Que Lula seja o adulto que Bolsonaro não foi

Em eleição apertada, Lula (PT) vence Bolsonaro (PL) e cumprirá terceiro mandato na presidência - Foto: CAIO GUATELLI/AFP via Getty Images
Em eleição apertada, Lula (PT) vence Bolsonaro (PL) e cumprirá terceiro mandato na presidência - Foto: CAIO GUATELLI/AFP via Getty Images

Lula volta ao centro do poder depois de 12 anos. Venceu e venceu apertado. Na sua primeira fala como presidente reeleito disse que era hora de reunir o Brasil, que era “hora de baixar as armas”. Pero no mucho. No seu primeiro discurso também, em vários momentos, rebateu Bolsonaro. “Não existem dois Brasis”. “Esse povo não quer mais brigar. Esse povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído”. Que assim seja. Mas Lula me pareceu muito mais um Lula de campanha do que o grande líder de antigamente com frases fortes e entonações de estadista. Talvez seja o cansaço de uma campanha exaustiva que sugou até o último minuto uma última gota de suor. Que faça valer a pena.

Lula venceu com 50% mais um. Num país que sai das urnas dividido. Que o líder populista de outrora, que tem na reeleição sua redenção, seja capaz de validar os 50 por cento mais um e que consiga a confiança dos outros 50%.

Não foi tarefa fácil e os próximos quatro anos de um congresso bolsonarista, diferente de conservador, devem ser difíceis. Lula tem a árdua missão de dialogar com esse país dividido, Com o congresso que o olha torto (inclusive com um senador que no passado o colocou na cadeia) e de recuperar a credibilidade, a previsibilidade e a tranquilidade de um Brasil cansado de rupturas democráticas. De todos os níveis.

Eduardo Oinegue, jornalista que estava ao meu lado quando soubemos do resultado das urnas, fez um cálculo incrível, que nessa segunda-feira talvez já esteja mais exposto, mas brilhantemente ele o deu em primeira mão: Bolsonaro precisaria crescer em relação ao primeiro turno 6.38% para levar a reeleição. Em nenhuma das regiões do país Bolsonaro cresceu mais do que 4.4%. Perdeu, numericamente, para si mesmo.

Lula retoma o Brasil depois de o impeachment de sua sucessora, depois de quatro anos de um governo marcado por pandemia, choque inflacionário global, guerra da Ucrânia e 600 mil mortos.

Lula vai enfrentar a desmilitarização do Planalto. Vai ter que reunificar evangélicos e católicos que entraram numa briga que não era sua. E, vai ter que provar que corrupção é coisa do passado. Que o sentimento de luto que paira sob metade da população será dissipado. E que bons ventos voltarão a soprar.

No seu primeiro pronunciamento Lula não foi o grande estadista de outrora. Mas são outros tempos. Se durante o pleito de 2022 reiterou que a garantia era ele, que faça valer os votos daqueles que entenderam que uma mudança (?) era necessária.

Não é hora de brigas. Não é hora de revanchismos, embora eu acredite que esse sentimento ainda seja preponderante pelos próximos meses. Lula tem que ressignificar o STF, o TSE, as bases, os estados...tem que recuperar uma economia que ano que vem ainda vai sofrer os efeitos da PEC Kamikaze.

Que Lula seja o que Bolsonaro não foi nesses quatro anos. O adulto na sala.