Lula enfrentará dificuldades para repetir política externa dos mandatos anteriores

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Recordista de viagens ao exterior entre ex-presidentes, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá retomar a política externa que chamou a atenção da comunidade internacional de 2003 a 2010. Mas, no terceiro mandato, repetir esse desempenho será mais difícil, devido a um cenário internacional bem distinto.

A Guerra da Ucrânia e a polarização entre EUA e China tornam os vetores de conflito maiores que os de cooperação. Paralelamente, o temor de uma recessão global e os impactos econômicos intensificados pela guerra na Europa, iniciada há dez meses, dificultam a construção de novas parcerias no curto prazo.

É num contexto geopolítico complexo que o presidente eleito tentará recuperar a imagem do Brasil após a gestão de Jair Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo em que buscará retomar as relações com países desprezados por seu adversário e com órgãos de integração regional dos quais o país abriu mão, caso da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), da qual o Brasil se retirou formalmente em 2019.

"Na política ativa, que marcou os primeiros mandatos de Lula e que deverá ser retomada, há iniciativas em todos os tabuleiros. O país não fica restrito a um só tipo de jogo e procura ganhos em toda parte", diz o embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente na gestão de Itamar Franco e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). "Essa política ajuda a diversificar mercados, algo importante num momento de redução no nível de crescimento global."

Lula fez 157 viagens para encontros bilaterais durante os dois primeiros mandatos, o que representa média de 19,6 viagens por ano, de acordo com levantamento realizado pelo professor de relações internacionais da Universidade Federal de Pernambuco Rafael Mesquita. Argentina e Venezuela, países vizinhos, ficaram no topo dos mais visitados —foram dez passagens por cada um.

O líder petista visitou 79 países para estreitar vínculos bilaterais, numa política externa que ficou marcada pela valorização do entorno regional. Das sete nações mais visitadas, seis são sul-americanas. A política Sul-Sul abraçou também nações africanas: foram 28 viagens para países do continente.

Os números são expressivamente maiores que os do atual presidente, por outro lado prejudicado pelas restrições impostas pela pandemia de coronavírus. Bolsonaro fez 22 viagens para encontros bilaterais durante o seu mandato, o que representa média de 5,5 por ano, concentrando os itinerários em nações alinhadas ideologicamente à sua agenda pessoal, casos de Hungria e Israel.

A política externa do presidente eleito terá de se adequar a um novo arranjo geopolítico. Nos mandatos anteriores, enquanto os países que formam o Brics —além do Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul— despontavam apenas como promessas, os EUA exerciam hegemonia política com capacidade de agir unilateralmente em temas sensíveis. Não é mais assim, em especial em relação a Washington.

A crise financeira de 2008, que estourou nos EUA e provocou recessão global, foi importante para a ascensão da China, país que hoje protagoniza embates com Washington na Guerra Fria 2.0.

Em um mundo não mais dominado pelos americanos e hoje com alguns centros de poder, surgem mais possibilidades de criar alianças e barganhar de maneira a obter vantagens comerciais e políticas, afirma Lucas Leite, professor de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado).

"Isso poderia ter acontecido no caso do leilão do 5G no Brasil, mas não vimos", diz ele. O gigante chinês Huawei não participou do leilão da Agência Nacional de Telecomunicações para exploração do serviço no Brasil no ano passado, durante o governo Bolsonaro, aliado do então presidente dos EUA Donald Trump.

Se por um lado o Brasil pode negociar em condições mais favoráveis, por outro, com a disputa entre as superpotências, a meta da diplomacia brasileira deverá ser menos ambiciosa, diz Pedro Feliú, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP. "Hoje, por exemplo, existe uma competição mais acirrada na África entre EUA e China, o que dá menos espaço para o Brasil ganhar projeção no continente", afirma.

Foi numa tentativa de estreitar os laços diplomáticos e conter o avanço da influência chinesa sobre a África que Biden recebeu neste mês dezenas de líderes do continente em Washington. É também nesse contexto que a América do Sul voltou a ser alvo dos interesses americanos, já que, após o 11 de Setembro e o início da chamada Guerra ao Terror, em que os EUA passaram a priorizar ações e investimentos no Oriente Médio, a América Latina ficou fora do radar econômico da Casa Branca.

Ainda nos três primeiros meses de governo, Lula deverá visitar EUA e China, e, para Feliú, a proximidade das viagens representa uma sinalização de que o Brasil permanecerá neutro na disputa. Além das superpotências, Lula tem viagem marcada à Argentina, durante a qual se reunirá com o presidente Alberto Fernández e participará da Cúpula da Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

Na esteira da estratégia de fortalecer a diplomacia no entorno regional, Mauro Vieira, futuro chanceler, afirmou que as relações com a Venezuela, rompidas em 2019, serão restabelecidas no primeiro dia da gestão do petista. "Houve um baita investimento brasileiro na Venezuela. O Brasil ficou 15 anos investindo na relação bilateral e de repente rompe a relação diplomática? Isso não faz sentido", diz o professor.