Luiz Fernando Guimarães fala sobre vício e carreira, em autobiografia: 'A terapia me fez sair do fundo do poço'

Em sua recém-lançada autobiografia, “Eu sou uma série de 11 capítulos” (Globo Livros), Luiz Fernando Guimarães conta ter dois pesadelos recorrentes desde a adolescência. Que alguém precise de socorro e ele não saiba dirigir. Que o coloquem como goleiro em uma final de Copa do Mundo.

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Acordado, porém, o ator de 72 anos superou perrengue muito pior. O astro que fez o Brasil rir na “TV Pirata” e em “Os normais” calcula ter perdido três anos da sua existência por conta do alcoolismo. A bebida o separou de amigos e o deixou com “uma vida abandonada”. Veio uma internação forçada em uma clínica, mas não adiantou. Ele voltou a beber. Até que, finalmente, com muita terapia, tem conseguido controlar sua doença, que considera hereditária.

A luta contra o alcoolismo é apenas um dos aspectos de Luiz Fernando contemplados no livro, que traz relatos de uma trajetória amorosa, aventureira, festiva e, como era de se esperar em se tratando do ator, engraçada.

— Já fiz muita merda, já bebi pra caceta, já perdi quatro carros — conta ele. — Bebia para me sentir extrovertido. Foi o meu atual terapeuta que me ajudou a sair do poço. A gente sempre precisa de um reforço, de um Corpo de Bombeiros, de uma ambulância emocional. Quando a gente está no fundo do problema, não vê nada, porque é muita parede. Fica procurando salvação, mas não tem um caminho.

Sem drama

Apesar da seriedade do tema, ele não trata o vício com baixo-astral. “Falo muita coisa dramática, mas, quando eu falo, não parece dramática”, escreve. A autobiografia não segue uma ordem cronológica, embora comece pela infância do ator em um prédio de 80 apartamentos na Praça São Salvador, no Rio.

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Daí em diante Luiz Fernando vai amarrando os assuntos de forma bem livre. A descoberta do teatro com Marta Rosman, do Tablado, que ele conheceu na análise de grupo que fazia com a mãe. As “viagens” psicodélicas com o amigo Ney Matogrosso na mata. O relacionamento de 25 anos com o marido, Adriano. A emoção de virar pai ao adotar duas crianças já setentão. Os erros biográficos em seu verbete na Wikipédia (não, ele não atuou na novela “Uma rosa com amor”, de 1972). E o sítio em Itaguaí, seu “paraíso”, repleto de cachorros, onde passa a maior parte do tempo.

É difícil não ler o livro sem sentir a voz de Luiz Fernando. As frases fluem com a dicção inconfundível do ator. A espontaneidade do texto ajuda a compor o perfil de uma figura, acima de tudo, intuitiva. Aos 9 anos, pegava o trem sozinho até Quintino para visitar o primo. Quando adolescente, pressentiu que deveria jogar fora todos os documentos do irmão perseguido pela ditadura militar após um desconhecido perguntar por ele, como quem não quer nada, ao telefone (dias depois, a repressão invadiu sua casa e não encontrou nada). Hoje, seu conselho para os amigos é quase sempre o mesmo: “Vai no impulso”.

— Sou de uma família com sensibilidade muito forte — explica o ator. — Sou de falar sozinho e achar que estou falando com alguém. Vejo pessoas, sinto presenças... Acho tão boa a vida assim, porque ela fica preenchida. A solidão para mim é muito bem resolvida, estou sempre bem acompanhado. Quando olho um vulto, nunca acho que é um ladrão assaltando. Sempre acho que é alguém me protegendo.

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A relação do ator com o volante (como no tal pesadelo) ilustra bem esse espírito impulsivo. Quando comprou seu primeiro carro, um Santana Quantum, ele só sabia usar a primeira e a marcha à ré. Para tirar o veículo da garagem do prédio onde morava, batia na parede, dava ré e batia de novo. Foi preciso uma experiência extrema para que dominasse o volante. Durante um temporal bíblico, ele decidiu atravessar Ipanema para encontrar um amigo em uma lanchonete:

— Foi uma tragédia, o Rio estava afundado. E eu seguindo com os carros flutuando ao meu lado. Fiquei resistindo em primeira e segunda, porque não sabia nem colocar a terceira. Quando cheguei na lanchonete, falei para o meu amigo: “Aprendi a dirigir”. Sempre fui assim, sempre gostei de testar os meus medos. Desde pequeno, procurava o escuro.

Um milhão de amigos e festas

Luiz Fernando é louco por mata. Seu sítio, em Itaguaí, foi testemunha de tudo que é tipo de agito. “Janelas caíram, lâmpadas queimaram”, recorda no livro.

Ele gosta tanto de celebração que, em 1988, fez uma festa surpresa para si mesmo. Já o aniversário de 70 anos foi planejado como “Festa do gim” e acabou virando “Festa hippie”. O amigo Evandro Mesquita decretou: “Voltamos aos anos 1970”. Durante a pandemia, porém, as coisas foram se acalmando. O ator se mudou para lá com marido, filhos e funcionários e passou a ter uma rotina familiar.

Este ano, voltou para o apartamento no Jardim Botânico. Mas o sítio continua sendo uma segunda casa, uma roça com horta e tudo. As janelas são baixas porque ele acredita que, um dia, uma vaca entrará na cozinha.

— Já foi uma casa de festas e, na Covid, virou uma casa para viver — conta.

No livro, o ator entrega tudo de peito aberto. Revela que já tomou ansiolíticos para fazer comerciais e peças de teatro. Lembra a perda de pessoas próximas no auge do HIV. Explica por que, mesmo sem nunca ter ficado no armário, não faz questão de abraçar as bandeiras LGBTQIAP+.

Como um autêntico “acumulador de amigos”, enumera companheiros e companheiras essenciais, de Eduardo Dussek a Fernanda Montenegro (mãe de outra grande amiga, Fernanda Torres). A grande dama do teatro vive batendo papo com ele no WhatsApp.

— Fernandona é tão divertida, no Whats ela fala ao mesmo tempo que pensa — diz. — Às vezes, eu mesmo não acredito que é ela falando ali. Eu mostro para os meus amigos: “Não pode ser!”. Ela me diz: “Aqui é Fernanda mesmo... a Mãe”.

Um nome na lista de grandes amigas chama a atenção. É o da atriz Cássia Kiss, por quem ele diz, na obra, ter grande admiração. “Para mim, ela é um ser de outro planeta, a ser descoberto ainda”, escreve o ator. Em outubro, antes do lançamento do livro, Kiss causou polêmica com declarações de cunho homofóbico em que dizia: “Onde eu saiba, homem com homem não dá filho, mulher com mulher também não dá filho”.