Lula e Bolsonaro estancam desgaste com religiosos e salário mínimo, dizem campanhas após debate

RIO DE JANEIRO, RJ, 28.10.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula (PT) durante o debate para a Presidência da República nos estúdios da TV Globo, mediado pelo jornalista William Bonner, no Projac, na zona oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
RIO DE JANEIRO, RJ, 28.10.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula (PT) durante o debate para a Presidência da República nos estúdios da TV Globo, mediado pelo jornalista William Bonner, no Projac, na zona oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do presidente Jair Bolsonaro (PL) avaliam que o debate na TV Globo na noite desta sexta-feira (28) foi positivo para estancar focos de desgaste vividos em cada campanha.

De um lado, correligionários que traçam as estratégias eleitorais de Bolsonaro dizem acreditar que o encontro serviu para esclarecer que o chefe do Executivo não pretende acabar com benefícios de trabalhadores, como 13º salário, férias e hora extra. Além disso, o presidente reforçou a promessa de dar ganho real ao salário mínimo no próximo ano.

De outro, pessoas próximas a Lula afirmam que o petista demonstrou segurança, conseguiu dialogar com o eleitorado mais religioso --no qual enfrenta desgaste-- e que venceu um debate em que assessores julgavam que um empate era suficiente.

A campanha de Bolsonaro diz que o presidente foi bem ao insistir no tema do salário mínimo no primeiro bloco.

A avaliação de aliados é que a ideia do ministro da Economia, Paulo Guedes, de desindexação do piso salarial do país, conforme antecipado pela Folha, foi o tema mais prejudicial a Bolsonaro neste segundo turno.

Assessores consideram o impacto do tema maior até mesmo que a ação do ex-deputado Roberto Jefferson de receber a Polícia Federal a tiros e da afirmação de Bolsonaro de que havia "pintado um clima" com adolescentes venezuelanas.

Por isso, assim que teve direito de falar, Bolsonaro fez questão de tocar no assunto e ainda prometeu elevar o salário mínimo, hoje de R$ 1.212, a até R$ 1.400 em 2023.

O presidente também procurou rebater o programa eleitoral gratuito de Lula na TV que disse que o chefe do Executivo pretende acabar com o 13º salário, com as horas extras e o direito a férias.

Bolsonaro perguntou diversas vezes a Lula se ele de fato incluiu essas informações em suas peças de campanha. O petista não respondeu --não há nada nessa linha no programa de governo do mandatário.

A avaliação de aliados é que foi justamente nesse momento, no primeiro bloco, o melhor desempenho do presidente na noite desta sexta.

Também foi comemorado na campanha o fato de Bolsonaro ter voltado a bater na questão da corrupção e nas condenações --que foram anuladas pelo STF (Supremo Tribunal Federal)-- de Lula.

Para aliados de Lula, o ex-presidente foi ao debate para jogar por um empate, mas saiu vitorioso ao mostrar segurança e estabilidade para consolidar votos.

A análise de aliados do petista é que Bolsonaro pareceu nervoso, provocador e comunicou-se com sua própria base, enquanto o ex-presidente tentou falar "para fora".

No primeiro bloco, integrantes da campanha dizem que Lula deu alguns tropeços. O ex-presidente disse que não assiste ao próprio programa eleitoral e deixou de citar que a ideia de alterar a forma de cálculo do salário mínimo foi do ministro Paulo Guedes.

A informação de que Guedes discutiu proposta que permitiria reajustar o mínimo abaixo da inflação só foi levantada por Lula no segundo bloco. Isso, porém, não abalou a análise de indecisos sobre o debate, de acordo com levantamentos internos do PT.

Um ponto positivo apontado por aliados foi o fato de o petista ter levantado o tema do aborto para dizer que Bolsonaro defendeu em entrevista em 1992 distribuir uma "pílula de aborto" para as pessoas.

Lula aproveitou a ocasião para se dizer contra o aborto e tentar gerar trechos que possam ser explorados nas redes sociais. O vídeo com a fala de Bolsonaro daquele ano, por exemplo, já foi resgatado pela campanha.

Integrantes da campanha petista dizem ainda que Lula aproveitou o debate para criar uma vacina no tema de costumes, seara que é amplamente usada por Bolsonaro para atacar o adversário. A expectativa é que, na véspera da eleição, Lula seja alvo de uma série de ataques e fake news ligadas a assuntos religiosos, daí a necessidade de se antecipar nessa discussão.

Além da fala sobre aborto, Lula fez diversas referências a Deus.

O petista também se saiu melhor neste debate em relação ao anterior, na TV Band, nas respostas sobre corrupção, tema considerado um calo no sapato de Lula.

"Lula foi bem, colocou a pauta na maioria do tempo, falou da vida do povo, de propostas e do que fez. Nos grupos de [pesquisas] qualitativas, ganhou a maioria", avalia a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR).

Para o deputado José Guimarães (PT-CE), um dos coordenadores da campanha, o ex-presidente tratou do tema de aborto "para não deixar a pauta dos costumes ficar na mão" de Bolsonaro.

"Eu acho que o Lula conseguiu passar segurança e isso gera estabilidade na reta final. Não discutiu muito as ideias porque com o Bolsonaro não dá para discutir. Saiu muito melhor do que no outro", disse.

"Bolsonaro demonstrou insegurança, nervosismo e uma certa postura de perdedor. O Lula estava bem seguro, preparado. E isso não é avaliação de um membro do time. Debater com Bolsonaro é jogar xadrez com pombo. O pombo está perdendo e ele derruba o tabuleiro de xadrez", afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).