Lula elege combater "todas as desigualdades" como prioridade e ataca herança "genocida" de Bolsonaro

Presidente Lula sobe a rampa do Planalto após ser empossado

Por Lisandra Paraguassu, Ricardo Brito e Bernaro Caram

BRASÍLIA, 1 Jan (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprofundou seu discurso social ao assumir neste domingo o comando do Palácio do Planalto pela terceira vez, elegendo o combate de "todas as desigualdades" como prioridade, ao mesmo tempo em que destinou palavras duras contra a herança do governo de Jair Bolsonaro e aos que "não respeitaram as leis", para quem prometeu buscar punição.

"A fome é filha da desigualdade, que é mãe dos grandes males que atrasam o desenvolvimento do Brasil", disse Lula a uma multidão aglomerada na Praça dos Três Poderes, em frente ao Planalto.

"A desigualdade apequena este nosso país de dimensões continentais, ao dividi-lo em partes que não se reconhecem", acrescentou Lula, que interrompeu o discurso por alguns instantes em meio ao choro.

O presidente lamentou o quadro que mostra mães garimpando o lixo em busca de alimentos para os filhos enquanto há filas para a compra de jatos particulares. Enfatizou que não falava apenas de disparidade de renda, mas também de gênero e de raça.

"Tamanho abismo social é um obstáculo à construção de uma sociedade justa e democrática, e de uma economia próspera e moderna", destacou.

"Foi para combater a desigualdade e suas sequelas que nós vencemos a eleição. E esta será a grande marca do nosso governo", prometeu.

Além de atacar duramente a desigualdade econômica e social, Lula voltou mais uma vez à carga contra a regra do teto de gastos, que classificou de "estupidez" e prometeu revogar, ainda que tenha rejeitado fazer qualquer "gastança" e tenha prometido um governo responsável.

As falas de Lula desde a campanha contra a regra fiscal que limita o crescimento total das despesas públicas à variação da inflação tem provocado temores em agentes e gestores de fundos de mercado financeiros sobre sua política fiscal, em meio ao cenário incerto na economia mundial.

Em seu discurso, Lula defendeu também a "transição energética e ecológica para uma agropecuária e uma mineração sustentáveis, uma agricultura familiar mais forte, uma indústria mais verde".

"Não vamos tolerar a violência contra os pequenos, o desmatamento e a degradação do ambiente", afirmou, acrescentando ainda que irá "revogar todas as injustiças cometidas contra os povos indígenas".

DEMOCRACIA E "GENOCÍDIO"

No campo político, Lula destacou que a democracia foi a grande vitoriosa das eleições, garantiu que irá governar para todos, mas prometeu também que os responsáveis por irregularidades e pelo que chamou de "genocídio" durante a pandemia não ficarão impunes.

"Foi a democracia a grande vitoriosa nesta eleição, superando a maior mobilização de recursos públicos e privados que já se viu; as mais violentas ameaças à liberdade do voto, a mais abjeta campanha de mentiras e de ódio tramada para manipular e constranger o eleitorado", discursou mais cedo na cerimônia de posse no plenário da Câmara dos Deputados.

Lula venceu por uma pequena margem Bolsonaro, que jamais reconheceu a derrota e deixou o Brasil rumo à Flórida na sexta-feira, não passando a faixa ao petista na cerimônia deste domingo.

Em seu discurso, o novo presidente negou qualquer intenção revanchista, mas frisou que o diagnóstico levantado pela equipe de transição sobre a situação da máquina pública é "estarrecedor" e prometeu que os envolvidos em irregularidades, omissões e desvirtuamento do Estado em nome de "um projeto autoritário de poder" responderão por seus atos.

"Não carregamos nenhum ânimo de revanche contra os que tentaram subjugar a nação a seus desígnios pessoais e ideológicos, mas vamos garantir o primado da lei", alertou. "Quem errou responderá por seus erros, com direito amplo de defesa, dentro do devido processo legal."

Lula lembrou também o elevado número de mortes em decorrência da Covid-19 no Brasil, apesar da conhecida estrutura do sistema público de saúde do país.

"Este paradoxo só se explica pela atitude criminosa de um governo negacionista e insensível à vida. As responsabilidades por este genocídio hão de ser apuradas e não devem ficar impunes. O que nos cabe, no momento, é prestar solidariedade aos familiares de quase 700 mil vítimas."

Lula não mencionou o nome de Bolsonaro, que responde a quatro investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo uma relacionada à gestão da pandemia, minimizada pelo então presidente, que se opôs repetidamente a medidas de isolamento social e ainda defendeu inúmeras vezes o uso de medicamentos sem eficácia contra a doença.

Lula também não citou as Forças Armadas em seus discursos neste domingo, num contexto em que apoiadores bolsonaristas ainda acampados diante de quartéis pedem uma ilegal intervenção militar contra o resultado das eleições.

No parlatório, Lula voltou a usar a palavra genocídio, desta vez para descrever o que ele disse ser o quadro deixado pela administração anterior encontrado pela equipe de transição de governo.

"O que o povo brasileiro sofreu nestes últimos anos foi a lenta e progressiva construção de um genocídio", disse, com o público gritando várias vezes na sequência "sem anistia".

Ainda assim, o novo presidente procurou também mandar uma mensagem pela pacificação.

"Quero me dirigir também aos que optaram por outros candidatos. Vou governar para os 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não apenas para quem votou em mim. Vou governar para todas e todos, olhando para o nosso luminoso futuro em comum, e não pelo retrovisor de um passado. A ninguém interessa um país em permanente pé de guerra, ou uma família vivendo em desarmonia", afirmou.

PASSAGEM DA FAIXA

Apesar da tensão existente nos últimos dias, desde que na véspera do Natal a polícia localizou e desarmou uma bomba perto do aeroporto de Brasília, Lula fez questão de desfilar de carro aberto no início da tarde para chegar ao Congresso Nacional.

O presidente inovou em outro momento bastante simbólico das cerimônias de posse: a passagem da faixa presidencial, tradicionalmente realizada pelo mandatário que está deixando o cargo.

Com a decisão de Bolsonaro de não fazê-lo, a opção do ceriminioal foi fazer Lula e seu vice, Geraldo Alckmin, subirem a rampa do Planalto acompanhados de suas respectivas esposas e de oito representantes de grupos da sociedade civil, incluindo o cacique Raoni Metuktire, influente liderança indígena do povo Kayapó.

Num retrato da promessa de combater as diferentes desigualdades, também fizeram parte do grupo Aline Sousa, diretora de uma rede de catadores; o menino Francisco, cujos pais atuam em causas sociais, o metalúrgico do ABC Weslley Viesba Rodrigues Rocha, o professor de português Murilo de Quadros Jesus, a cozinheira Jucimara Fausto dos Santos; Ivan Baron, jovem com paralisia cerebral que é ativista da luta pela inclusão, e Flávio Pereira, que participou ativamente do acampamento Lula Livre durante a prisão do petista em Curitiba -- foram 580 dias na cadeia antes de a Justiça deixar sem efeito sua condenação por corrupção.

Coube a Aline Sousa a honra de colocar a faixa no novo presidente.

(Reportagem adicional de Isabel Versiani, Maria Carolina Marcello e Victor Borges, em Brasília, e Fernando Cardoso, em São Paulo)