Lula fecha lista ministerial com espaço ampliado para MDB, PSD e União Brasil

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciou nesta quinta-feira (29) os nomes de 16 novos ministros e, assim, concluiu a equipe do primeiro escalão de governo para começar o seu terceiro mandato.

Lula oficializou o retorno da deputada federal Marina Silva (Rede-SP) ao Ministério do Meio Ambiente e a acomodação da neoaliada Simone Tebet (MDB-MS) na pasta do Planejamento.

Além disso, na última leva de anúncios de ministros, cedeu 9 ministérios para partidos de centro em busca de governabilidade.

MDB e PSD indicaram três ministros cada um para o futuro governo. Já a União Brasil —partido do ex-juiz Sergio Moro— já tem dois representantes no ministério, mas, na prática, ainda conta com um terceiro nome indicado pelo ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Isso porque o governador do Amapá, Waldez Góes (PDT), vai integrar o governo na cota de Alcolumbre, irá por enquanto se licenciar do PDT e depois deve migrar oficialmente para a União.

O PT manterá sob seu controle 10 ministérios, com algumas posições centrais como a Casa Civil e os ministérios da Economia e da Educação.

O petista concluiu o desenho do seu futuro governo com 37 ministérios, 15 a mais que Bolsonaro no começo do mandato. Segundo disse, fará uma reunião dois ou três dias após a posse com ministros. Depois, pretende se reunir com governadores para fazer levantamento dos três principais projetos de cada estado.

"Quero, a todos os companheiros e companheiras que foram nomeados agora, que vocês façam parte da história política do país, de um momento em que nós tivemos a coragem de assumir o Brasil numa situação extremamente delicada", disse.

"O Brasil, que foi destruído em muitas das coisas que fizemos, quase tudo na área social foi desmontado, e nós vamos ter que remontar tudo outra vez, mas com muito mais competência, vontade, disposição, porque foi para isso que me candidatei outra vez à Presidência da República", completou.

A terceira e última leva dos anúncios de ministros só aconteceu após o fim das negociações com os partidos que farão parte do governo de coalizão.

As tratativas foram encerradas apenas às vésperas do anúncio, com Lula ainda recebendo lideranças partidárias em seu hotel algumas horas antes de seguir para o Centro Cultural Banco do Brasil.

"Temos conversado e, depois de muitos ajustes, nós terminamos de montar o primeiro escalão do governo. Não menos importante, a partir da posse, a gente vai começar a discutir o segundo escalão, os cargos do governo federal em cada estado, para que a gente possa dentro de pouco tempo estar tendo todas as informações para fazer a máquina funcionar", afirmou

Todos os ministros indicados —os novos e os já conhecidos— estavam presentes no anúncio. Lula fez questão de estar cercado pelas mulheres que vão compor o governo. Ele foi criticado no primeiro anúncio, quando apenas ministros homens foram escalados. De acordo com ele, seu terceiro mandato será o governo com o maior número de ministras da história, 11.

Durante o anúncio, Lula declarou não ter medo de escalar políticos para compor seu ministério.

"No meu governo não há medo de escolher político. Porque sou daqueles que acha que, fora da política, a gente não encontra solução para quase nada neste planeta", disse. "E estou convencido que a gente tem que montar o melhor ministério que a gente puder para todo mundo começar a trabalhar."

Além de algumas siglas que compuseram a coligação que o elegeu, Lula cedeu ministérios para o PSD de Gilberto Kassab, para o MDB —para clãs aliados da região Nordeste— e para indicações da União Brasil, resultado da fusão do PSL e do DEM, partido fez oposição ferrenha nos seus dois primeiros mandatos e agora abriga o seu maior desafeto, o ex-juiz Sergio Moro, que o condenou à prisão.

Críticas ao PT no passado não foram um empecilho para a confirmação de ministros. O deputado Juscelino Filho (União Brasil-MA), indicado para chefiar as Comunicações, votou em 2016 pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e fazia elogios à gestão Bolsonaro no governo federal.

