Luisa Marilac relembra as 7 facadas e os abusos sexuais na infância: 'Não imaginei chegar aos 41'

Por Felipe Abílio (@goabilio)

O clima calmo e quase tedioso do estúdio em São Paulo é transformado pelo alto astral e o jeito espalhafatoso de Luisa Marilac — que ri da vida ao mesmo tempo que revisita traumas de sua trajetória. Orgulhosa, com o livro de sua história em mãos: Eu, Travesti’, obra de 194 páginas, escrita pela jornalista Nana Queiroz, vai muito além dos bons drinques que deixaram Luisa famosa na internet, em 2009.

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Chegar aos 41 anos como transexual pode ser interpretado como um milagre no país onde mais se mata a população trans no mundo. Cerca de 40% dos 2.600 assassinatos de transexuais que aconteceram no planeta, nos últimos dez anos, foram no Brasil, segundo levantamento da associação europeia TransRespect A expectativa de vida de uma pessoa trans no país é de 35 anos — menos da metade da média da população geral, que é de 75 anos.

Foto: Reprodução/Instagram@luisamarilac

E Luisa sabe disso já que a morte precoce era tida como um fato. A vida sexual começou aos cinco anos involuntariamente - “Foi a primeira vez que fui violentada e por uma pessoa muito próxima. Fui estuprada várias vezes e achava que a culpa era minha, que a errada era eu” —; logo depois, vieram mais episódios de violência: “Tomei sete facadas, perdi um pulmão por perfuração, fiquei dois dias em coma e com cicatrizes profundas na alma”, recorda a ativista ao citar sua chegada a São Paulo, aos 16 anos, vinda de Além Paraíba, interior de Minas Gerais,

Se somam a esses episódios, o processo caseiro feito por uma cafetina para moldar o corpo com silicone industrial, a prisão na Europa e a prostituição.

“É impossível relembrar tanta coisa sem sentir. Para escrever o livro precisei de dois psicólogos para me ajudarem. Mas agora, parece que tirei o peso de mim, lavei minha alma e me libertei", afirma ela, que comemora o fato de estar viva. “Amo a vida porque só quem chega perto da morte entende como a vida é importante e aprende a dar valor.”

Leia na íntegra o relato de superação de Luisa Marillac ao Yahoo:

Você surgiu em 2010 para o público, mostrando seus “bons drinques”, em um viral na internet gravado na Espanha. O vídeo era para alguém em especial?

Foi para um ex-marido que me passou a perna. Saímos da Itália para nos casarmos na Espanha, mas chegando lá tínhamos que traduzir todos os documentos. Vi que o dinheiro não dava, decidi alugar uma casa, colocar ele para morar e sair para conhecer os bordéis da Europa, fazer o dinheiro para conquistar os documentos. Rodei uns meses mandando dinheiro para ele, mas nessa já tinha levado tudo, pegado o depósito da casa, meus documentos, me deixou sem nada e fugiu, foi embora. Quando cheguei e descobri, fiquei chorando na calçada, sem nada, passou uma senhora caridosa, que eu acredito que já deveria conhecer outras trans brasileira, me viu naquele estado e me levou para dentro daquela casa. Colocou anuncio para eu trabalhar e ali fui me recuperando, reconquistando a vida, porque tinha perdido a vontade de viver, afinal de contas era o amor da minha vida. Foi onde fui descobrir naquele apartamento novinho a piscina no último andar e pensei: “vou gravar um vídeo para ele”, e gravei.

Foto: Felipe Abílio/ColaboraçãoYahoo

Voltando ao seu passado, lá na infância em Além Paraíba (MG), quando você percebeu que estava no corpo errado?

Tenho mania de dizer que a travesti se descobre muito cedo. Quando pequena não sabia o que era ser trans, mas já enrolava as cuecas para fazer de calcinha. Quando minha irmã nasceu foi uma realização porque podia brincar de boneca. Ela era a minha boneca. Ali eu já me identificava, me vestia de mulher e dançava ‘Rainha da Sucata’ na frente da TV com a minha irmã. Sabia que queria ser mulher, que era mulher e estava num corpo que não me pertencia. A gente vai se descobrindo e a vida vai mostrando.

