Lula conta com histórico do PT para costurar apoio do Centrão, base de Bolsonaro

Eleito, Lula deve iniciar intensa articulação para montar uma forte base de apoio no Congresso Nacional - Foto: REUTERS/Carla Carniel
Eleito, Lula deve iniciar intensa articulação para montar uma forte base de apoio no Congresso Nacional - Foto: REUTERS/Carla Carniel

O histórico de relacionamento do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com expoentes de PL, PP e Republicanos deve balizar a busca do futuro governo por apoios dentro do Centrão, bloco que deu suporte à candidatura de Jair Bolsonaro. Embora as cúpulas dessas legendas evitem uma adesão imediata ao governo Lula, o petista já recebeu acenos principalmente do Republicanos, sigla ligada à Igreja Universal, que sinalizou não ter intenção de fazer oposição à futura gestão.

As três siglas do Centrão somam 187 deputados eleitos, e alguns interlocutores e lideranças já admitem que haverá adesões individuais à base de Lula, que conta com esses apoios para ter margem de governabilidade. O bloco é maior do que os 139 parlamentares de partidos que apoiaram formalmente o PT, que busca ainda atrair nomes de siglas que ficaram neutras no segundo turno, como PSD e União Brasil, além do MDB.

No dia seguinte à vitória de Lula, o presidente do Republicanos e bispo licenciado da Universal, deputado Marcos Pereira (SP), ressaltou ter apoiado Bolsonaro “até o último minuto”, e projetou que a sigla ficará “independente” na Câmara, sem se restringir a um discurso de oposição. A postura difere à de lideranças do PL, que posicionaram o partido como opositor a Lula, e do PP, cuja relação com o futuro governo passa pelo apoio à reeleição de Arthur Lira à Presidência da Câmara.

Em seu posicionamento, antes de Bolsonaro reconhecer a derrota, Pereira frisou que “não há por que questionar o resultado das urnas, senão teríamos que questionar a eleição do Tarcísio”, referindo-se à vitória do ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo. Com a vitória, o partido ligado à Universal estará pela primeira vez à frente do maior estado do país, e terá uma nova chance em um grande colégio eleitoral após a passagem de Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, pela prefeitura do Rio. Crivella, eleito deputado federal pelo Rio, foi ministro da Pesca no governo Dilma Rousseff e mantém interlocução com nomes do PT — que se aproximou, por outro lado, de um de seus principais adversários, o atual prefeito Eduardo Paes (PSD).

Macedo, que declarou voto em Bolsonaro e Tarcísio durante a campanha, chegou a declarar em vídeo divulgado na terça-feira que “a derrota foi do presidente Bolsonaro”, e não dele mesmo. Ontem, em novo vídeo, o líder da Universal — que foi aliado do PT ao longo das gestões de Lula e Dilma — citou o episódio de uma fiel que teria declarado, “em prantos”, seu perdão a Lula “pelo mal que fez ao Brasil”.

— Aí me veio o discernimento de quantas pessoas neste Brasil, especialmente cristãos, devem ter se agarrado a um sentimento de mágoa contra o Lula. Ora, vamos colocar a cabeça no lugar. A escolha foi da maioria. Não podemos ficar com mágoa, porque isso é o que o diabo quer. Não dá, bola para frente — disse o bispo.

No caso do PL, a estimativa na Executiva do próprio partido é que, dentre os 99 deputados eleitos, mais de 40 estarão dispostos a ajudar o futuro governo, se forem atendidos com cargos e emendas. O presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, que ofereceu um salário e assistência jurídica a Bolsonaro para que ele possa se defender de processos e manter uma atuação política, disse a pessoas próximas que a ideia é permitir que haja adesões individuais à base do governo. O líder do PL na Câmara, deputado Altineu Côrtes (RJ), disse ao jornal Valor que o partido “é oposição ao governo que se elegeu (...) assim como o PT foi ao nosso governo”, mas que não poderia falar “individualmente” pelos parlamentares.

O PL, quando ainda se chamava Partido da República (PR), foi da base do governo Lula e apoiou a eleição da sucessora escolhida pelo petista. No governo Dilma, houve estremecimentos na relação logo no início do mandato, depois que a presidente escanteou o então presidente do PR, Alfredo Nascimento, na chamada “faxina ética” no Ministério dos Transportes. Líder do partido à época, o deputado Lincoln Portela (PL-MG) diz que será uma “oposição consciente” a Lula, mas sem deixar de votar “no que for bom para o Brasil”. O deputado eleito Alberto Fraga (PL-DF), aliado de Bolsonaro, também afirma que fará oposição, mas espera que Valdemar libere os parlamentares nas votações.

— A gente até prevê o que pode acontecer: aliança (do PL com o governo). Se não houver aliança com PP, PL e Republicanos, (o PT) não governa. Eles sabem disso — declarou Fraga ao EXTRA.

Tempo para distensionar

Dos três partidos do Centrão, o PP é a sigla que teve o maior número de parlamentares, 20, sem participar da campanha de Bolsonaro no segundo turno. A lista inclui nomes, principalmente do Nordeste, que têm histórico de boas relações com gestões petistas. São os casos dos deputados Aguinaldo Ribeiro (PB), ex-ministro das Cidades no governo Dilma, e Mário Negromonte Jr. (BA), aliado do PT na Bahia e cujo pai foi antecessor de Ribeiro na pasta.

Líder do governo Bolsonaro na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) disse que as conversas estão acontecendo, mas que o eleitor precisa de um tempo para “distensionar” e aceitar que os deputados colaborem com a governabilidade.

— O problema é que o nosso eleitor não quer conversar, e deputado não anda dissociado de sua base. Então vai precisar um tempo de distensão, não acho que isso vai se revolver agora. Tem gente trabalhando para poder construir um caminho — afirmou.

Alguns caciques no Centrão acreditam que o governo Lula não precisa ter uma base formal tão grande, desde que preserve o poder dos parlamentares sobre o Orçamento. O petista, porém, sinalizou durante a campanha que pretendia acabar com as emendas de relator.