Lula adia escolha de nomes que integrarão núcleo de Defesa da transição; entenda

Dos 31 grupos já anunciados na transição, dois deles ainda não têm sequer um nome apresentado até agora: Inteligência e Defesa. O primeiro reúne órgãos como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Já o segundo é considerado o mais sensível de todos, sem qualquer previsão de quando terá uma equipe para cuidar da área definida. O time do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), trabalha para encontrar nomes que sejam, ao mesmo tempo, alinhados com o governo eleito e bem recebidos pelas Forças Armadas.

Novo governo: Alckmin diz que número de ministério deve ser semelhante ao de 31 de grupos de trabalho da transição

De Celso Amorim a Marina Silva: transição leva de volta à cena política ex-ministros de Lula e Dilma

O quebra-cabeça é complexo. De acordo com o coordenador de grupos temáticos, ex-ministro Aloizio Mercadante, a formação do núcleo de Defesa não foi anunciada pois a equipe ainda não está completa.

— Não é fácil compor todos esses grupos com esta complexidade — disse AO GLOBO.

A indefinição sobre o grupo técnico da Defesa na transição reflete também o desafio que Lula terá para indicar um nome para o ocupar a pasta em seu novo governo. Isso porque o ministro escolhido para comandar o ministério terá sob sua alçada Exército, Aeronáutica e Marinha.

Embora não tenha encontrado um nome de consenso, o presidente eleito já tem um perfil traçado para a vaga: alguém que tenha o respeito das tropas e a capacidade de acalmar os ânimos. Diante da participação massiva de militares no governo de Jair Bolsonaro (PL) e frequentes declarações políticas de integrantes das Forças, a ideia é que o novo ministro tenha a habilidade de devolver os fardados para a caserna, além de articulação no cenário internacional. O entorno de Lula afirma que o futuro chefe da pasta terá de viajar o mundo com a tarefa de ajudar a reconstruir o protagonismo do Brasil no exterior.

Entre os nomes lembrados para o posto, o ex-ministro Celso Amorim, que ocupou o cargo entre 2011 e 2015, no primeiro governo Dilma Rousseff, é visto com reservas. Militares avaliam que o ex-chanceler, “itamaratirizou” a Defesa, em uma referência ao Itamaraty. Amorim foi ministro das Relações Exteriores durante os dois mandatos de Lula. Petista também afirmam que Amorim, com 80 anos, não deve integrar o primeiro escalão do governo. Nome de confiança de Lula, deve ser chamado para um cargo com uma rotina menos pesada, uma das possibilidades é ser assessor especial do presidente no Palácio do Planalto.

Ocupante do cargo entre 2015 e 2016, na gestão de Dilma Rousseff, o ex-ministro Aldo Rebelo é respeitado entre as forças, mas não é, atualmente, próximo a Lula. Outro nome bem lembrado é do ex-ministro Nelson Jobim. Sócio e membro do conselho do BTG Pactual, Jobim, contudo, afirmou a colunista Bela Megale que não pretende deixar o setor privado para ocupar um cargo na Esplanada.

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), que se aposenta do cargo em maio de 2023, também é citado para o posto, mas carregará o fardo de ser um ex-STF chefiando fardados. Na avaliação de integrantes da transição, os recentes embates entre a Corte e integrantes do Exército sugerem que Lewandowski não seja visto por militares como um nome que poderá pacificar a relação do PT com a caserna.

Na falta de um consenso sobre um nome para o cargo, o do vice-eleito, Geraldo Alckmin (PSB), é considerado com boa reputação para o posto, além de ser um nome conservador, com larga trajetória na direita e que teria respeito da tropa. Petistas, no entanto, já admitem que Alckmin ganhou um novo peso desde que assumiu o comando da transição, assumindo protagonismo tanto na articulação política quanto na condução do dia a dia dos trabalhos do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB).

Antes de definir o nome que ocupará a Defesa, Lula tem enviado sinais à caserna que adotará o critério de antiguidade para escolher os comandantes das Forças Armadas. Embora não seja obrigado, faz parte da tradição militar o oficial com mais tempo de serviço prestado ser o escolhido. O método, porém, foi desconsiderado por Bolsonaro após dispensar, numa tacada só, os comandantes do Exército, Aeronáutica e Marinha no ano passado. Os três foram demitidos por não concordar com a politização das tropas desejada pelo presidente.