Mandetta cavou a demissão?

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Adriano Machado/Reuters
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Adriano Machado/Reuters

Notícias de bastidores diziam, desde a semana passada, que Luiz Henrique Mandetta chegou a questionar Jair Bolsonaro sobre os motivos de não ter sido ainda demitido do Ministério da Saúde. O suposto enquadro aconteceu após série de diretas e indiretas do presidente ao subordinado.

A deterioração da situação foi vocalizada durante uma conversa entre Onyz Lorenzoni e Osmar Terra captada pela “CNN Brasil”.

No domingo (12), foi o próprio Mandetta quem verbalizou o que já estava escancarado: existem duas vozes de comando no governos federal, e elas não falam a mesma língua.

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A mensagem foi dada em entrevista ao “Fantástico”, a emissora que dá urticária no presidente e seus seguidores mais fanáticos — e que agora vão às ruas arrancar microfone das mãos de seus profissionais.

Na entrevista, Mandetta falou da saudade do neto durante a quarentena, das medidas tomadas entre os profissionais do ministério para evitar contato e contaminação e filosofou: ‘’quando a gente protege a família da gente a gente protege a família de todo mundo”.

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Segundo ele, os números relacionados à Covid-19 no Brasil estão subestimados e a previsão é que maio e junho sejam os meses de maior estresse. “Serão dias duros”, afirmou, enquanto seu chefe e seu candidato a substituto, Osmar Terra, diziam sem base factual que o pior já tinha passado.

Entre os fatores de estresse, Mandetta citou a pressão dos que chamou de “engenheiros de obra pronta”. Serão de dois a três meses de muitos questionamentos das práticas de todos, afirmou, e os resultados serão ditados pelo comportamento da sociedade. Para o ministro, consciência individual e responsabilidade coletiva serão as variáveis para avaliar a capacidade ou não do sistema público de saúde dar conta da pandemia.

Sem citar nomes, disse que se cada empresário achar que o seu negócio é essencial, vai haver um efeito-cascata e caberá ao ministério mostrar, na semana seguinte, como essas atividades impactaram a dinâmica da contaminação em cada região.

Foi uma forma de constranger parte dos empresários que decidiram pegar em alto-falantes e saíram de carro importado pelas cidades dizendo que a economia não pode parar.

Também sem citar nomes, o ministro disse que existe muita gente que gosta de internet, que vê fake news e sai dizendo que o coronavírus é invenção de alguns países para ganhar vantagens econômicas ou é parte de um complô mundial contra elas. Dias antes, Bolsonaro disse que a queda da atividade econômica enfraqueceria o seu governo, viu seu filho arrumar briga com a Embaixada da China no Twitter e seu ministro da Educação proferir ofensas contra a comunidade chinesa, onde o vírus foi relatado pela primeira vez.

Questionado, Mandetta disse com todas as palavras que a relação com Bolsonaro não só preocupa como confunde a população, que a essa altura já não sabe se deve ouvir o ministro ou o presidente. Reforçou que quem deve ser tratado como inimigo é o vírus e pediu um discurso unificado.

Ponderou que está nomeado por decisão do presidente, que este tem olhado para o lado da economia e pediu um equilíbrio nos esforços para a “proteção da vida”.

Como se falasse sobre um adolescente, disse que o momento pede disciplina e exemplo de sacrifício para “bloquear o máximo possível” a propagação do vírus. Afirmou que não será ele quem dirá quem faz certo e quem faz errado, mas que como médico precisa alertar e tratar o paciente diabético, dizendo que ele corre o risco de perder a visão ou ser amputado se continuar comendo doce.

Na entrevista, deixou claro que caberá ao presidente, que na semana passada praticamente botou nas costas da cloroquina a solução de todos os males e voltou a circular pelas ruas, encontrar um caminho para superar o coronavírus com mais ou menos intensidade de estresse. Como se receitasse um medicamento, pediu que as ações tenham foco, disciplina e ciência -- com ênfase nesta última palavra.

Em rede nacional, deixou subentendido o que falta para o chefe do Executivo e comandante das Forças Armadas, chamado em público de indisciplinado.

O recado foi lido como um convite à demissão.

Bolsonaro, desmoralizado, preferiu dizer que não assiste à TV Globo. Para seus apoiadores mais leais, seria uma boa hora para mostrar quem é que manda. Se não o fez ainda é porque sabe em que colo cairá a fatura dos mortos da pandemia caso jogue o auxiliar ferido na estrada e opte pela via do terraplanismo sanitário a essa altura do campeonato.

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