguidores). Dos aplicativos de relacionamento, me afastei. Um cara se empolgou porque eu era ‘a Luana Xavier do Instagram’. Não sei mais quando querem me conhecer de verdade ou só para contar aos amigos que estão ‘pegando uma famosa’”.

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