Luciano Huck ajuda menina que trocava máscara por alimento em sinal: ‘Imaginei meus filhos naquela situação’

Rafael Nascimento de Souza e Márcia Foletto
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A menina Ana Júlia, de 9 anos, que trocava máscaras por alimentos num sinal na Zona Oeste do Rio

A foto de uma menina trocando máscara por alimento num sinal do Recreio dos Bandeirantes viralizou em poucas horas. Por volta das 9h desta quarta-feira, o empresário Rúbio de Santana, de 33 anos, parou na Avenida Alfredo Baltazar da Silveira, no bairro da Zona Oeste do Rio, e viu a menina franzina entre os carros e os outros vendedores. Ela segurava um papelão, com os dizeres: “Troco uma máscara por um alimento”. Rúbio não só a ajudou, como registrou a situação e postou numa rede social. Não demorou para a imagem começar a ser compartilhada, fazendo uma corrente de solidariedade, que incluiu até famosos como Luciano Huck, surgir para amparar a pequena Ana Júlia Sabino, de 9 anos.

Huck entrou em contato com a mãe da menina, Silvana Cristina Costa, de 30 anos, enquanto conversava com o EXTRA. O apresentador prometeu ajudá-la, sob a condição de que a família, que mora em Santa Crus, voltasse para casa e não vendesse mais balas no sinal.

Ao jornal EXTRA, após a ligação, Huck contou:

— Fiquei imaginando meus filhos, que têm a mesma idade (de Ana Júlia), naquela situação. É como eu tenho dito com bastante frequência: a solidariedade tem que ser mais contagiosa que o vírus.

Huck ainda analisou:

— Ana Júlia e sua família são a materialização das consequências dessa pandemia nas famílias (brasileiras). A mãe trabalhava vendendo picolés na praia. Hoje, não tem ninguém na praia. A mãe trabalhava como diarista, acabou o trabalho também. Ela cuida dos filhos sozinha e pela primeira vez na vida abriu a geladeira e o armário e não tinha comida para as crianças nem para ela. E por isso foi para a rua tentar ajuda. Graças a Deus, hoje em dia, as pessoas estão olhando a sua volta e percebendo que estamos mais interconectados como nunca e que um problema na favela é o mesmo problema do asfalto. Eu fiquei muito tocado. Falei com a mãe (da Ana Júlia) e espero que eu tenha conseguido ajudar e fazer com que a família volte a ter um pouco de paz pelo menos por algum tempo.

“Foi um anjo que passou e fez essa foto”

A foto de Ana Júlia foi compartilhada por várias pessoas em pouco tempo. Entre elas, a deputada estadual Renata Souza (Psol), que viu a imagem no perfil de uma amiga e foi atrás de mais informações. A parlamentar conseguiu falar com Silvana e ofereceu à família toda a ajuda disponível pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Ontem, dezenas de pessoas foram ao local ajudar a família.

— Foi um anjo que passou e fez essa foto — diz Silvana, que não esperava a repercussão.

Rúbio, que registrou aquele momento que ganhou as redes sociais nesta quarta-feira, lembra:

— No momento em que ela passou, segurando a placa, fiquei com um nó na garganta. Doeu no coração, porque tenho uma criança de 6 meses. Foi uma mistura de sentimentos. Quis fazer a foto não para expor a menina, mas para mostrar que ela é um símbolo da realidade de muita gente, mas que algumas pessoas não enxergam.

Ana Júlia, a mãe e os três irmãos já haviam ido ao local outras duas vezes. É que, por conta da pandemia do novo coronavírus, a empregada doméstica Silvana Cristina Costa, de 30 anos, perdeu o emprego e não sabia mais o que fazer para conseguir sustentar os quatro filhos.

— Como eu tinha alguns doces que vendia na praia, decidi vir para cá (para o sinal). Também pedi a uma vizinha que fizesse umas máscaras para eu vender. Era o que me restava. Recebi os R$ 600 de ajuda do governo, mas não foi suficiente — afirma Silvana.

A pequena Ana Júlia, estudante do quarto ano de um CIEP em Santa Cruz, por ora está sem aulas. Vez ou outra recebe lições para fazer em casa. Sem ter o que fazer e vendo a situação da mãe, pediu para ajudar na venda dos produtos:

— Minha mãe é muito trabalhadora. Ela faz faxina, trabalha na praia, e eu, vendo essa situação, pedi para vir ajudá-la.

Silvana conta que levar os filhos, que têm entre 9 e 14 anos, para o sinal não era seu desejo. Só que ela não tinha com quem deixar as crianças:

— Viemos porque estava faltando alimentos para eles. Eu fiquei com receio, não queria que eles estivessem comigo.