De Lula a Bolsonaro, de tucano a esquerdista: vira-casacas se multiplicam nas eleições deste ano

O pré-candidato a vice presidente da chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Geraldo Alckmin (PSB), personifica um movimento que vem sendo visto em diferentes partidos: o dos políticos que migram de espectro ideológico. O ex-tucano e agora quadro do PSB é o mais famoso deles, mas na lista dos que viraram casaca nos últimos quatro anos é extensa. O rol vai desde políticos eleitos no pleito passado em coligação com o PT e que depois se aliaram com o presidente Jair Bolsonaro (PL), aos que fizeram o caminho oposto, saindo do polo da direita ao da esquerda.

Eleições: Maia acena com apoio a Freixo e diz que 'candidatura de Santa Cruz é a serviço de Cláudio Castro'

Escândalo do MEC: Cármen Lúcia manda PGR se manifestar sobre pedido de investigação de Bolsonaro

Seguindo o caminho de Alckmin, o ex-prefeito do Rio Cesar Maia, quadro histórico do DEM e hoje filiado ao PSDB, negocia assumir a posição de vice na chapa do pré-candidato ao Palácio Guanabara pelo PSB, Marcelo Freixo. Caso seja concretizada, a aliança vai colocar Maia no mesmo palanque de Lula, já que o petista apoia o deputado federal na corrida pelo governo fluminense.

O ex-prefeito já teve atritos com o ex-presidente na época em que ambos ocupavam os respectivos cargos no Executivo, seja por conta da Saúde na capital carioca, que passou por intervenção federal no governo Lula, ou quando o petista foi vaiado na abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e acusou Maia por ter orquestrado a cena.

De acordo com o cientista político Carlos Pereira, a justificativa por trás dessa mudança é a sobrevivência eleitoral dos políticos. Para se manter no jogo, explica o especialista, reavaliam suas posições de acordo com o sentimento do eleitor:

— O que mais interessa aos políticos é a sobrevivência eleitoral. Então é completamente racional que façam reavaliações das suas posições políticas e percebam que a continuidade dessa estratégia pode não render os frutos eleitorais que almejam e que fiquem fora do jogo. O maior pesadelo para um político é ficar sem o mandato.

Divergência: Aliados de Bolsonaro veem equívoco em decisão sobre Braga Netto como vice, mas tratam assunto como encerrado

Entenda: Polícia Federal pediu quebra de sigilo de Renan Bolsonaro para apurar suspeita de tráfico de influência

Segundo Pereira, essas mudanças podem ter impactos muito positivos, fazendo com que os políticos assumam lugares de destaque no cenário eleitoral, mesmo que estivessem esquecidos. É o caso de Alckmin, que ocupa um lugar na chapa com maior intenção de voto, e de Maia, que hoje ocupa uma vaga de vereador no Rio sem grande relevância.

No entanto, o cientista político pondera que tais mudanças são arriscadas e podem ter o efeito contrário. Ao invés de atrair voto, trocar de lado pode atrair rejeição, como aconteceu com o ex-governador João Doria (PSDB), eleito em 2018 na esteira do bolsonarismo, mas que, ao longo de seu mandato, se tornou oposição ao presidente.

— É a máxima: as pessoas adoram traição, mas odeiam traidores — afirma Pereira.

De Dilma a Bolsonaro

Outro exemplo de político que trocou de lado é o ex-líder de governo no Senado Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). O senador rompeu com Bolsonaro em dezembro passado por se sentir traído pelo presidente na votação para Tribunal de Contas da União (TCU). O parlamentar achou que o governo federal não havia se empenhado para conseguir o apoio necessário para que Bezerra fosse escolhido por seus pares a Corte.

A vaga acabou indo para Antonio Anastasia, e o ex-líder teve apenas sete votos de apoio.

Recentemente, Bezerra esteve em um evento organizador por apoiadores do Lula para pedir votos a seu filho Miguel Coelho, pré-candidato ao governo de Pernambuco. Embora o senador tenha sido relator do projeto do governo que impõe um teto ao ICMS, isso não evitou que fosse alvo de críticas do presidente.

— Tem liderança aí, não quero citar nomes. um senador que era líder do governo, trabalhava aqui atendendo a gente no Senado. Ele teve tudo da nossa parte, tudo da nossa parte, e hoje em dia não fala nosso nome em Pernambuco — reclamou Bolsonaro em entrevista à rádio CBN Recife.

