No auge da crise do coronavírus, fritura de Mandetta vira bomba-relógio

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Foto: Evaristo Sá / AFP

Jair Bolsonaro se gabava, dias atrás, por ter montado “uma equipe de ministros nunca sonhada em nossa nação”.

Nas casas das melhores famílias, todo mundo conhece ao menos uma dúzia de secundaristas que fariam melhor, e com menos barulho, do que o ministro da Educação. Ou do Meio Ambiente.

Mas especificamente no caso do Ministério da Saúde, nem o opositor mais ferrenho do governo evitou levantar as mãos para o céu quando surgiram as primeiras notícias da pandemia e viu que no posto estava um médico e ex-secretário municipal da Saúde, e não um tuiteiro capaz de levar uma família inteira para o buraco por pura incapacidade gramatical.

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Em vez de vir a público capitalizar a escolha, o presidente se retorce de ciúmes.

Na semana passada, Bolsonaro dava sinais cada vez mais claros de descontentamento com Lui Henrique Mandetta. Admitiu que não se bicava com o responsável pela gestão da crise, disse faltar humildade ao subordinado e deu a entender que só não o demitia porque estávamos no meio da guerra. Na linguagem bélica, o comandante em-chefe salvou a pele do soldado implodindo o moral das tropas.

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No domingo, a ciumeira ficou ainda mais escancarada. 

Sem citar nomes, afirmou que integrantes de seu governo “viraram estrelas” e que a hora deles iria chegar, podendo usar a caneta superpoderosa a qualquer momento. Procurador, Mandetta deu de ombros: estava dormindo, mas prometeu conferir a declaração no dia seguinte.

Bolsonaro amanheceu na segunda-feira desmoralizado.

A artilharia verbal reforça o caráter inusual, para não dizer outra coisa, do atual governo, um Frankenstein que tenta amarrar no mesmo barco o apoio incondicional de lavajatistas, militares, empresários sedentos por desregulamentação e o chamado núcleo ideológico que paga pedágio a Olavo de Carvalho.

Em condições normais, a pergunta seria por que o presidente alvejaria o próprio barco no meio da tempestade. Mas estes não são tempos normais.

Com ou sem esses grupos, Bolsonaro já reúne o próprio time, que aqui pode ser nomeado como bolsonarismo-raiz, aqueles que apoiarão o presidente com ou sem Sergio Moro, com ou sem Paulo Guedes, com ou sem Mandetta. Mesmo que o capitão determine um salto coletivo no penhasco para combater a pandemia. 

Enquanto atacava seus subordinados abaixo da linha da cintura, em Brasília, era possível ouvir as vozes de seus apoiadores dizendo “amém”.

Alguém ainda precisa explicar os perigos de ter diante de um desafio histórico um presidente em busca da obediência incondicional e uma turma que acena bovinamente a tudo o que diz?

Bolsonaro não se bica com Mandetta porque está, neste momento, mais alinhado com a demanda dos empresários que patrocinaram, em camisetas e carreatas, sua aventura até a Presidência do que com o consenso da comunidade científica a determinar isolamento para conter a curva da contaminação.

Mandetta aceitou entrar nesta canoa, e houve momentos em que até lançou afagos ao chefe, com críticas ao trabalho da imprensa, o hobbie favorito do presidente. 

Mas, diferentemente de alguns colegas de Esplanada, não baba na gravata nem está disposto a comprar a versão de que o coronavírus é uma mera “gripezinha”, uma chuva que vai molhar a maioria da população, eliminar algumas vidas de menor valor e curar quem tem histórico de atleta e imunidade produtiva.

O porquê de o presidente agir assim quando até mesmo seu ídolo Donald Trump já admite a gravidade da situação virou o Santo Graal da atual geração. Um caso, literalmente, a ser analisado, como fizeram alguns psicanalistas em uma reportagem publicada no domingo na “Folha de S.Paulo”. Nela, especialistas como Christian Dunker, da USP, especulam o que deve se passar na cabeça do presidente. Uma hipótese é que o bolsonarismo tem na criação de inimigos o mecanismo de seu funcionamento e a pandemia viola fortemente esta lógica por se tratar de um inimigo que não foi ele quem criou -- e, portanto, não é capaz de manipular. A negação funciona, assim, como uma atitude psíquica diante do desconhecido. 

Na crise, Bolsonaro apostou na lógica da paranóia (“não é uma gripezinha que vai me derrubar”), na onipotência e afiou o discurso messiânico ao anunciar, antes de todo mundo, inclusive seu ministro especialista, a cura do mal a partir de um medicamento de eficácia ainda não comprovada.  

Não há consenso sobre se a atitude diante da crise revela um grau patológico de insegurança ou uma confiança igualmente patológica sem base no real.

O fato é que, criado pela lógica militar, Bolsonaro vê um subordinado desobedecer em público uma ordem que deveria valer para toda a nação: “saiam das casas, mesmo que isso custe a vida da sua vó”.

A confusão se revela na pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana. Ao mesmo tempo em que 59% dos entrevistados defendem a manutenção do presidente no cargo e rejeitam uma possível renúncia, 51% acreditam que ele mais atrapalha do que ajuda no combate à pandemia, e 39% dizem ser péssimo ou ruim seu desempenho durante a crise (contra 33% de ótimo/bom). Já o trabalho de seu ministro da Saúde na pandemia é bem avaliado por 76%. 

É o mesmo índice de brasileiros que aprovam a quarentena combatida pelo presidente. 

Convicto de que sua chegada à Presidência é uma missão divina, predestinada, e não um acidente histórico, Bolsonaro investe contra a maioria -- como se não fosse alto o suficiente, embora (ainda) não majoritário, o sentimento de que ele perdeu as condições de liderar o país: 44%.

No meio do quiproquó criado por quem prometia unir o país acima de todos, inclusive seus sentimentos mais primitivos, já há quem tire as medidas das cadeiras do Ministério da Saúde. Osmar Terra, recém-ejetado do Ministério da Cidadania, tenta se cacifar ao posto torturando a lógica em diversas postagens no Twitter, onde demonstra dificuldade para reconhecer a eficácia do isolamento e compara alhos com bugalhos ao ignorar que países como Japão e Brasil não têm a mesma população ou dimensões continentais. 

Nesta segunda-feira, ele assina um artigo fazendo loas ao chefe: “compartilho da mesma posição do presidente Jair Bolsonaro de que é possível superar a epidemia e reduzir as perdas humanas sem radicalizar com isolamentos que vão quebrar o país e jogar milhões de brasileiros na miséria. Admiro a coragem do presidente de se posicionar contra uma correnteza de pânico”.

Faltou dizer “me chama que eu vou, sonho meu”. Para quem não gosta de politicagem, as piscadelas aos viúvos já foram mais discretas. Antes ao menos esperavam esfriar o cadáver.

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