Lula diz que decide sobre candidatura em janeiro, mas já negocia apoios e palanques

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Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá entrevista coletiva em Brasília

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - Apesar do discurso de candidato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que só tomará uma decisão definitiva sobre as eleições de 2022 em janeiro, ao mesmo tempo que já trabalha para resolver o xadrez de colocar em seu palanque o máximo de aliados possível.

Em quatro dias em Brasília, o ex-presidente se reuniu com representantes de siglas como PSOL, PCdoB, PDT, Solidariedade, jantou com caciques do MDB e recebeu discretamente o presidente do PSD, Gilberto Kassab. Na mesa, tentativa de montar palanques regionais que agreguem a maior parte dos partidos de esquerda e alguns de centro.

"Eu tenho conversado com todas as forças políticas que querem conversar, eu só vou decidir sobre minha candidatura no ano que vem", disse. "Estou conversando com partidos políticos, em algum momento vou conversar com empresários, intelectuais. Consertar esse país é uma tarefa de muita gente."

Fontes do PT ouvidas pela Reuters disseram que o ex-presidente está convencido de que será preciso fazer de fato um governo de união nacional pós-Bolsonaro, e que não pretende deixar ninguém que se interesse de fora da conversa --nem mesmo o MDB, principal força por trás do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em um jantar organizado a pedido do ex-presidente pelo ex-senador Eunício Oliveira, na noite de quarta-feira, se reaproximou de caciques do partido. Sem negociações para apoios nacionais, ainda há abertura para alianças regionais, disse uma fonte parlamentar petista.

No xadrez Lula inclui, ainda, atrair para a aliança um PSB que, nos últimos anos, se afastou da esquerda tradicional, mas começa a se reaproximar.

O embrião da conversa entre PT e PSB passou por um acordo para a candidatura do deputado federal Marcelo Freixo , que deixou o PSOL para se filiar ao partido socialista, ao governo do Estado do Rio de Janeiro e que tem apoio já declarado de Lula. A intenção é criar uma frente que una os dois partidos e mais o PSD --com apoio do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia-- para apoiar Freixo.

No entanto, ao sair das conversas com Lula, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, afirmou que o partido tem, além do Rio de Janeiro, outras prioridades: Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e São Paulo.

"Deixei claro para o presidente [Lula] que São Paulo e Pernambuco são os 2 focos essenciais, onde o partido tem expressão maior e tem lideranças históricas que precisam ser tratadas com muito cuidado, sem nenhum descaso para os demais interesses", disse Siqueira.

De acordo com as fontes ouvidas pela Reuters, Pernambuco e Espírito Santo não são hoje um problema. Já em São Paulo, disse uma delas, a possibilidade de Fernando Haddad abrir mão da disputa em favor de Márcio França é considerada praticamente impossível.

O socialista aparece em terceiro nas pesquisas, atrás de Geraldo Alckmin --que ainda está no PSDB, mas pode sair para ser candidato pelo PSD-- e de Haddad.

"A candidatura de Haddad é uma que Lula aposta e não faz sentido abrir mão para alguém que está atrás dele nas pesquisas. Além do mais, os votos de Haddad não iriam nunca para o França, mas sim mais provavelmente para Boulos (Guilherme, pré-candidato pelo PSOL)", disse uma segunda fonte.

Já no Rio Grande do Sul, PSB e PT já apresentaram seus candidatos --Beto Albuquerque, pelos socialistas, e o deputado estadual Edegar Pretto pelo PT. No entanto, de acordo com o ex-governador Tarso Genro, nada está escrito em pedra e pode ser negociado.

"Estamos estudando isso nesse momento, conversando com aliados sobre a montagem de uma chapa unitária", disse.

A intenção, além de dar um palanque a Lula, é evitar que nomes ligados ao bolsonarismo, como o senador Luis Carlos Heinze (PP) ou o ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni (DEM), possam vencer a disputa.

"Todas as conversas que tivemos foram no sentido de como podemos unir esforços para uma frente contra esse governo", disse a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffman.

Discreto, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, foi um dos que visitaram Lula, mas um dos únicos a ter entrado e saído pela garagem. Em entrevista nesta sexta, Lula lembrou que foi o segundo encontro com Kassab e que em ambos ele reafirmou que pretende ver o partido com candidatura própria, mas que há caminho para um acordo em um eventual segundo turno.

"Se ele já disse que se por acaso não for ao segundo turno que com Bolsonaro ele não vai, então tem chance grande aí. Eu tenho muitos amigos de verdade no PSD e eu gosto muito do Kassab", disse.

VIAGENS

Se não declarou oficialmente sua candidatura, Lula já avisou que vai viajar. Diz que quer correr o país mais uma vez e, em suas redes sociais, convocou a militância para "ir às ruas" falar de política e eleição.

Perguntado sobre o porquê de não ter ido nos atos do dia 2 de outubro, afirmou que se fosse, como candidato em primeiro lugar nas pesquisas, ia transformar a manifestação em um ato de campanha,

"Não fui aos atos primeiro por uma questão de responsabilidade. Não queria e não vou contribuir para transformar os atos em atos políticos. Porque a hora que eu subir no caminhão, subirá no caminhão o primeiro colocado nas pesquisas e que pode vencer a eleição em primeiro turno", disse.

"Uma coisa é subir no caminhão quem tem 2% dos votos. Outra coisa é subir no caminhão quem tem 45%, 49%, depende das pesquisas, das intenções de voto. Então, eu tenho essa responsabilidade, porque quando eu subir no caminhão é para não descer mais."

Lula ressaltou, no entanto, que pode ir a uma nova manifestação, marcada para 15 de novembro, se não viajar antes.

O ex-presidente revelou que irá à Europa no próximo mês, para encontros no Parlamento Europeu, em Bruxelas, receber um prêmio em Paris, conversar com empresários em Madri e ter encontros em Berlim com lideranças do Partido Social-Democrata da Alemanha, o SPD, que venceu as últimas eleições alemãs.

Lula recuperou os direitos políticos com a anulação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de condenações anteriores, inclusive a relativa ao processo do tríplex do Guarujá (SP), que o levou a ficar preso 580 dias.

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