Você chegou a tentar esconder e disfarçar quando começou a tomar consciência?

Acho que a travesti não consegue esconder porque é muito mais pintosa. Se eu conseguisse viver num corpo de menino, teria vivido porque teria sido muito mais fácil para mim, mas não me identificava, olhava no espelho e sabia que estava no corpo errado, não era eu. Era pequena, mas já sabia aquilo que queria ser, mas morava em cidade do interior e estamos falando de uma época que não tinha informação como temos hoje, era tudo muito difícil e completamente diferente.

No livro você relata que sofreu abusos desde a infância por conta dos trejeitos. Como tudo isso começou?

Quem gosta, quem tem essa maldade da pedofilia, se aproveita quando vê um trejeito, a feminilidade em uma criança. Se aproveita porque junto com o abuso vem a repreensão de que se contar a mãe vai bater, ameaças e torturas psicológicas muito grandes. Minha vida sexual começou com cinco anos de idade, foi a primeira vez que fui violentada e era uma pessoa muito próxima. Fui estuprada várias vezes e tinha a concepção de que a culpa era minha, que a errada era eu. Como minha mãe trabalhava, tinha que voltar sozinha da escola. E os homens casados me esperavam na porta. Depois que você entende um pouco da vida, tem coragem de dizer que não estava errada e que era a vítima disso. Me mostraram o sexo muito prematuramente. As pessoas me perguntam se eu mudaria alguma coisa na minha vida se pudesse voltar ao passado, mas não mudaria nada, porque hoje sou essa pessoa graças ao meu passado, entende? O passado me fez ser a mulher forte que sou hoje. No livro, as pessoas vão ter a dimensão que olho para o mundo de uma forma diferente de muita gente que não viveu a realidade que eu vivi.

Como você lidou com os abusos na infância?

Sempre apanhei a vida toda, sofri calada. Sabe aquela criança reprimida que sofre, apanha, é violentada e não fala nada por medo de ser julgada? Nunca tive força de gritar e me defender. Se você falava vem, eu ia porque não tinha jeito, de qualquer forma aquilo aconteceria. Acho que depois de ter tomado umas porradas na vida, aprendi me defender.

Você tinha alguém que considerava um porto seguro na sua infância em Minas?

Mamãe nunca foi meu porto seguro, infelizmente. Mas meu avô... (Luisa interrompe a entrevista e chora). Falar do meu avô é falar de amor, esperança. Amor para mim foi ele, só via amor da parte dele, me faz muita falta até hoje e é difícil falar dele. Tenho me aproximado muito do espiritismo hoje e acho que os meus mentores são meus avós, as pessoas que me protegem e que me dão força, eles sempre estiveram do meu lado, sinto a presença dele em todos os momentos da minha vida. Esse choro não é de tristeza, é de lembrar de uma pessoa que fez muito bem, que faz muito bem. Ele era a minha paz.

Luisa Marilac com a irmã e as sobrinhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Por que decidiu deixar Além Paraíba e se arriscar em São Paulo tão jovem, aos 16?

Estamos falando do interior de Minas Gerais, de uma época que não tinha informação e eu me sentia aquela coisa do peixe grande no aquário. Já não me comportava mais ali, não tinha como ser eu mesma, foi quando decidi vir para São Paulo.

Logo que você chegou para morar em Guarulhos (Grande São Paulo) com a sua mãe, houve um episódio transfóbico que quase te matou. Como aconteceu isso?

Conheci algumas amigas gays — dessas amigas só duas estão vivas hoje — e fomos para um barzinho que tinha um pagodinho. A gente sentou para tomar uma cerveja, começamos a conversar e senti minhas costas arderem. Quando me viro, um cara estava me furando com um punhal. Tomei sete facadas, perdi um pulmão por perfuração, fiquei dois dias em coma.

Logo após esse episódio, ainda ferida, você passou por outra transfobia, dessa vez no hospital?