A troca de sinal para Bezerra não é algo novo para o senador. Antes de ser líder do governo Bolsonaro, o pernambucano foi ministro de Integração Nacional do governo da ex-presidente petista Dilma Rousseff, entre 2011 e 2013.

Por ora, Bezerra Coelho se equilibra entre os acenos ao Lula e à esquerda em seu estado e o projeto do governo Bolsonaro no Senado, que pretende ampliar auxílios sociais.

Já no rol dos políticos que migraram da esquerda para direita há nomes como o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), que se elegeu ao Senado em 2018 em uma coligação com o PT. É o mesmo caso do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), vice-líder do governo no Congresso. O parlamentar conquistou sua cadeira na Câmara numa aliança com petistas.

Bacelar, por sua vez, nega que tenha mudado de lado.

— Não tive mudança, sempre fui do PL, desde 2002. O partido no estado sempre esteve coligado [ao PT] desde 2014 — diz o deputado, que completa: — Sou vice-líder do governo agora, a coligação foi em 2018.

Cotada a vice na chapa do pré-candidato ao governo de São Paulo pelo Republicanos, Tarcísio Freitas, a deputada federal Rosana Valle é um exemplo de quem saiu de uma legenda de esquerda para uma de direita. Na janela partidária deste ano, a parlamentar deixou o PSB para se filiar ao PL, sigla de Bolsonaro, de quem se aproximou.

Na época que trocou de sigla, Valle declarou que “nunca votaria nem apoiaria Lula”, uma referência a aliança entre PT e PSB. Apesar da mudança, a deputada afirma que sempre foi coerente com seus posicionamentos.

— Me posicionei desde o início do mandato de forma coerente com minha trajetória, discordei diversas vezes das posições do PSB e votei com a minha consciência — afirma Vale.

Camaleoa da política

A senadora Kátia Abreu (PP-TO) é outro nome da política que foi capaz de migrar de um lado para outro. Ela foi ministra da Agricultura do segundo mandato de Dilma, cargo que ocupou por um ano, entre 2015 e 2016. Depois, se filiou ao PDT para compor a chapa de Ciro Gomes, que disputava a Presidência pela mesma sigla em 2018.

Nos anos seguintes, porém, a relação entre o partido e a senadora se desgastou após Kátia votar a favor da reforma de Previdência, indo contra a orientação do PDT. A saída da ex-ministra da legenda, que já era esperada, se concretizou em março de 2020. Hoje, ela disputa a reeleição pelo PP, uma das siglas do Centrão que dá sustentação ao governo Bolsonaro.

Segundo Carlos Pereira, essas mudanças de sigla também ocorrem porque os partidos acabam não sendo representantes de ideologias, o que deixa os políticos livres para migrarem para agremiações que lhes tragam mais benefícios eleitorais. Nesse sentido, os motivos para trocar de legenda pode ser por ela estar coligada a um outro candidato com posições divergentes do político, ou por oferecer mais verba de fundos eleitoral e partidário.

— Partidos políticos não são fontes de agregação ideológica muito forte na grande maioria dos partidos. Mas eles são fundamentalmente fontes de agregação de interesses e estratégias de sobrevivência eleitoral — diz o cientista político.

O senador Romário (PL-RJ) também tenta a reeleição se apoiando na base de Bolsonaro. Ele, no entanto, se elegeu ao Senado pelo PSB em 2014. A guinada à direita se deve, segundo interlocutores, à necessidade do ex-jogador de conseguir apoios para sua recondução ao cargo.

No último ano, Romário intensificou sua agenda em eventos evangélicos e ao lado de aliados do presidente. Ele, por exemplo, participou do culto em que o ministro André Mendonça fez no Rio para agradecer a aprovação de sua sabatina à Corte. Para ressaltar seu apoio a Bolsonaro, o senador criticou os governos passados e disse que o país “estava uma merda do caralho” antes do atual chefe do Executivo assumir.

Apesar do posicionamento atual, porém, Romário já fez elogios a Lula. Em 2013, época em que era deputado federal pelo PSB, elogiou o petista como “um dos nomes mais importantes da história do Brasil”. Na ocasião, Lula havia sido homenageado com duas medalhas na Câmara.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos