Lula x Bolsonaro: A corrupção e a loucura como métodos

Ataques entre Lula e Bolsonaro se intensificaram após 7 de setembro - Foto: Yahoo Notícias
Ataques entre Lula e Bolsonaro se intensificaram após 7 de setembro - Foto: Yahoo Notícias

“Medo não. Cansei de ter coragem”. A frase de Riobaldo, em Grande Sertão Veredas, mostra muito mais do que simplesmente uma verdade, mas também uma ironia dos nossos tempos. Riobaldo recusa a servilidade desse sentimento e simplesmente desiste.

Olhando a nossa política hoje, com o sentimento de aversão a quem é diferente de mim, a aniquilação do outro que pensa de forma divergente, confesso que várias vezes o desânimo bate à porta. É como desistir de ter coragem.

Mas do medo nasce o político, já dizia Thomas Hobbes. Depois de um 7 de setembro em que Bolsonaro conseguiu mostrar sua força, as outras candidaturas, principalmente a da esquerda, começam a trabalhar nosso sentimento mais primitivo, o medo. Lula associou a campanha bolsonarista ao grupo supremacista americano Ku Klux Klan. Esse mesmo Lula que já foi alvo de campanhas sobre sobre o medo do comunismo no Brasil, medo da invasão dos Sem-Terra, medo de uma política de apadrinhamento político em que a corrupção volta ao seu auge.

O medo é mais uma das paixões nos sentimentos humanos e é extremamente sensível a argumentos. Por isso é tão utilizado em campanha. Há bons e maus medos, como boas ou más esperanças, e assim para todas as paixões. Mas são sempre elas que conduzem nossas ações. O homem é mais que naturalmente medroso, naturalmente ansioso, pois o medo, proveniente de uma condição em que se entrecruzam a curiosidade e a ignorância, não tem em geral um objeto definido e é perpétuo. Não sabendo o que pode lhe causar algum dano, teme não sabe o quê. E sempre. Por isso é fácil fazer com que eleitores tenham medo de comunismo ou de bolsonaristas “fascistas”. O sentimento primitivo aceita qualquer argumento porque nosso desejo de preservação fala mais alto.

Lula só conseguiu ser eleito presidente depois que lutou de todas as formas contra o medo de que ele transformasse o Brasil em Cuba. Colocou José Alencar, um empresário, como seu vice, escreveu a famosa Carta aos Brasileiros e de sapo barbudo passou para “Lula paz e amor”. Foi preso por corrupção, solto e agora quer voltar ao centro do poder.

Bolsonaro, no entanto, é aquele homem pós-moderno que Christopher Lasch define tão bem em suas obras: ególatra, raivoso, impulsivo onde a única coisa que importa é sua sobrevivência e de seu clã. O homem que deturpa as narrativas e as constrói conforme sua ideia de mundo. E a grande vitória dele é que ele faz com que suas narrativas sejam amplamente defendidas por seus apoiadores. Como muitos deles que defenderam que Bolsonaro não possui um machismo tóxico latente. Ouvi de uma mulher, nessa semana, sobre o episódio da Maria do Rosário ( não te estupro porque você não merece): “não queriam direitos iguais? Tome direitos iguais”. O absurdo institucionalizado como algo normal. O “imbrochável” do 7 de setembro como uma brincadeira (patética, diga-se de passagem). Sobre isso, ouvi colegas homens, obviamente, comentando: “mas de tanta coisa boa que o PR fez no 7 de setembro você vai se apegar justamente a isso? Uma brincadeira!”. Brincadeira para quem todo dia não tem que sofrer com piadas machistas institucionalizadas por um líder que só quer a manutenção do poder.

Lula e Bolsonaro têm muitos aspectos que provocam medo. Um, a corrupção desenfreada e o aparelhamento do Estado. O outro, a loucura como método. Medo? Talvez, não. Mas tal como Riobaldo, cansei de ter coragem.