Lula acena para o agro e joga chavismo no colo de Bolsonaro

FLORIANOPOLIS, BRAZIL - SEPTEMBER 18: Brazil's former president and current presidential candidate Luiz Inacio Lula da Silva speaks to his supporters at Square Tancredo Neves on September 18, 2022 in Florianopolis, Brazil. (Photo by Heuler Andrey/Getty Images)
O ex-presidente Lula durante ato de campanha em Florianópolis. Foto: Heuler Andrey/Getty Images

Na reta final da campanha, o ex-presidente Lula (PT) botou o time em campo em busca de votos em um dos últimos enclaves dominados ainda por Jair Bolsonaro (PL).

Não, não me refiro aos entusiastas do impeachment de Dilma Rousseff, que nesta semana perderam um soldado para a trincheira do voto útil, defendido agora pelo advogado Miguel Reale Jr., autor do pedido que abriu as comportas para o afastamento da então presidente. Como quem recolhe peças de um xadrez, Lula já havia levado alguns peões do jogo no começo da semana, como o ex-candidato a presidente e ex-ministro da Fazenda de Michel Temer, Henrique Meirelles. E acenado para eleitores evangélicos ao trazer Marina Silva (Rede) para seu lado. Faltava um aceno a um lado descoberto do campo.

A pouco mais de uma semana da eleição, Lula volta as atenções agora para o agronegócio, um latifúndio hoje dominado pelo atual presidente.

Numa jogada dupla, ele escalou o candidato a vice em sua chapa, Geraldo Alckmin (PSB), para percorrer o centro-oeste com o intuito de minimizar as resistências ao petista. E concedeu uma longa entrevista ao Canal Rural para dizer que está disposto a ceder algumas peças do tabuleiro para vencer o jogo.

É o que faz quando declara que “ninguém vai proibir que o dono de uma fazenda tenha uma ou duas armas” em sua propriedade.

A declaração vai ao encontro de uma demanda antiga de empresários rurais que exigiam o direito ao armamento e à autodefesa como contrapartidas para atuar em territórios onde o policiamento não atua ou demora a chegar.

O que Lula se propõe a rediscutir é a possibilidade de “alguém comprar 12, 10, 15, 20 armas”. Ele questionou: “Você sabe onde estão essas armas? Que alucinação é essa? Nós não estamos em guerra.”

O argumento é que o descontrole e a facilitação do acesso a armas, em vez de proteger as famílias, estão se voltando contra elas à medida que garantem um arsenal para grupos criminosos.

Lula pisou num terreno perigoso ao defender que é direito dos fazendeiros se armarem num território onde conflitos por terra já são historicamente mediados pela violência. Isso coloca o ex-presidente em choque contra parte de sua base de apoio representada pelo MST —o lado geralmente assassinado nesse campo da história.

Lula aposta que as relações hoje entre latifundiários e sem-terra estão pacificadas, já que os movimentos sociais estão mais maduros e não miram terras produtivas.

Ele também aproveitou a deixa para esclarecer por que se opõe à chamada tese do marco temporal, em que povos indígenas só poderiam reivindicar o acesso a terras que ocupavam até 1988, ano da promulgação da Constituição. Lula defende que os povos indígenas tenham acesso a territórios dos quais foram expulsos (muito) antes e também depois da redemocratização. O direito é uma forma de garantir a preservação ambiental.

Outro ponto que o colocava em rota de colisão com o agronegócio foi uma declaração recente, em sua entrevista ao Jornal Nacional, em que associava parte do setor ao fascismo. Lula se justificou dizendo que não quis generalizar e exaltou os empresários “conscientes da responsabilidade de produzir agricultura de baixo carbono”.

“Esse negócio de desmatamento é gente grotesca que não tem respeito pela própria produção, porque ele pode se prejudicar. O mundo está mais exigente”, disse.

Ao fim, como se mostrasse que falava sério na ideia de ceder os anéis e ganhar a mão do setor, ele jogou Hugo Chávez, com quem manteve relação de proximidade em seu governo, no colo dos adversários ao dizer que Bolsonaro e filhos emulavam um discurso do ditador venezuelano segundo o qual “povo armado jamais será escravizado”.

Em 2006, quando já entrava em seu oitavo ano de mandato, Chávez defendeu que era necessário armar cerca de 1 milhão de compatriotas para defender o país de uma eventual invasão norte-americana.

“A Venezuela precisa ter 1 milhão de homens e mulheres bem equipados e bem armados”, disse o ditador em uma manifestação em fevereiro daquele ano, após ter negociado a importação de 100 mil fuzis da Rússia.

Lula poderia dizer que há muitos outros aspectos que aproximam o bolsonarismo das ideias que movem os detentores do poder em países como Venezuela. Um deles é o desejo de transformar as forças de segurança do Estado em milícias do governante de turno. Outro é o de aparelhamento do Judiciário, hoje sob ataque do capitão e sua equipe.

Mas isso é assunto para o segundo turno – se houver.