NOMES ANUNCIADOS NESTA QUINTA-FEIRA

Alexandre Silveira (PSD-MG): Minas e Energia

Ana Moser: Esportes

André de Paula (PSD-PE): Pesca

Carlos Fávaro (PSD-MT): Agricultura

Carlos Lupi (PDT-RJ): Previdência

Daniela do Waguinho (União Brasil-RJ): Turismo

General Gonçalves Dias: GSI

Jader Barbalho Filho (MDB-PA): Cidades

Juscelino Filho (União Brasil-MA): Comunicações

Marina Silva (Rede-SP): Meio Ambiente

Paulo Pimenta (PT-RS): Secretaria de Comunicação

Paulo Teixeira (PT-SP): Desenvolvimento Agrário

Renan Filho (MDB-AL): Transportes

Simone Tebet (MDB-MS): Planejamento

Sônia Guajajara (PSOL-SP): Povos Indígenas

Waldez Góes (PDT-AP): Integração Nacional

Além de Simone Tebet, que emedebistas buscaram deixar claro que pertence à cota pessoal de Lula, o petista anunciou nesta quinta os nomes de Renan Filho para o Ministério dos Transportes e Jader Barbalho Filho para Cidades.

"A próxima ministra é uma companheira que teve papel extremamente importante na campanha; foi adversária nossa [no primeiro turno], aliada extraordinária no segundo turno", disse Lula, em referência a Tebet.

Já o futuro titular de Cidades foi descrito pelo petista como "companheiro, filho de companheiro, irmão de um companheiro". Ele é filho do ex-senador Jader Barbalho e irmão do governador do Pará, Helder Barbalho.

O PSD terá três ministérios: o senador Alexandre Silveira (PSD-MG) ficará com a pasta das Minas e Energia; Carlos Fávaro (PSD-MT) será ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o deputado André de Paula (PSD-PE) ficará com a Pesca.

Integrantes da União Brasil também indicaram nomes para três ministérios.

Lula anunciou a deputada Daniela do Waguinho (União Brasil-RJ) como ministra do Turismo, e a indicação de Juscelino é colocada também na conta de Alcolumbre, assim como Waldez Góes para a Integração Nacional.

Alcolumbre consultou os consórcios de governadores do Nordeste e da Amazônia para realizar a indicação.

Apesar das indicações, o presidente da União Brasil, Luciano Bivar (PE), diz que a legenda será independente ao governo, já que tem em seus quadros nomes de oposição a Lula. Outra parte do partido, porém, se considera base de apoio de Lula.

Além disso, Bivar tem reclamado internamente que as indicações não partiram da cúpula da União Brasil, mas sim de filiados. O partido viveu um racha interno e o nome de Elmar Nascimento, que estava cotado para a Integração Nacional, foi rifado por resistência no PT e também de correligionários.

Os futuros líderes do governo, também anunciados nesta quinta-feira, disseram esperar que, apesar das declarações de independência, o partido esteja na base do governo.

Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que liderará o Congresso, disse não querer acreditar que a legenda fique independente.

"Estou confiante de que, em fevereiro, vamos ter as primeiras votações no Congresso, e o União Brasil votará conosco. Não vou me meter nas questões internas de outros partidos. Teve um compromisso firmado em nome do União Brasil de apoio ao governo e nós vamos esperar e contar com isso a partir de fevereiro", afirmou Randolfe.

Já José Guimarães (PT-CE), futuro líder do governo na Câmara, afirmou que não descarta o apoio da União Brasil ao novo governo no Congresso. "É diálogo e construção. Quando nós começamos a PEC [da Gastança], ninguém imaginava que a União Brasil ia votar quase 100% na PEC".

Na votação do primeiro turno do plenário da Câmara, 12 dos mais de 50 deputados do União Brasil foram contrários. A indicação da liderança do partido foi pela aprovação da proposta.

Lula também anunciou o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, como ministro da Previdência, outro nome que já ocupou pasta em governos anteriores do PT. Ele se reuniu com Lula na manhã desta quinta, no hotel em que o petista está hospedado em Brasília, algumas horas antes do anúncio.

Outros dois petistas também foram anunciados para o terceiro governo de Lula. Os deputados federais Paulo Teixeira (PT-SP) e Paulo Pimenta (PT-RS) serão ministros do Desenvolvimento Agrário e da Secretaria Especial de Comunicação, respectivamente.

Lula anunciou ainda a ex-jogadora de vôlei Ana Moser como ministra dos Esportes, o general Gonçalves Dias como chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e a deputada federal eleita Sônia Guajajara (PSOL-SP) como ministra dos Povos Indígenas.

Dessa forma, Lula vai começar seu governo com ministros de oito partidos, além do próprio PT. Terão representantes na Esplanada dos Ministérios o PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin, Rede, PC do B, PSOL, PDT, MDB, PSD e a União Brasil.

Por outro lado, ficaram de fora do governo partidos que integraram a coligação que elegeu Lula. Não terão ministérios Solidariedade, Agir, Avante e Pros. O PV integra uma federação com o PT e PC do B, mas esperava uma pasta exclusiva para a sigla, considerando que os comunistas obtiveram.