Luiz Fernando Guimarães conta em livro que sítio onde morou na pandemia foi cenário de várias festas: 'Virou casa para viver'

Em sua recém-lançada autobiografia, “Eu sou uma série de 11 capítulos” (Editora Globo Livros, R$ 54,90), Luiz Fernando Guimarães vai amarrando os assuntos de forma bem livre. Conta, por exemplo, que é louco por mata — onve viveu “viagens” psicodélicas com o amigo Ney Matogrosso, também relatadas na obra.

Seu sítio, em Itaguaí, ele conta, foi testemunha de tudo que é tipo de agito. “Janelas caíram, lâmpadas queimaram”, recorda no livro.

Ele gosta tanto de celebração que, em 1988, fez uma festa surpresa para si mesmo. Já o aniversário de 70 anos foi planejado como “Festa do gim” e acabou virando “Festa hippie”. Durante a pandemia, porém, as coisas foram se acalmando. O ator se mudou para lá com o marido, os filhos, os funcionários e passou a ter uma rotina bem familiar.

Este ano, voltou para o apartamento no Jardim Botânico, na Zona Sul da cidade do Rio. Mas o sítio continua sendo uma segunda casa, uma roça com horta e tudo. As janelas são baixas porque ele acredita que, um dia, uma vaca entrará na cozinha.

— Já foi uma casa de festas e, na Covid, virou uma casa para viver — conta.

Outros assuntos

Na autobiografia, o ator lembra a descoberta do teatro com Marta Rosman, do Tablado, que ele conheceu na análise de grupo que fazia com a mãe. O relacionamento de 25 anos com o marido, Adriano. A emoção de virar pai ao adotar duas crianças já setentão. Os erros biográficos em seu verbete na Wikipédia (não, ele não atuou na novela “Uma rosa com amor”, de 1972). E o sítio em Itaguaí, seu “paraíso”, repleto de cachorros, onde passa a maior parte do tempo.

No livro, o ator entrega tudo de peito aberto. Revela que já tomou ansiolíticos para fazer comerciais e peças de teatro. Lembra a perda de pessoas próximas no auge do HIV. Explica por que, mesmo sem nunca ter ficado no armário, não faz questão de abraçar as bandeiras LGBTQIAP+.

A espontaneidade do texto ajuda a compor o perfil de uma figura, acima de tudo, intuitiva. Aos 9 anos, pegava o trem sozinho até Quintino para visitar o primo. Quando adolescente, pressentiu que deveria jogar fora todos os documentos do irmão perseguido pela ditadura militar após um desconhecido perguntar por ele, como quem não quer nada, ao telefone (dias depois, a repressão invadiu sua casa e não encontrou nada). Hoje, seu conselho para os amigos é quase sempre o mesmo: “Vai no impulso”.

— Sou de uma família com sensibilidade muito forte — explica o ator, que conta: — Sou de falar sozinho e achar que estou falando com alguém. Vejo pessoas, sinto presenças... Acho tão boa a vida assim, porque ela fica preenchida. A solidão para mim é muito bem resolvida, estou sempre bem acompanhado. Quando olho um vulto, nunca acho que é um ladrão assaltando. Sempre acho que é alguém me protegendo.

Como um “acumulador de amigos”, enumera companheiros e companheiras essenciais, de Eduardo Dussek a Fernanda Montenegro (mãe de outra grande amiga, Fernanda Torres). A grande Dama do Teatro vive batendo papo com ele no WhatsApp.

— Fernandona é tão divertida, no Whats ela fala ao mesmo tempo que pensa — diz ele, confessando: — Às vezes, eu mesmo não acredito que é ela falando ali. Eu mostro para os meus amigos: “Não pode ser!”. Ela me diz: “Aqui é Fernanda mesmo... a Mãe”.