Lula "guiado por Deus", panfleto e jingle gospel: as apostas do PT para disputar o voto evangélico

Lula em encontro com líderes evangélicos em São Gonçalo, no Rio, nesta sexta.

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - Depois de resistir a entrar em uma disputa direta pelo voto evangélico, o ex-presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cedeu e fez nesta sexta-feira um ato em São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, com pastores apoiadores de sua candidatura, em uma tentativa de ocupar um espaço hoje dominado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em seu discurso, o ex-presidente ressaltou a necessidade de um estado laico, ao mesmo tempo em que disse que sempre teve seus passos guiados por Deus.

"Se tem um brasileiro que não precisa provar que acredita em Deus esse brasileiro sou eu. Eu não teria chegado onde cheguei se não fosse a mão de Deus dirigindo meus passos e guiando meu comportamento", disse o ex-presidente.

"E tenho certeza de que outra vez, lá de cima, ele vai dizer 'Lula, cuida desse povo'. Esse povo não quer discurso, esse povo quer comida, quer emprego, quer saúde, educação, que suas crianças nasçam, cresçam, sem medo da violência."

O encontro em São Gonçalo --em um centro de eventos, não em uma igreja, do terceiro maior colégio eleitoral do Rio de Janeiro-- foi organizado por pastores de diversas denominações evangélicas que apoiam o candidato petista e que vinham cobrando uma ação mais incisiva de Lula junto a esse público.

Os evangélicos são um dos poucos grupos demográficos que Lula, que lidera as pesquisas de opinião, perde por uma distância considerável de Jair Bolsonaro (PL). A mais recente pesquisa FSB/BTG, divulgada esta semana, mostra Lula com 30% de intenções de voto nesse público, contra 47% de Bolsonaro, um movimento de crescimento do presidente nesse setor que o PT registrou há pouco mais de um mês.

PT EM BUSCA DO TOM

Lula se recusou a participar de um culto, como chegaram a sugerir alguns auxiliares, alegando que não iria fazer política dentro de igrejas. Em São Gonçalo, queria fazer um comício, mas concordou com o ato realizado para as cerca de 100 denominações evangélicas, que pediam um evento de respaldo aos fiéis que tem brigado para apoiá-lo dentro das igrejas.

"Ninguém deve usar o nome de Deus em vão, ninguém deve tentar usar o nome de Deus para ganhar voto. Eu já fui cinco vezes candidato. Nunca fui a uma igreja tentar organizar um ato religioso para tentar pegar voto, porque, na hora que cidadão vai na igreja, vai para cuidar da sua fé, da sua espiritualidade. Não está preocupado se candidato é A ou B", defendeu Lula.

O partido credita ao avanço de notícias falsas divulgadas contra Lula --como a de que o ex-presidente iria fechar igrejas evangélicas-- a perda de espaço nesse público --cerca de 30% do eleitorado. Mesmo que tradicionalmente a maioria seja apoiadora de Bolsonaro, Lula já esteve próximo a ele em pesquisas anteriores.

A campanha demorou a encontrar um tom para responder aos ataques de bolsonaristas. Imediatamente depois de surgirem as notícias falsas, petistas começaram a lembrar que foi o ex-presidente que sancionou a lei da liberdade religiosa e criou o dia da Marcha para Jesus.

"Duvido que alguém tenha garantido a liberdade de criar igreja, professar a fé como eu fiz. E isso porque eu aprendi que o Estado não deve ter religião, o Estado não deve ter igreja, o Estado tem que garantir o funcionamento e a liberdade de quantas igrejas as pessoas quiserem criar", discursou Lula nesta sexta.

O petista passou a usar seus discursos para falar do tema e a campanha começou a se organizar para investir entre evangélicos. O candidato a vice, Geraldo Alckmin --católico praticante, mas com um bom diálogo com setores religiosos-- foi escalado para ter conversas com esses grupos, de acordo com uma fonte.

Esta semana, o grupo de pastores que apoia Lula finalizou um panfleto que será distribuído nas igrejas e em outros locais, como no próprio ato desta sexta.

O folheto é assinado por um grupo chamado Restitui Brasil, formado por pastores de diferentes denominações que apoiam a candidatura do petista, e tem como título: "É tempo de esperança, o Brasil tem jeito".

Antecedido por citações bíblicas, o texto apresenta 11 propostas da chapa Lula-Alckmin que dialogam com preocupações que fazem parte do cenário evangélico, como aumento da renda, educação, defesa da família e a liberdade e conciliação.

"Nos últimos anos, a política se tornou um espaço de ódio, mentiras e acusações. Relações entre irmãos, pais e filhos têm sido afetadas por esse ódio e por postura de intolerância famílias têm se separado. Lula e Alckmin formam uma chapa de reconciliação. Para eles, fazer política é um ato de amor e não um instrumento de violência", diz o texto sobre liberdade.

O discurso do ex-presidente nesta sexta, assim como o panfleto que está sendo divulgado entre os evangélicos, mira no que a campanha e os religiosos que apoiam Lula vêem como ser mais eficiente: endereçar problemas como a pobreza, a falta de emprego, a violência que afetam todos os brasileiros, os evangélicos incluídos.

Fontes ouvidas pela Reuters revelam também que a campanha não planeja procurar os chefes das grandes igrejas neopentecostais, de um modo geral mais comprometidos com Bolsonaro, mas continuar trabalhando com os pastores e fazer chegar as informações na ponta, nas igrejas.

No encontro desta sexta, vários vídeos e músicas que serão distribuídos por veículos evangélicos foram apresentados. Um dos jingles falava diretamente a esse público: "Ele deve, sim, em Lula votar, ele deve sim. Não é pecado, não, ele quer crer que dias melhores virão."

(Reportagem de Lisandra Paraguassu. Edição de Flávia Marreiro)