Luciano Szafir vê cicatrizes da internação por Covid como 'troféu': "Vaidade hoje é estar vivo"

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Há quase dois meses fora do hospital, depois de uma longa internação por complicações da Covid-19, Luciano Szafir, que precisou ser intubado, ainda não está 100%, como ele mesmo confessa. Mas está no caminho. 

Para este ensaio da Canal Extra, por exemplo, o ator foi dirigindo até a Cidade das Artes. Acostumando-se a uma bolsa de colostomia, com a qual precisa conviver até a cirurgia de reconstrução intestinal, em novembro, fez as trocas de roupa com toda a cautela necessária, ciente dos focos do corpo que necessitavam de mais atenção. E, revivendo os tempos de modelo, se divertiu fazendo as poses.

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 "Para amarrar os sapatos, um dos lados ainda está complicadinho. Caminho devagar, senti uma dorzinha, mas não é nenhum bicho de sete cabeças perto do que passei. Em uma pose, até brinquei que meu equilíbrio foi embora. Não dava. Uma das fotos de referência tinha um modelo pulando. Eu até poderia saltar, mas quem iria me levantar do chão?", brinca o galã, de 52 anos.

O dia das fotos coincidiu com mais uma etapa da vacinação contra o coronavírus, o que deixou o vão aberto do complexo cultural, onde a equipe estava, repleto de cariocas ansiosos pelo imunizante. A longa fila animou o pai de Sasha, de 23 anos; David, de 8; e Mikael, de 6. E o fez relembrar os motivos por que tem aceitado dar entrevistas. 

"Ver a fila cheia dá esperança. Não gosto de falar da minha vida, mas decidi expor o que vivi para desmitificar muita coisa, como a ideia de que quem pegou uma vez o vírus não pega de novo (ele foi reinfectado). E também para conscientizar. É preciso evitar aglomerações, usar máscara, álcool em gel... Nunca tive tantas dores. Quando estamos perto de perder quem amamos, passamos a dar mais importância às pequenas coisas.

Nesta entrevista, Szafir afirma que novos hábitos, como fazer terapia e reservar momentos para a meditação, o têm ajudado.

Você teve medo de morrer?

Várias vezes. Um episódio me traz arrepio até de falar. Tive arritmia cardíaca. Acordei às duas da manhã sem entender por que tinha tantos médicos a minha volta. Olhei o monitor e meus batimentos cardíacos chegavam a 180. A enfermeira me mandou segurar na mão dela ao me dar um remédio e disse: “Vai melhorar, mas antes vai piorar muito”. Na mesma hora, senti uma queimação, como se fosse uma lava dentro do corpo. Os batimentos aumentaram, ouvi o “piii” e vi o traço no monitor. É como nos filmes. Pensei: vou morrer nos próximos segundos. Aí dão um reinício, como num computador, e os batimentos voltaram aos poucos.

A sua internação foi marcada por altos e baixos. Como fica a cabeça?

São batalhas o tempo todo. Porque ora você está bem, ora não. Tive muito sangramento, e a equipe falava: quem sangra uma, sangra duas, três. Nossa mente é traiçoeira. Estava fraco, com dores, sem conseguir me mexer. Pensava que não conseguiria voltar. Eu me apegava a minha família. Sassá (Sasha Meneghel, sua filha com Xuxa) ia sofrer, mas já está encaminhada na vida. E os pequenos (filhos com Luhanna Melloni), a quem tenho tanto a ensinar? Como minha mulher vai segurar a barra? E minha mãe (Beth Szafir), que já perdeu uma filha e vai ter que enterrar outro? Aí vinha a força para me manter otimista. “Meu Deus, não posso morrer agora”. Por mais difícil que fosse, tentava fazer tudo o que os médicos mandavam. Também rezava e falava com as células do meu corpo: “Vamos melhorar”. Parece bobo, mas me agarrava a tudo.

Na volta para casa, o medo ainda ronda?

É ótimo voltar para casa, mas dá uma insegurança. Se acontecesse algo no hospital, os médicos já estavam de prontidão. Em casa, não. Comecei a fazer terapia duas vezes na semana. Nunca tinha feito. Estava muito ansioso e foi uma sugestão da equipe médica. É uma recuperação de médio a longo prazo. Há vezes em que chego no fim do dia e chamo meu amor para deitar comigo e segurar a minha mão (para conter o medo). Mas isso tem diminuído. O que também tem ajudado é fazer meditação: 20 minutos quando acordo e 20 antes de deitar. Me dá uma paz... Também rezo e agradeço por mais um dia de vida. Sem contar a fisioterapia.

Entre as coisas rotineiras, do que estava com saudade de fazer ou comer?

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi agarrar meus filhos e queria muito deitar na minha cama. Fomos todos ver um filme. A dieta ainda é bastante restrita, mas fui autorizado a quebrá-la um pouquinho. Comi açaí. Peguei um pote de 1 litro. Mas estou colostomizado, então tudo acontece (risos). Não tem sido muito agradável.

Isso mexe com sua vaidade?

Minha vaidade hoje é estar vivo. Se vou ter um buraco ou barriga flácida, não estou nem aí. Não quero ser aquele tiozão que faz loucuras nem comparar meu físico com o que tinha aos 25 anos. Já tive a sorte de ter um corpo bonito, ter aquele tanquinho. Hoje, tenho uma máquina de lavar (risos) e tudo bem. Meu foco é na minha recuperação, quero poder me alimentar bem, me exercitar e ajudar o máximo de pessoas que eu puder, como no Projeto com Vida.

