Lula inicia novo governo com gestos por diversidade e despolarização, mas dúvidas na economia; colunistas do GLOBO analisam

Dos discursos às primeiras medidas assinadas neste domingo, a largada para o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Presidência apresentou uma série de acenos em busca de reconciliação e de maior representatividade no governo, mas deixando em aberto questões-chave, principalmente, sobre o modelo de gestão da economia, de acordo com análises de colunistas do GLOBO.

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Lula não contemporizou ao listar críticas ao governo de Jair Bolsonaro, na avaliação do colunista Merval Pereira, e posicionou o enfrentamento à desigualdade como ponto central de seu novo governo, mas ainda sem abordar de forma substancial o caminho para superá-lo. Em uma posse com forte carga simbólica em diversos elementos, o novo presidente não se furtou a ampliar o tamanho de seus desafios, e também buscou demarcar distância para Bolsonaro, de acordo com análise da colunista Miriam Leitão.

A fórmula para equacionar ampliação de gastos, inclusive na área social, com equilíbrio fiscal e desenvolvimento em aberto foi pouco dissecada e permanece com lacunas, conforme análise da colunista Malu Gaspar. Uma delas é a queda de braço por trás da edição da medida provisória que ampliou a desoneração sobre combustíveis, como apontou o colunista Lauro Jardim. Por ora, Lula deu maior ênfase ao chamado pela reconciliação dos brasileiros junto com uma delicada costura de frente ampla, de acordo com análise da colunista Vera Magalhães, frisando que não trabalhará por uma "anistia" à gestão Bolsonaro, conforme pontuou o colunista Bernardo Mello Franco.

Merval Pereira

Bolsonaro deu a Lula um presente

Bolsonaro acabou proporcionando a Lula uma entrega de faixa com grande simbolismo, muito além da simples transmissão de cargo. A representação da diversidade brasileira acrescentou à cerimônia a mensagem de união nacional que Lula quis marcar nos seus discursos.

Apesar da referência permanente à unidade, tendo ressaltado várias vezes que a disputa eleitoral acabou, e que não existem dois países, Lula não contemporizou com Bolsonaro, embora não o tenha citado nenhuma vez pelo nome. Chamou de “genocídio” a morte de quase 700 mil brasileiros durante a pandemia de Covid-19 e prometeu punição severa para o responsável, leia-se Bolsonaro. Diante de tal prognóstico sombrio, e também depois do pronunciamento do ex-vice-presidente Hamilton Mourão, que o acusou, também sem citar, de, com seu silêncio, ter levado o país ao caos e as Forças Armadas a levarem a culpa, Bolsonaro deve ampliar sua permanência na Disney. O povo na praça gritando “sem anistia” completa o quadro sombrio. (Leia mais)

Míriam Leitão

Uma posse diferente de todas as outras

Tudo teve um significado forte. Nada era apenas a formalidade. Os que subiram a rampa representam os que têm estado apartados do Brasil por tempo demais. O Rolls-Royce significava que o presidente Lula não se atemorizou com as ameaças dos extremistas. O passar em revista as tropas que emocionou Lula era símbolo de que as Forças Armadas estavam ali se submetendo ao novo comandante em chefe. E ele só é o comandante temporariamente e por delegação do povo brasileiro. Uma posse diferente de todas as outras, que teve como trilha sonora no momento mais importante o nosso imenso Villa-Lobos. (Leia mais)

Vera Magalhães

Missão difícil, mas não impossível

Foi uma posse memorável, a terceira de Luiz Inácio Lula da Silva no cargo de presidente do Brasil. Dos discursos à subida da rampa e passagem da faixa a cargo de representantes diversos do povo brasileiro, foram muitos os símbolos de resgate da democracia e da cidadania e de afirmação do pluralismo e da representatividade.

Mas a principal mensagem veio no final do segundo discurso de Lula, quando ele convocou a sociedade brasileira a formar uma Frente Ampla contra a Desigualdade. Esta exortação é tão importante quanto difícil de executar, porque, para que vá além da retórica, demandará ações por parte do governo que enfrentem lobbies poderosos, num momento em que a maior parte daqueles que precisam abrir mão de privilégios não está no grupo de apoio ao novo presidente. (Leia mais)

Lauro Jardim

Primeiro revés de Haddad como ministro

Os discursos de posse de Lula, no Congresso e no Parlatório, foram impecáveis. Nada do que interessa foi esquecido. Estava lá o apelo à união nacional. Como em 2003, o presidente falou da sua obsessão em acabar com a fome no Brasil. Deu também o destaque devido à questão ambiental. Enfatizou a chaga que é a desigualdade absurda do país. Lula reservou ainda um espaço generoso para a obrigatória pauta da inclusão e da diversidade — neste sentido, pela primeira vez uma posse presidencial tem a cara do século XXI.

Os dois textos são, portanto, peças bem escritas, abrangentes e acertam ao tentar mandar o recado de que a “disputa eleitoral no Brasil acabou”. (Leia mais)

Malu Gaspar

O que foi dito e o que faltou dizer

A posse de um presidente é o cartão de visitas do governo que se inicia – e nesse quesito, não existe imagem mais emblemática do que Lula subindo a rampa com representantes da diversidade do povo brasileiro.

A imagem é potente, mas representa um ideal. Para os resultados do dia-a-dia, as pistas que interessam estão nos discursos de Lula no Congresso Nacional e no parlatório. E aí é importante observar tanto o que que foi dito quanto o que não foi. (Leia mais)

Bernardo Mello Franco

Reconciliação, mas sem anistia

No dia em que voltou ao poder depois de 12 anos, Lula prometeu um governo de reconciliação nacional, mas deixou claro que não vai patrocinar nenhum tipo de anistia a Jair Bolsonaro e seus aliados.

O recado foi dado no Congresso, onde o petista assinou o termo de posse e fez o primeiro discurso como presidente.

Lula citou os crimes cometidos na gestão da pandemia e culpou o antecessor pelas mortes de quase 700 brasileiros. Sem citar o nome de Bolsonaro, classificou seu governo como “negacionista, obscurantista e insensível à vida”. “As responsabilidades por este genocídio hão de ser apuradas e não devem ficar impunes”, afirmou. (Leia mais)