Ao negar atos suprapartidários, Lula coloca divergências acima do compromisso histórico

Lula recebe título de cidadão honorário em Paris em março de 2020. Foto: Alain Jocard/AFP (via Getty Images)


Na última vez que viu Nelson Mandela, em dezembro de 2009, em sua residência em Joanesburgo, o repórter John Carlin, autor dos livros “Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul” e “Knowing Mandela: a Personal Portrait”, ouviu o líder sul-africano relembrar o dia em que estendeu a mão aos africâneres, descendentes de europeus que representavam a força política hegemônica durante o apartheid, a vergonhosa experiência de segregação racial que vigorou no país de 1948 a 1994.

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“Minha gente dizia que eu tinha medo”, recordou “Madiba” no encontro. “Mas eu não entrei naquela discussão com eles. Não lhes disse nada. Eu sabia que tinha razão. Sabia que esse era o caminho para a paz. E, ao cabo de algum tempo, compreenderam que eu tinha razão. Viram os resultados. Vivemos em paz.”

A estratégia de Mandela, escreveu Carlin, em um artigo para o El País, era construir uma democracia estável na África o Sul e evitar um banho de sangue do qual ninguém sairia vencedor. Para isso era preciso “apelar às mentes e aos corações dos inimigos ancestrais de seu povo, e ao melhor de si mesmos”.

Mandela viu na paixão esportiva um elemento central, e agregador, da unificação. Abraçou a equipe sul-africana de Rugby, que tinha apenas um jogador negro, no Mundial de 1995. O país se uniu ao longo da campanha. A equipe se sagrou campeã -- a história está contada no filme “Invictus”, de Clint Eastwood.

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Preso durante 28 anos, Mandela foi eleito presidente cinco anos depois de sua libertação, ocorrida em 1989, e conseguiu, de um lado, convencer a maioria negra a reprimir seu ódio e um possível impulso de vingança e, de outro, os opressores brancos a abandonarem velhos temores e suas armas, como resume seu biógrafo. “A prova eu tive quando entrevistei aqueles três velhos inimigos seus, o general Viljoen, Niel Barnard e Kobie Coetsee, depois que Mandela deixou a presidência. Os três falaram dele com veneração, admiração e – sem exagero – amor”.

Trago aqui o exemplo de Mandela não para fazer paralelos com o Brasil atual, mas para lembrar que o líder sul-africano sempre foi citado como referência pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Parece não ser mais.

Na sexta-feira (26), lideranças que caminharam em lados opostos até outro dia juntaram as vozes numa espécie de comício virtual em defesa da democracia -- e em oposição ao governo Jair Bolsonaro, um foco permanente de tensão com governadores e outros Poderes desde que foi eleito.

Na live organizada pelo grupo Direitos Já, que tenta retomar o espírito cívico da luta contra a ditadura militar e pelo voto direto, discursaram nomes como Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), Guilherme Boulos (PSOL), Flávio Dino (PCdoB), Luciano Huck, Dom Odilo Scherer, Zélia Duncan, Juca Kfouri, entre outros. Michel Temer e José Sarney chegaram a confirmar a presença virtual, mas desistiram. 

O PT não ficou de fora. Discursaram no ato o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o governador do Ceará, Camilo Santana, e o ex-senador Eduardo Suplicy, além do ex-ministro Tarso Genro. 

O maior destaque da legenda, porém, foi uma ausência.

Lula já afirmou que se nega a participar de atos suprapartidários a essa altura do campeonato. Disse não ser “maria vai com as outras” e que movimentos do tipo querem “reeducar o Bolsonaro” sem reeducar o ministro da Economia, Paulo Guedes. Para ele, “tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora nesses manifestos”.

Lula tem direito a fazer esses e outros contrapontos. Poderia, inclusive, fazê-los no espaço aberto a ele nas manifestações que unem adversários. A principal delas é uma questão legítima: por que as forças que agora temem pela democracia não se uniram antes, durante a eleição?

Só que, ao negar a sua participação, Lula coloca as desavenças acima da urgência do momento histórico: o embate contra uma máquina de destruição institucional que mostra os dentes dia sim, dia não. E que, alimentada pelo suicídio armamentista, flerta com a guerra para além do campo simbólico, como ficou demonstrado na reunião ministerial de 22 de abril.

No campo pessoal, Lula tem direito de guardar como quiser a mágoa com quem se omitiu ou aplaudiu sua prisão e patrocinou o impeachment de Dilma Rousseff.

Ele também já demonstrou que não está disposto a buscar pontos de convergência com quem se aliava até outro dia, casos de seus ex-ministros Ciro Gomes e Marina Silva.

Hoje quem faz essa sinalização por união é FHC, que em sua participação na live disse estar disposto a dar a mão “para todos aqueles que queiram abraçar a causa da liberdade e da democracia”.

Lula toma o caminho oposto de Mandela. É certo que este estendeu a mão aos opositores quando chegou à presidência, e Lula é hoje um ex-presidente com os direitos políticos cassados.

Ainda assim, deixou de lado o papel como liderança histórica para se fixar como liderança partidária, aquela que olha para a frente mirando a próxima eleição. Hoje é mais fácil ver Bolsonaro caminhar rumo a um segundo mandato do que ver o líder petista na mesma janela virtual de FHC, Ciro e Marina.

O movimento Direitos Já se define como “uma iniciativa de cidadãos e cidadãs que julgaram ser um imperativo histórico a construção de convergências de amplos setores da sociedade brasileira e dos mais diversos campos políticos, compromissados com o Estado democrático de Direito, como valores fundamentais da Constituição brasileira frente à agenda anticivilizatória do governo de Jair Messias Bolsonaro”.

O ato, que não foi exatamente um sucesso de público (cerca de 4 mil pessoas acompanharam os discursos), aconteceu no Dia Internacional do Combate à Tortura.