Caí na esquina, chamaram a ambulância, acordei no hospital jogada no chão em uma maca. Pedia água para as enfermeiras, minha boca estava seca, não conseguia respirar porque o pulmão estava enchendo de sangue. Mas eles me deixaram ali. Fiquei horas jogada, como viram que não estava morrendo, decidiram me atender. Rasgaram toda minha roupa e o médico falou que tinha que estar dentro de casa ao invés de estar na rua. Sempre fui abusada. Falei para o médico fazer o trabalho dele já que não era um favor cuidar de mim. Fui tratada como lixo mesmo, eles queriam que eu morresse. O médico pegou um cano, um bisturi, rasgou a seco minhas costas, enfiou o cano em mim sem anestesia e apaguei de dor. Ali fiquei dois dias em coma. Sei que estava em coma porque foi minha primeira experiência com morte, me via flutuando e deitada no hospital. Não gosto de ver imagens de trans mortas, peço para não me marcarem nessas publicações, porque já tenho os meus fantasmas que tenho que conviver e isso não é tão fácil. Enterrei várias amigas de forma trágica. Amo a vida porque só quem chega perto da morte entende como a vida é importante e aprende a dar valor, mas tenho cicatrizes.

Como você lidou com esses fantasmas ao reviver tudo isso para escrever o livro?

Esse livro foi uma terapia. Relembrar de tanta coisa sem sentir é impossível, por mais que tenha tido dois acompanhamentos psicológicos. Se não fosse isso, não teria conseguido. Lavei a minha alma, me libertei.

Logo que chegou em São Paulo, sua vida na prostituição também começou a tomar forma. Como foi isso?

Depois das facadas, fiquei um ano presa dentro de casa, traumatizada. Minha mãe pode ter todos os defeitos do mundo, mas foi ela quem me levou para balada a primeira vez. Nesse dia, quando estávamos indo, ela levou um chute de um homem que disse “essa aí tem até peito”. Ele achou que ela também era travesti. Foi ali que decidi ir embora para Europa. Ainda em São Paulo, conheci uma cafetina, que decidiu moldar meu corpo com silicone industrial, o que não indico para ninguém. Fui para Europa com uma dívida enorme das costas.

Qual era a sua expectativa de vida a partir do momento em que encheu o corpo de silicone industrial e foi trabalhar na Europa?

Não tinha expectativa, vivia o momento, nunca imaginei que fosse chegar aos 41 anos. Hoje quero mais, quero ser uma das mais velhas. Naquela época vivia minha vida como se cada dia fosse único. Nunca tive problema de saúde, mas conheço muitas [trans] que têm um pezão, porque o silicone escorreu, e outras que morreram logo depois. O silicone industrial não sai, fica para o resto da vida. Se eu faria tudo isso hoje? Não, porque não me identifico mais, mas na época era o que tinha.

Por que ganhou o apelido de Luisa de Roma na Europa?

Fiquei muito conhecida em Roma (Itália), porque tinham uns policiais lá, eles não agridem, não batem e eu adorava abusar um pouco. Sempre fui muito grandona, imagine de salto. Vivia nos bons drinques. Quando a polícia vinha para controlar e deportar, você corria para o mato, subia nas árvores. Um dia não tive como correr, estava muito bêbada e pensei: “Não vou apanhar aqui”. Dei a última golada na garrafa e quebrei no chão, eles correram. As bichas gritaram que eu era louca, todas no meio do mato. Ali fiquei conhecida como Luisa de Roma. Depois fui presa, fiquei uns dias na cadeia, mas não apanhei.

Depois de quase 15 anos fora, você voltou para Brasil em 2010, por causa do boom do vídeo, com uma promessa que não aconteceu. Qual era essa promessa?

Teve a história do vídeo que estava estourado aqui, me ligaram com convite para um reality show [Luisa preferiu não abrir detalhes sobre a negociação], iam me dar R$ 100 mil, arrumei minhas coisas e voltei na hora. Cheguei aqui, dei entrevista para todo mundo, rodei por todo lugar e me ofereceram uma mixaria para participar do tal reality. Aí não entrei. Mas acho que Deus sabe o que faz, não era o momento, não tinha a cabeça que tenho hoje, não tinha evoluído. Se tivesse entrado naquela época não teria sido muito legal.

Logo após o estouro do vídeo, você ganhou dinheiro fazendo presença VIP, mas acabou voltando para a prostituição. O que aconteceu?

