Lula é eleito sem aprofundar propostas para evitar rusgas com aliados

BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a corrida presidencial mesmo sem ter apresentado um plano de governo robusto e detalhado. Alvo de críticas, ele nega que seus cerca de 60 milhões de eleitores tenham assinado um cheque em branco.

Cientistas políticos ouvidos pela reportagem avaliam que Lula deixou de detalhar propostas para evitar rusgas com setores da sociedade que buscava atrair, mas ponderam que, no segundo turno, ele deu sinais importantes de que pode fazer um governo moderado.

Os gestos do petista foram dados ao atrair para si aliados outrora resistentes à política econômica defendida pelo PT, ao ceder e incorporar propostas da senadora Simone Tebet (MDB-MS) e se comprometer com uma "boa gestão fiscal".

Ainda assim, os pesquisadores indicam que Lula deverá ser cobrado quase que imediatamente a esmiuçar seus planos.

Eles também apontam que o petista será mais pressionado a gerar resultados que Bolsonaro foi e, como Lula já admitiu, ele assumirá o governo em uma situação fiscal mais difícil que há 20 anos.

A comissão encarregada da redação do programa do petista elaborou cadernos temáticos a serem encaminhados às equipes de transição.

A coordenação da campanha, no entanto, tomou a decisão de não apresentá-los no primeiro turno, sob o argumento de que, sem transparência, desconhece o real cenário econômico que herdará de Bolsonaro.

O programa Farmácia Popular, o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e o Prouni (Programa Universidade para Todos) são citados como exemplos de temas que não puderam ser aprofundados por dependerem de informações oficiais.

Ainda segundo integrantes da equipe, mais partidos aderiram à aliança encabeçada pelo petista, e a divulgação das propostas, alegam, dependeria de aprovação dos representantes dos dez partidos que compõem a coligação.

Além disso, no segundo turno, Lula recebeu o apoio de políticos e representantes da sociedade que não são do campo do PT, como a senadora Simone Tebet, terceira colocada no primeiro turno que se engajou na campanha do petista, e economistas como Persio Arida, Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan.

Integrantes do comando da campanha afirmam que não haveria tempo de incorporar suas contribuições.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, diferentemente do cronograma anunciado em junho, o comando da campanha do petista decidiu não divulgar um texto final do plano de governo no primeiro turno.

A divulgação chegou a ser discutida pela equipe, mas prevaleceu a tese de que o detalhamento de compromissos poderia alimentar frustrações.

A campanha de Lula também se agarrou à justificativa de que a eleição deste ano opunha a defesa da democracia à barbárie diante das ameaças golpistas do presidente e de seus aliados.

Ao falar sobre economia, por mais de uma vez, o petista negou que estivesse pedindo um cheque em branco e afirmou que seus dois governos eram prova de sua responsabilidade fiscal.

O tema, no entanto, circundou toda a campanha. Em evento na última segunda-feira (24), a apenas seis dias das eleições, Lula lembrou ter sido cobrado de nomes para a condução da política econômica e afirmou que sua gestão não seria um governo do PT, mas "um governo do povo brasileiro".

Ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles saiu em sua defesa: "É o Bolsonaro que estourou a parte fiscal, levou a inflação para a Lua. Isso sim é querer cheque em branco. O Lula, não. O cheque dele está assinado. Ele já trabalhou, já realizou, já gerou emprego e renda".

Na última quinta-feira (27), a três dias das eleições, o ex-presidente lançou um documento em que promete combinar responsabilidade fiscal e social. A chamada Carta para o Brasil do Amanhã elenca 13 pontos prioritários e sintetiza promessas anunciadas ao longo da campanha, na tentativa de amenizar temores no mercado.

"A política fiscal responsável deve seguir regras claras e realistas, com compromissos plurianuais, compatíveis com o enfrentamento da emergência social que vivemos e com a necessidade de reativar o investimento público e privado para arrancar o país da estagnação", diz o documento. "Temos consciência da nossa responsabilidade."

Para justificar a iniciativa às vésperas do pleito, o coordenador do plano de governo, o ex-ministro Aloizio Mercadante, afirmou que a intenção era levar o debate de propostas à disputa, distinguindo-se do que chamou de lamaçal de fake news disseminadas por bolsonaristas.

A ideia de que a busca da ampliação do arco de alianças, ainda que informais, impunha um diálogo permanente sobre o programa também foi usada como justificativa para a ausência de detalhes.

A simples apresentação das diretrizes do plano de governo ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) provocou ruídos.

A primeira versão entregue ao tribunal previa a regulação da produção agrícola. A campanha petista atribuiu a inclusão da proposta a uma falha, mas o episódio foi suficiente para gerar atritos com uma fatia do agronegócio e acabou sendo explorado por Bolsonaro.

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, avalia que Lula, embora tenha feito mais gestos no segundo turno, não detalhou suas propostas para ter liberdade de conversar com diversos atores, mas será cobrado.

"Se Lula fizer leitura correta, vai ter que dar respostas mais rápidas, porque o capital dele eleito pode se esgotar mais rápido. Ele vai ser exigido muito mais rapidamente, vai ter oposição na rua que ele não conheceu e uma série de problemas que não enfrentou em 2003", diz.

"O segundo turno teve um momento simbólico muito importante. Um sinal importante que ele deu foi no evento no Tuca [da PUC-SP], não é qualquer coisa. Ele chamou toda a esquerda, mas colocou no palco com ele [Henrique] Meirelles, Persio Arida, Marina [Silva] e Simone [Tebet] e disse com todas as letras: 'o governo não vai ser do PT'."

Melo pondera que Lula pegará uma situação política e econômica pior que nos dois mandatos anteriores.

"Lula vai ser muito mais cobrado por resultado que Bolsonaro. [As pessoas vão pensar]: ele já entregou o que a gente queria, que era a derrota do Bolsonaro. Agora, você tem de entregar o que a gente não cobrou, mas queremos, que são medidas, resultados", afirma.

Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), a falta de propostas empobrece o debate.

"Ficamos mais tempo debatendo o perfil de Lula e de Bolsonaro que debatendo a concepção de Estado que eles deveriam ter apresentado", diz.

Teixeira avalia, assim como Melo, que o petista evitou esmiuçar seu programa para dialogar com diversas correntes sem gerar constrangimento.

Para ele, Lula enfrentará desafios imediatos porque terá de ter traquejo em negociações com setores que majoritariamente não o apoiaram, como o agronegócio, bem como o Congresso saído das urnas.