Lucas Silva, do Flamengo, escapou de ser vilão na Libertadores. Hoje, vive aprendizado em Doha

Marcello Neves

As medalhas de campeão simbolizam um ano de vitórias para Lucas Silva. Mas a maior delas não aconteceu nos gramados nacionais ou em Lima, no Peru. O atacante de 20 anos do Flamengo joga munido pelo desejo de retribuir o esforço feito pelos seus pais, Gleiton Santos e Cirlei da Silva, que trocaram arroz e feijão na mesa para pagar as passagens de ônibus aos treinos. Para Luquinhas, como é chamado em casa, dar condição melhor de vida a eles é o maior título.

Entender a posição que ocupa molda o caráter de Lucas. Mesmo atuando no clube mais rico do país, não esquece das raízes e tenta auxiliar as crianças do bairro de Santa Cruz, no Rio, onde deu os seus primeiros chutes. Assim como também não esquece das vítimas do incêndio no Ninho do Urubu, a quem mostra empatia e dedica a principal conquista da temporada.

— Dedico esse título [da Libertadores] para todas as dez vítimas [do incêndio no Ninho]. Não tinha muito contato, mas todos os dias via os meninos alojados. Eles passavam e pediam fotos. Temos que ter um carinho muito grande pelas pessoas, pelos meninos mais novos, porque somos espelhos para eles. Infelizmente aconteceu essa tragédia, mas acredito que eles estão num lugar muito melhor que a gente e dedicamos esse título, sim, para eles.

Como você reagiu à notícia no dia do incêndio no Ninho?

Não ficava alojado porque saía mais cedo de casa, preferia ficar mais próximo da família. Eu sabia o quanto era difícil para os meninos ficarem longe de suas famílias. Você via alegria no rosto e a vontade de ir em busca dos seus objetivos e sonhos. Quando recebi a notícia, foi um baque total. Uma dor imensa, porque foram sonhos interrompidos. Mas temos que saber superá-las e dedicar todas essas conquistas para os meninos e seus familiares

Você também já foi um garoto da base...

Com nove anos eu olhava para o meu pai e perguntava como faria para jogar na televisão. Ele disse que era difícil. E ali disse que era o meu sonho e minha família foi em busca. Sabia que poderia acontecer coisas importantes na minha vida, conquistas inéditas...

E viveu dificuldades.

Passamos por muitos momentos difíceis no começo antes de chegar no Flamengo. Meu pai (Gleiton Santos de Jesus, 42 anos) trabalhava de moto-táxi e diversas vezes não conseguia passagem. As vezes só tinha para mim e eu ia para São João de Meriti sozinho. Ele me colocava na van, eu descia na passarela 28 e pegava o ônibus 800. Ia pelo caminho pedindo a Deus para que ele me ajudasse porque um dia eu ia conseguir realizar o sonho da minha família e o meu sonho.

Como é a sua relação com a sua mãe?

Minha mãe (Cirlei da Silva de Jesus, 39 anos) interferiu muito. Me ajudou muito. Na época trabalhava na casa de família. Passamos por um momento que meu pai não tinha mais emprego e minha mãe que segurou a bronca em casa. Tinha dias que ela trazia pouco dinheiro e falava para o meu pai que era arroz com feijão e ovo ou o dinheiro da passagem. E muitas vezes meu pai falava que era melhor dar a passagem. Minha mãe num primeiro momento ficava desesperada, mas abriu mão disso e hoje em dia graças a Deus nós fomos honrados, não passamos mais por necessidades.

Como vê essa responsabilidade de sustentar a família?

Hoje em dia, eu chego no bairro (Santa Cruz) que nasci e muitas pessoas vem me dar parabéns. Eu vejo a alegria no rosto daquelas pessoas e posso ser exemplo para muitas crianças que tem o mesmo sonho que o meu. Eu incentivo muito a eles superar as dificuldades da vida e sempre acreditar em Deus, acreditar que a pessoa mesmo pode ter forças vindo de Deus para alcançar os seus objetivos.

Você quase saiu do Flamengo, mas o Jorge Jesus quis a sua permanência, não é verdade?

Ele me passou bastante confiança e disse que acreditava no meu trabalho e confiava em mim. Antes daquele jogo (contra o Emelec, pelas oitavas, Lucas Silva erra um passe que gera o segundo gol dos equatorianos) teve algumas propostas, mas o próprio Jorge Jesus não me liberou. Depois daquele jogo ele conversou comigo, me passou bastante confiança e falou para aguardar as próximas oportunidades. Ele conversava no treino. Falava para ter mais confiança em mim mesmo. Quando tiver a bola ali na frente, ir para cima do adversário e ter alegria. É isso que tenho feito.

Como foi sua primeira conversa com Jesus antes do primeiro jogo como titular?

Não sabia que iria começar jogando. Poucas horas antes, teve uma reunião na sala e me chamou. Falou que eu iria jogar e perguntou se eu estava preparado. Ele ia me dar aquela oportunidade pelos treinamentos que eu vinha fazendo e ele estava observando. Ele falou que tinha confiança que eu iria fazer uma excelente partida e, graças a Deus, eu consegui.

Teve algum jogador que veio lhe dar conselhos?

No ônibus, chegando lá em Lima, o Willian Arão chegou perto de mim e falou: ‘Aproveita bastante esse momento, porque poucas pessoas da sua idade podem viver um momento como esse. Então aproveita cada detalhe, cada momento, porque vai ser muito importante para a sua carreira. Quando tem viagem, o Rafinha é meu companheiro de quarto. Sempre peço para ele contar algumas histórias da vida dele no futebol. E ele fala a mesma coisa, que é para confiar em mim, quando ter a bola ir para dentro dos adversários, que eu sou inteligente. E é isso que venho fazendo quando tenho as minhas oportunidades e estou me soltando cada vez mais dentro de campo.

O que esperar para 2020?

Estamos trabalhando e esperando as oportunidades chegarem. Estamos no final da temporada e vamos ver o que vai acontecer. Primeiro estamos focados no Mundial. E depois a gente pensa em 2020. Com certeza se tiver a oportunidade, vou saber agarrar e aproveitar.

Como mostrar espaço no atual Flamengo?

Nos treinamentos. Com confiança em mim mesmo. Até os companheiros mais experientes falam para a gente ter mais confiança em si, para ir para cima dos adversários. Gerson conversou ontem comigo, disse que eu sou um baita jogador e que é para ter mais confiança em mim.