Ida de Lula a COP27: Não basta ser honesto, tem que parecer

Ida de Lula ao Egito para a COP27 foi criticada pela oposição - Foto: AP Photo/Peter Dejong
Ida de Lula ao Egito para a COP27 foi criticada pela oposição - Foto: AP Photo/Peter Dejong

Não basta ser honesto, tem que parecer honesto

A frase representou o pensamento de Júlio César, ditador absoluto romano, no ano de 63 antes de Cristo. Mas poderia ser facilmente utilizada hoje, dois mil anos depois. Apenas para esclarecer o significado disso e vamos entrar no assunto contemporâneo,

Pompéia, esposa de César, promoveu um festival exclusivamente para mulheres. Mas um homem chamado Públio Clódio Pulcro invadiu a festa disfarçado de mulher, para tentar seduzir Pompéia, por quem era apaixonado. Ele foi descoberto, óbvio, e o falatório foi geral na cidade. Mesmo que não tivesse acontecido nada, segundo a história, imediatamente Júlio César se divorciou da esposa e disse: “a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita. A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

Lula viajou para a COP27 no jatinho de um empresário que foi preso pela Operação Lava Jato, o tal “Jr da Qualicorp”. As justificativas são os gastos que o PT teria. É sério, mesmo? O PT nunca pareceu se importar com gastos de sua maior liderança até então. A impressão que dá é que, chegando ao poder, os outros que pensem o que for. O objetivo final já foi conquistado. O poder. Ou é deslumbramento ou é simplesmente ignorar a moralidade que se exige de Lula.

O presidente reeleito tem confusão demais no seu passado para se permitir esse tipo de dubialidade antes mesmo de iniciar seu mandato. Em Trancoso, nas férias depois das eleições, se hospedou na casa dos irmãos Carletto, presos pela Polícia Civil. E eu nem vou falar dos casos conhecidos como o do triplex e do sítio de Atibaia. Sabem aquele dito popular: “anda igual a pato, nada igual a pato e faz quack...é pato!”.

Aí Jean Wyllys vai em suas redes sociais chamar o questionamento em torno disso de “golpismo para que Alckmin assuma”. Ah vá! Normalmente eu nem comentaria esse tipo de coisa mas a afirmação beira o absurdo que eu não me aguento. A mesma narrativa subjetiva que faz com que cada um acredite no que quiser e que é tão imputada à direita de Bolsonaro vai se construindo em torno de Lula.

Nem vou falar no fato de Janja ter ido ao Fantástico com uma camisa de dois mil reais num país que passa fome. Fiz um vídeo no YouTube em que defendo a futura primeira-dama mas o casal tem demonstrado um desequilíbrio preocupante aí. Essa torcida cega que saiu dos campos de futebol e foi para a política impede a eficiência de uma oposição democrática. A democracia liberal, a nossa democracia, confia aos eleitos a resolução dos problemas e a mediação de conflitos. Lula começa mal. Seu governo nasce contaminado, e se continuar assim pode morrer de uma péssima morte: morrer apenas — e este é o paradoxo do moralismo — afoga-se na hipocrisia e na imoralidade.

Lula, em outros tempos, e a esquerda, conseguiram criar um fosso entre eles e nós. Outros governos da esquerda excederam os limites de seu domínio legítimo. Lula sobreviveu e retornou em função de seu domínio carismático. E, por mais que estivesse ciente dos riscos políticos da viagem, que lula não esqueça a máxima da política: sociedade política é aquela que possui moralidade. Nas primeiras semanas de Lula voltamos a falar de mulheres em espaços de poder, de cultura e de fome. Mas voltamos a questionar os valores morais também.

Foi “contra tudo o que está aí” que a esquerda foi tirada do poder. Já recomeçou mal. Em política, cometer um erro é pior que cometer um crime. Os brasileiros acreditaram que elegeram um santo. Que a avaliação não se torne radicalmente equivocada. E que possamos nos libertar da saudade de um governo de outrora para um governo melhor.