Ludmilla tem razão: não podemos aceitar a chacota de Rodrigo sobre a sexualidade de Brunna

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Ludmilla e Brunna Gonçalves; a bailarina está no BBB22 (Reprodução Instagram)
Ludmilla e Brunna Gonçalves; a bailarina está no BBB22 (Reprodução Instagram)

Repetitivo e obcecado por Jogo, Rodrigo acabou se destacando no 'BBB22' exatamente por se recusar a seguir o molde do "BBB da gratidão" proposto por Tiago Abravanel e que entediou o público no primeiro Jogo da Discórdia. O brother não é um grande jogador e jamais chamaria tanta atenção se a escalação fosse mais afiada, mas no momento ele é a esperança do público que curte articulações de jogo, treta no paredão e combinações de voto.

Rodrigo, entretanto, também está chamando atenção pelos motivos errados, e foi alvo de reclamações de Ludmilla sobre a maneira condescendente pela qual ele trata o casamento dela com Brunna Gonçalves. O brother fez questão de perguntar, em tom de ironia, se Brunna é de fato casada, sendo que ele já sabe da informação desde o primeiro dia do 'BBB22'. Rodrigo não trata da mesma forma pessoas que têm relacionamentos heteronormativos, caso de Douglas e Arthur Aguiar.

Em participação no "Encontro", Lud afirmou que o brother está desrespeitando a dançarina ao perguntar várias vezes se ela é casada, sendo que ele já sabe da informação. "Me incomodou o fato do Rodrigo perguntar mais de seis vezes se ela é casada, sendo que ele já sabe muito bem que ela está comigo. Tenho certeza que se ela fosse casada com homem ele não estaria perguntando, ele teria acreditado", disparou Lud,

Ludmilla tem razão: precisamos parar de naturalizar a chacota de Rodrigo em relação à Brunna. Em um país no qual a homofobia e a bifobia (relacionamentos de pessoas bixessuais) é tão presente, é inaceitável que qualquer brother sinta que tem direito de ironizar a sexualidade de outra pessoa diante de uma infinidade de câmeras. A segurança com que o brother faz tais piadas, mesmo com o Brasil assistindo, mostra como precisamos mudar de postura em relação a "brincadeiras" relacionadas à sexualidade não-normativa. Em uma sociedade homofóbica, o discurso é perigoso por reforçar preconceitos já existentes, e esse tipo de cena exibida em horário nobre na Globo faz com que tais piadas pareçam parte da normalidade e do cotidiano.

Como bem lembrou Anitta, Rodrigo também foi transfóbico ao usar a palavra traveco, pouco depois de Eslovênia se referir a Lina usando o pronome masculino. Quando não problematizamos essas questões e exigimos que a postura de tais pessoas mudem, especialmente quando elas são naturalizadas na TV para milhões de espectadores, contribuímos para uma sociedade ainda mais homofóbica e transfóbica.

Na casa, Brunna já cortou várias vezes algumas brincadeiras sem graça de Rodrigo, como quando o brother afirmou que está de olho no que Brunna e outras mulheres comprometidas estavam fazendo durante as festas. "Não preciso que você cuide não, eu sei cuidar de mim sozinha", rebateu a bailarina, finalmente silenciando Rodrigo. O discurso de que mulheres, especialmente aquelas que não seguem os padrões da heternormatividade, precisam ser "cuidadas" por homens também é extremamente nocivo, e reforça estereótipos que precisamos eliminar de nosso discurso de uma vez por todas.

Amor é amor

Independentemente da orientação sexual de Bruna ou Ludmilla, nem Rodrigo nem ninguém precisam questionar o amor entre as duas: amor é amor, e nenhuma informação é necessária para dar "contexto" ou oferecer informação para pessoas externas ao relacionamento. O fato de que as duas estão juntas e se amam deveria ser o suficiente para Rodrigo (e para o público), sem perguntas adicionais.

A mãe de Ludmilla, Silvana Oliveira, já havia falado sobre a mania dos brothers e espectadores do reality de se intrometerem no relacionamento alheio. "Engraçado que toda hora ele pergunta se Brunna é comprometida... Paranoico e noiado. Pimenta no c* dos outros é refresco, né", disparou ela

A homofobia é estrutural

Brunna Gonçalves no BBB22 (Reprodução Globoplay)
Brunna Gonçalves no BBB22 (Reprodução Globoplay)

Em suas brincadeiras, Rodrigo nunca falou diretamente sobre homofobia nem disse que era contra o casamento entre Brunna e Ludmilla, por exemplo. Seus discursos de ironia, entretanto, também precisam ser levados a sério, especialmente por estarmos em uma edição do reality com tantas pessoas LGBTQIA+, que não merecem ser vítimas de violência estrutural enquanto lutam por exposição e oportunidades de trabalho.

O "BBB22" é a edição do reality com mais pessoas declaradamente LGBTQIA+: Lina, Brunna, Tiago, Vinicius, Maria e Luciano. Desde 2021, o reality se tornou uma plataforma ainda mais visível para discutir violências normalizadas contra tal comunidade: durante a edição do ano passado, buscas por termos como homofobia, racismo, bifobia, intolerância religiosa e xenofobia dispararam cerca de 610% a partir de janeiro, quando o reality estreou.

Fora da casa, os dados são alarmantes e escancaram porque não podemos aceitar nenhum tipo de chacota ou ironia sobre gênero, sexualidade e normatividade. Mesmo que a LGBTQIA+fobia seja crime no Brasil há mais de dois anos, a violência só cresce. De acordo com dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2021, o número de ocorrências contra pessoas LGBQIA+ cresceram 20% em relação a 2020.

No ano anterior, a média foi de 4 casos de LGTBfobia por dia, considerando lesão corporal, homicídio e estupro. O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+, especialmente mulheres pessoas trans, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Em 2020, foram 175 pessoas trans assassinadas, sem contar o número de crimes não declarados.

Onde estão as pessoas LGBTQIA+ na TV?

De acordo com o levantamento "Visual GPS 2021 da Getty Images", a comunidade LGBTQIA+ tem baixíssima representatividade na grande mídia e na publicidade. O relatório mostra que, quando existe representatividade, ela é estereotipada. Nos EUA, 30% das imagens na TV aberta e publicidade retratam gays de forma afeminada, 29% mostram pessoas da comunidade carregando a bandeira do arco-íris, 29% retratam mulheres lésbicas como masculinas e 28% representam pessoas gays como extravagantes.

Para Rodrigo, é natural que o casamento entre Brunna e Ludmilla seja "engraçado", algo a ser constantemente questionado ou colocado em cheque. É essencial que o público siga o mesmo raciocínio de Lud, e perceba que casais heterossexuais nunca são questionados, como se o relacionamento de pessoas normativas fosse o "natural" e casais lésbicos fossem "aberrações". Quanto mais normalizarmos o amor entre Brunna e Lud, Tiago Abravanel e o marido Fernando Poli e a bissexualidade de Maria e Luciano, maiores serão as chances para que o 'BBB' seja um espaço de debate, em vez de um show de horrores de violência contra minorias.