O que você faz exatamente neste projeto?

Entrei como padrinho, para ajudar a angariar fundos. O objetivo é ajudar pessoas com sequelas pós-Covid. É que virou costume sair do hospital com a placa “Eu venci a Covid”. Mas esse é só o primeiro tempo. Ainda tem o segundo, pode ter prorrogação, pênalti. E tem ainda o apoio às famílias enlutadas. Por isso resolvi abraçar a causa.

Teve a sensação de ter envelhecido muito na internação? Tem receio do passar dos anos?

Fiquei chocado quando me olhei no espelho, estava com o rosto muito magro, perdi 22 kg, minhas pernas estavam finas. Deu um baque. Mas minha recuperação física tem sido rápida. E acredito na máxima de que quem não envelhece é porque já morreu. E não tenho medo, até porque já envelheci. Os músculos não são os mesmos, as dores são maiores... 

Como está a relação com a sua mulher, depois de terem passado por essa barra juntos?

Tenho a observado, às vezes, de longe, e percebo que Luhanna ainda está cansada. E no silêncio dela sinto o medo que ela teve de me perder. Nós sempre tivemos um relacionamento gostoso, nunca dormíamos brigados, sempre fomos amorosos, e sinto que isso cresceu ainda mais. Quando a vejo brincando com os nossos filhos, volto a pensar que poderia ter perdido tudo isso. É aí que falo dos laços ficarem mais fortes. Dá a entender que já nascemos morrendo e passamos a ter mais respeito com a vida. Tenho tentado me desprender do celular, por exemplo, quando estou com eles para focar exatamente no que estamos fazendo juntos.

Como fica a libido?

Graças a Deus, disso não posso reclamar. Tenho restrições a certos movimentos. Aquelas coisas de canguru perneta, virar de cabeça pra baixo, que rolava na adolescência, tenho que adaptar à idade (risos). Brincadeiras à parte, quando se volta para casa, você só quer se recuperar. Mas no nosso caso, se pudesse, estaríamos “fazendo” ainda no hospital.

As crianças tinham a dimensão do que o papai estava passando no hospital?

 Minha mulher segurou uma bronca absurda e os distraía em meio ao caos. Acho que o mais velho tinha uma percepção de que era grave. E eles estão se acostumando a ver minhas cicatrizes agora. Se estou sem camisa, pedem para eu me vestir. É que os cortes viraram um troféu para mim, mas para eles é feio. Sem contar que eu, que sempre fui grandão, não tenho tido tanta força pra brincar com eles. E Mikael e David sentem, claro.

Como se sentiu ao ver Sasha voltando da lua de mel, nos Estados Unidos, para vê-lo?

Atrapalhei a lua de mel, né? Foi uma das primeiras coisas que brinquei com ela (risos). Eu me emocionei muito quando a vi e fico tocado só de lembrar. Eu fazia de tudo para não preocupar ninguém. Mesmo com muitas dores, escolhia o melhor momento para telefonar. Mas os médicos me traíam e contavam a verdade. 

Como é a relação de vocês com a distância?

Nos falamos sempre. Eu já tinha, antes da internação, o hábito de ligar para a minha família sempre. Agora, antes de dormir, mando mensagem para todos. Sou o pentelho das conversas por vídeo. Às vezes, nem tenho o que falar: “Filha, está fazendo o quê? Ah, nada também. Te amo, beijos”. 

Como Xuxa, você já está doido para ser avô?

A diferença é que Xuxa não lembra mais como é curtir criança em casa. Eu, depois de velho, aos 43 anos, fui ter filhos. Sou quase pai-avô (risos). Falo para Sasha que tudo muda depois da gravidez. Para melhor, é claro. Mas digo: “Não se esqueça de você”. Eles são novos, têm que aproveitar a vida. Só que eles querem muito. Acho que não vai demorar.

Saiu uma nota dizendo que Xuxa teria pagado pelo seu tratamento, o que foi desmentido pela sua assessoria. Como se sentiu ao ler isso?

Claro que não gostei, mas passaram três segundos e já nem lembrava. Com 20 e tantos anos de carreira, estou acostumado. Estava preocupado em ficar vivo. Tenho plano de saúde e condições de arcar com tudo. E, se Xuxa tivesse pagado, não teria vergonha. Nunca nos afastamos e isso nunca vai acontecer. Além de uma filha linda, temos um carinho grande um pelo outro. Tivemos 14 anos de história.

O que também virou notícia sobre sua família foi o reality show “Os Szafir”, do canal E!. Como foi se aventurar no programa? 

Esse tipo de reality é tranquilo. Para ficar trancado numa casa com câmera 24h, aí não toparia, só se fose um cachê que desse para eu me aposentar (risos). O legal foi ver a minha mãe, ela é a grande estrela. Mostramos bastidores, como eu ensaiando peça, Luhanna compondo. Tem um barraquinho ou outro, mas é coisa de família que se ama, não é baixaria. A segunda temporada já foi gravada.

Créditos

Texto e produção executiva: Leonardo Ribeiro

Fotos: Márcio Farias

Styling: Samantha Szczerb 

Beleza: Daianne Martins 

Agradecimento: Cidade das Artes

 

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