Achava que o dinheiro não iria acabar nunca, comecei a palpitar sobre coisas no meio LGBTQ, comecei a ver coisas que poderiam ser mudadas, foi quando a comunidade se voltou contra mim. Os patrocínios acabaram e tive que voltar a me prostituir. Foi muito mais difícil porque era reconhecida na rua, tinham pessoas que me jogavam moeda na rua, foi muito mais humilhante voltar dessa vez. Foi desgastante. Nós somos discriminadas ainda no meio LGBTQ, mas o que o mundo não entende é que para ter a liberdade que todos da comunidade têm hoje muitas de nós morremos, nós colocamos a cara a tapa.

O que você acha que tem que mudar para melhorar as ações da comunidade LGBTQ?

A comunidade LGBTQ não precisa discutir sobre os nossos assuntos só no nosso meio, temos que frequentar lugares que têm a cabeça fechada, mostrar o outro lado da moeda. Fui massacrada porque fui no programa do Danilo Gentili, mas acho que ele repensou muita coisa que eu falei ali. Pude abrir o olho da galera ali, mostrar a travesti muito mais legal.

Apesar de algumas mudanças, o Brasil continua sendo o país que mais mata travestis no mundo. Você ainda se sente vivendo marginalizada?

Em partes, sim. Quem não me conhece ainda me discrimina, quem me conhece me dá muito carinho. Queria que todas as trans tivessem um pouco disso que tenho hoje. Dar um bom dia, mostrar um pouco de amor e afeto para pessoas que não estão acostumadas com isso faz muita diferença. Depois de ter me tornado a Luisa Marilac do Youtube, que frequentou programas de televisão, saí da invisibilidade.

Você acha que está começando um movimento a favor depois de tanta luta?

Tive a oportunidade de lançar um livro em uma das maiores editoras do país e uma amiga travesti me falou para não colocar tragédia, investir no luxo e glamour. Mas, pela primeira vez, tive a oportunidade de gritar para o mundo a nossa realidade, a nossa vivência. Cuspi, literalmente, coloquei a minha alma. Quem ler o livro vai olhar diferente para mulheres como eu, tenho certeza disso. No fim das contas, é tudo igual, nós travestis temos praticamente a mesma história de vida.

Como você cuidou da sua saúde mental para aguentar tudo que passou?

Escrevi muito. Meu português é horrível, mas mesmo assim converso muito com Deus, ele é meu terapeuta, tudo tem Deus para mim. Cada um tem o seu, então se apegue a ele. Ele quem tem me dado força. Para escrever o livro precisei de duas pessoas (psicólogos) para ajudar, mas depois não precisei mais, parece que tirei o peso de mim.

Luisa Marilac tem um grande amor?

Olha, chega um certo ponto na vida que a gente prefere ficar sozinha. Ainda amo o italiano que me deu um golpe, foi uma história mal acabada, não teve fim. A gente se falou por um período, ele disse que estava mais maduro, mas me bloqueou. Já conheci outras pessoas, mas não consegui amar, então, para não cometer os mesmos erros, prefiro ficar sozinha.

Hoje, você é uma digital influencer com mais de 150 mil seguidores. Como você faz a sua renda mensal?

Não preciso mais da prostituição, tem pessoas que acreditam em mim. Tenho parceiros que associam a marca a mim, de conhecer meus vídeos, da minha luta, da minha história de vida através do Youtube, eles me deram a oportunidade de representar a marca deles. Tenho parceiros fixos, pessoas da qual divulgo os produtos. E isso para mim é um orgulho, são pessoas que não têm preconceito. Nunca imaginei virar uma digital influencer. Sou a travesti das antigas, mas que viveu de tudo e tem experiência para passar para as mais jovens.

Qual o maior sonho de vida da Luísa hoje, aos 41 anos?

Sempre fui muito tímida em relação à televisão, fotos, mas peguei carinho. Hoje queria estar empregada dentro de um programa de TV. Já me vejo naquele “Profissão Repórter”, conversando com as pessoas, com uma câmera na mão, seria meu sonho. Mas não sei se a TV daria oportunidade para mim.