Luedji Luna sobre não exibir o filho na internet: "Ele não é o filho do Bruno Gagliasso"

Amanda Serra
·4 minuto de leitura

A fala é mansa, mas a potência de cada frase é maremoto, e que bom ser contemporânea de Luedji Luna, 33, em tempos assim. Em 2020, a cantora viveu a emoção de dois partos — o nascimento de seu primeiro filho, Dayo Oluwadamisi, e do seu segundo álbum “Bom mesmo é estar debaixo d'água", produzido junto com sua gestação.

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Um álbum de amor, mas não o idealizado, o “padrão" — "A preta que tu come e não assume. Por algum acaso eu não sou uma mulher”, diz um dos trechos das canções. Uma obra política — "[Mesmo minha música] não sendo panfletária, eu não deixo de ser política, porque meu corpo é político", diz a cantora que faz a gente refletir sobre uma tema que pode até parecer batido quando pensado em uma lógica branca.

'Bom mesmo é estar debaixo d'água’ é completo nesse sentido, pois traz todas as perspectivas do que é ser uma mulher negra amando, sendo amada e desamada também

"Amor é um tema superclichê, é um tema que todo mundo celebra, que todo mundo canta, que tudo mudou quer assistir na TV, na novela, enfim, o amor é o que mobiliza o mundo se não fosse o amor, o sexo não existiria humanidade. Quando a gente traz esse tema para a perspectiva de uma mulher negra, isso têm várias nuances do que é esse amor, do que é amar e ser amado. Porque a mulher negra ela nunca figura como um ser, como esse indivíduo agente do amor, que dá amor, que recebe amor. A gente é completamente apagada desse processo assim, que é um processo supernatural, superhumano e superclichê", Luedji reflete sobre seu trabalho.

“A gente não tá nas histórias, nos romances, a gente não é a princesa. Então, fiz questão de falar desse tema, embora seja batido, e por muitos anos eu fiquei renegando falar de amor, porque ‘todo mundo fala de amor, todo mundo escreve de amor, que brega, não vou fazer isso’, mas depois com a maturidade fui percebendo que esse é o tema mais importante para se falar nesse momento. Onde a gente tem um imaginário e uma lógica, onde o amor é negado para as mulheres negras. Então, falar de amor é reconstituir a nossa humanidade.”

Sabe, não é só porque eu sou negra que só eu quero falar de racismo

No Yahoo Entrevista desta semana, a baiana fala ainda como tem sido maternar em plena pandemia — e como isso é um ato de resistência e resiliência para uma mulher negra - e reflete sobre a crueldade do racismo nas redes sociais.

“Eu tenho muita vontade de exibir meu filho. Embora tem essa vontade, meu filho não é o filho do Bruno Gagliasso que tá dentro de um padrão estético, que vai ser lindo porque ele é branco, porque ele é loiro que ele tem olho azul. Então, fico pensando na maldade, em como o racismo opera na internet", afirma a cantora que é “a mãe que pode ser”.

Enquanto as mulheres são educadas para querer amar e querer constituir família, os homens são educados para serem potentes

"Historicamente e até hoje as mulheres negras elas não criaram seus filhos. Elas deixaram de amamentar os seus filhos, que eram vendidos durante o período da escravidão, amamentaram os filhos da casa grande. E acho um absurdo uma babá carregar meu filho, tudo que eu mais quero é carregar meu filho porque talvez a minha tataravó não conseguiu. Faço questão de disputar essa maternidade", afirma.

"A maternidade negra não é vivida com plenitude já há mais de 400 anos, então eu faço questão de reivindicar esse lugar e me encho de gozo de poder carregar os meus 3kg. O que pode ser lido como um algo brega ou reacionário: ‘Nossa, acabou com a vida dela, tá feia, tá gorda, não vai mais trabalhar, vai conseguir menos job por que virou mãe’, para as mulheres negras está em outro lugar. Essas conquistas que o feminismo alcançou, que colocou a mulher nesse lugar no mercado de trabalho, da disputa, acho isso superimportante, mas enquanto mulher negra eu não posso querer me desfazer de algo que eu nem consegui conquistar com plenitude que a maternidade. São lugares diferentes assim", Luedji deixa essa reflexão aqui par nós. Confira o bate-papo completo no vídeo acima.

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