Lugar marcado na areia: Barraqueiros loteiam a praia de Copacabana

Após a farra da proliferação de cercadinhos na areia durante o réveillon em Copacabana, turistas e cariocas passaram a conviver com mais um caso de loteamento na praia mais famosa do Rio de Janeiro. Apesar de a prática ser proibida pelo código de posturas da prefeitura, barraqueiros licenciados têm espalhado guarda-sóis e cadeiras pela areia para demarcar espaços, como ocorre, por exemplo, à beira-mar em Búzios e no Nordeste. Neste verão de forte calor, a irregularidade é cometida diariamente.

espaço reservado

Em casos extremos, os responsáveis ainda tentam extorquir ou constranger quem toma sol sem alugar o kit. Uma dessas vítimas foi uma turista goiana. Maria Clara Neves, de 65 anos, contou que um funcionário de uma barraca, na altura do posto 5 , disse que ela só poderia estender sua canga se alugasse uma cadeira.

— Ele me disse que aquele espaço era reservado apenas para os consumidores da barraca. Eu me recusei a pagar R$ 30 cobrados e fui embora — contou Maria Clara.

Durante cinco dias, equipes do GLOBO observaram a rotina de infração. Sábado passado, uma tenda para oito pessoas, totalmente fora do padrão permitido, era alugada por R$ 100 em uma barraca na altura da Rua Constante Ramos. Naquele dia, a equipe identificou um esquema clássico para fugir do flagrante dos fiscais da prefeitura: de boca em boca, corre o aviso sobre a aproximação de agentes da Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) e, de forma ágil, o material é recolhido.

— Os barraqueiros ocupam os espaços de uma forma que, se eu estivesse com meu próprio guarda-sol, teria dificuldade de arrumar espaço. Isso incomoda muito. Sou de Praia Grande (SP) e lá não tem isso — diz a empresária Suzana Zanotto, de 45 anos.

A demarcação começa a ser feita por volta das 7h, com a abertura de cadeiras, barracas e colocação de mesas. Logo, grandes áreas são tomadas.

O secretário de Ordem Pública Brenno Carnevale diz que a fiscalização tem atuado, inclusive com agentes à paisana. Nos últimos três meses, 57 barraqueiros (30% dos 190 credenciados) foram multados em R$ 401,26 por lotearem Copacabana.

— Em caso de reincidência, serão abertos processos para cassar autorizações, provavelmente em fevereiro. Estamos agindo, assim como atuamos contra os comerciantes que lotearam a praia no réveillon— afirmou o secretário.

Na virada do ano, 26 comerciantes que montaram cercadinhos — ou camarotes na areia —com serviços que chegavam a R$ 700 foram multados em R$ 4.012,50. A Seop abriu dois processos de cassação, que ainda estão em recurso.

Presidente da Associação do Comércio Legalizado de Praia (Ascolpra), Paulo Juarez diz que a entidade condena a prática do loteamento e orienta os filiados sobre as regras. É obrigatório, por exemplo, exibir a tabela de preços dos produtos e serviços.

— Infelizmente, os abusos existem. Mas são minoria. A gente sempre explica as regras— afirma Paulo Juarez.

‘terra de ninguém’

Banhistas também reclamam das áreas reservadas por alguns hotéis da orla para a instalação de espreguiçadeiras. A prática é regular, acertada em acordo da prefeitura com o setor para o conforto dos turistas.

— Para mim, é quase como uma privatização — reclama a advogada carioca Thaís Matos, frequentadora do Posto 6, no trecho em frente ao Hotel Fairmont.

Diretor do hotel, Michael Nagy contesta:

— Esses espaços para hotéis existem no mundo inteiro. Mas, às vezes, quando a praia está cheia, alguns banhistas reclamam.

O advogado e ambientalista Rogério Zouein, do Grupo Ação Ecológica, classifica a conduta como uma agressão à paisagem da cidade, considerada por lei patrimônio do Rio:

— Não são só os guarda-sóis. Também tem os quiosques que invadem a faixa de areia, como aqueles que foram demolidos essa semana na Barra. As praias parecem que são terra de ninguém — desabafa Rogério.

O GLOBO também constatou que nem todos os barraqueiros adotam os guarda-sóis padronizados distribuído pela prefeitura em 2021. Muitos usam equipamentos com publicidade, o que é proibida. Representante da categoria, Juarez alega que, com o tempo, parte dos kits estragou. O subprefeito da Zona Sul, Flávio Valle, afirma que o município busca um parceiro privado para distribuir mais unidades.