Lula diz aceitar fazendeiro armado e fala em sem-terra maduros em nova ofensiva pelo agro

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 20.09.2022 - O ex-presidente Lula (PL) durante encontro com representantes do setor de turismo, no Hotel Gran Mercure, em SP. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 20.09.2022 - O ex-presidente Lula (PL) durante encontro com representantes do setor de turismo, no Hotel Gran Mercure, em SP. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que é contra o armamento da sociedade, mas que isso não significa que donos de fazenda não poderão ter armas para garantir sua segurança --citou inclusive que seu pai tinha arma em casa.

Também disse que o comportamento dos sem-terra hoje em dia "é muito diferente e muito mais maduro" e que um governo seu representa paz no campo.

O petista concedeu entrevista ao Canal Rural que foi exibida na noite desta quarta-feira (21), com novos acenos ao setor agro.

"Meu pai era caçador no Guarujá, ele tinha arma em casa. Ninguém vai proibir que o dono de uma fazenda tenha uma, duas armas. Agora, se ele tiver 20 não é mais uma arma para defesa. 30 pior ainda. É apenas o bom senso", afirmou Lula.

Lula disse que irá "mudar" decretos armamentistas propostos no governo Jair Bolsonaro (PL) "discutindo com a sociedade".

"A gente vai discutir porque é preciso ter um controle. Você não pode deixar a sociedade armada do jeito que está. Alguém comprar 12, 10, 15, 20 armas. Você sabe onde estão essas armas? Que alucinação é essa? Nós não estamos em guerra", disse o ex-presidente.

Ao ser questionado sobre a proximidade do PT e de alguns partidos que apoiam Lula com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), o ex-presidente afirmou que "pouquíssimas terras produtivas foram invadidas no país" e que, atualmente, o "comportamento do sem-terra é muito diferente e muito mais maduro". "Eles viraram um setor altamente produtivo", afirmou.

"No Brasil de hoje, posso te garantir que as coisas estão muito mais harmonizadas e tranquilas do que já estiveram em qualquer outro momento", disse.

Ele afirmou também que durante seus governos, o campo teve paz. "Não só teve [paz] como foi um dos momentos mais extraordinários do campo."

A realidade das invasões de terra em sua gestão é diferente da falada hoje.

O clima com os sem-terra teve alta tensão nos primeiros anos de seu governo. O número de invasões de terra nos três primeiros anos do governo Lula (2003-2005), por exemplo, superou em 55% o registrado nos 36 últimos meses da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso.

A quantidade de assassinatos por causa de conflitos agrários avançou 63% no mesmo período.

A pressão dos sem-terra começou a diminuir em seguida, muito por causa da consolidação do Bolsa Família, da política de valorização do salário mínimo e da criação de empregos nos centros urbanos.

Tudo isso esvaziou os acampamentos dos sem-terra e, como consequência, as invasões de terra --o MST manteve um tom crítico a Lula durante os seus dois mandatos, apesar de nunca ter ocorrido uma ruptura.

A entrevista é mais um esforço da campanha do petista para ampliar apoios, tentar ganhar as eleições no primeiro turno e acenar ao agronegócio, setor que representa uma das bases de apoio do presidente Jair Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na corrida eleitoral.

Também num esforço para dialogar com o setor, nesta quarta, o candidato a vice, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) viajou a Goiânia (GO). Na quinta (22), ele segue para Porto Velho (RO).

A entrevista desta quarta não foi ao vivo --ela foi gravada na terça-feira (20).

Um dia antes da gravação, numa preparação para a entrevista, o ex-presidente conversou com três dos principais fiadores da campanha petista junto ao agro: o senador Carlos Fávaro (PSD), o deputado federal Neri Geller (PP), candidato ao Senado, e o empresário Carlos Ernesto Augustin. Petistas se referiram ao encontro como "agrotraining".

A ideia da campanha petista era reforçar a mensagem de que o ex-presidente reconhece a importância do setor para a economia brasileira e que, num eventual novo governo, dará atenção ao agronegócio.

O ex-presidente foi alvo de críticas quando disse, em entrevista ao Jornal Nacional, em agosto, que existe uma parcela do agro "fascista e direitista" que se opõe ao PT por ser contra políticas de preservação do ambiente.

À época, Augustin disse à Folha de S.Paulo que o ex-presidente errou ao se referir a parte do setor como "fascista" e defendeu que ele pedisse desculpas pela generalização.

Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), os quatro presidenciáveis melhores colocados nas pesquisas de intenção de voto, foram convidados pelo Canal Rural para uma entrevista gravada e com duração de uma hora. A entrevista com o pedetista foi exibida no último dia 6 de setembro.

Levantamento do Datafolha divulgado no último dia 15 mostrou Lula com 45% das intenções de voto, ante 33% de Bolsonaro. Em terceiro lugar, empatados tecnicamente, apareceram Ciro, com 8%, e Tebet, com 5%.