Lula mantém silêncio sobre suspeitas de corrupção no governo Bolsonaro

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*ARQUIVO* SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP, 10.03.2021 - O ex-presidente Lula. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP, 10.03.2021 - O ex-presidente Lula. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde que a CPI da Covid no Senado avançou sobre suspeitas de corrupção no governo Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principal adversário do presidente na eleição de 2022, não comentou em suas redes sociais sobre o caso Covaxin ou o relato de pedido de propina revelado pelo jornal Folha de S.Paulo. O fato tem sido explorado por adversários do petista.

Nas redes, o silêncio de Lula foi questionado pelo também presidenciável Ciro Gomes (PDT) e por políticos que defendem a chamada terceira via, como o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP). O movimento cresceu na quarta-feira (30), quando a hashtag "Lula sumiu" alcançou o ranking de assuntos mais comentados no Twitter.

Naquele dia foi protocolado o superpedido de impeachment de Bolsonaro, que reúne setores da esquerda e da direita. A falta de manifestação de Lula foi lida por políticos como parte da estratégia do petista de, em vez de apoiar a remoção do presidente, trabalhar para desgastá-lo até 2022 e vencê-lo nas urnas, como indicam as pesquisas atuais.

No fim do dia, Lula tuitou sobre o superpedido de impeachment, mas ainda mantém o silêncio sobre as suspeitas de corrupção.

"Parabenizo as forças de oposição ao Bolsonaro e os movimentos sociais que conseguiram unificar os mais de 120 pedidos de impeachment pra pressionar o [presidente da Câmara, Arthur] Lira. Espero que as manifestações de rua convençam o presidente da Câmara a colocar em votação", publicou o ex-presidente.

Para Ciro, Lula evita tratar do tema de corrupção por também ter tido casos em seu governo, notadamente o mensalão e a corrupção na Petrobras, investigada pela Operação Lava Jato. O próprio presidente, porém, teve condenações da Lava Jato anuladas, e o ex-juiz Sergio Moro foi considerado parcial pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

"Aliás, cadê a opinião do Lula sobre esses escândalos todos? Olha a encalacrada que nós caímos: o principal líder da oposição até o presente momento não deu uma palavra sobre esta absurda corrupção na roubalheira em vacinas", escreveu Ciro.

"Não fala nada porque na hora que ele falar em corrupção a turma manda ver Palocci, Sérgio Machado, Eunício Oliveira... Manda ver Ricardo Barros, que era vice-líder do governo Lula", completou.

"Lula sumiu, parece que decidiu não comentar os escândalos de corrupção contra Bolsonaro. O bolsopetismo se retroalimenta, Lula não existe sem Bolsonaro e vice versa. O ex-presidiário sabe que sem o genocida, o sonho de levar o segundo turno dele morre", avaliou Kataguiri.

Desde quando os irmãos Miranda prestaram depoimento à CPI sobre o caso Covaxin, na última sexta-feira (25), Lula comentou sobre migração, direitos LGBTQIA+, falou contra o voto impresso, relembrou o dia da sua vacinação contra Covid e afirmou que "Bolsonaro não tem estatura pra ser presidente" --mas não tratou das suspeitas nas compras de vacinas.

Petistas minimizam a falta de posicionamento de Lula e veem uma tentativa de desgaste do petista por parte de Ciro, que foi duramente criticado pela presidente do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR) nesta sexta-feira (2).

"Ciro Gomes está competindo com Bolsonaro na mentira e na baixaria. Os métodos são iguais porque os dois tremem de medo de enfrentar Lula nas urnas. No caso do Ciro é ainda pior. Mente e ofende para ter palanque na mídia e ficar mais 'confiável'. Passou de coronel para jagunço da direita", afirmou Gleisi.

Na defesa de Lula, petistas lembraram a ausência de Ciro no segundo turno de 2018, quando o pedetista viajou para Paris.

Aliados do ex-presidente também resgataram os comentários de Lula sobre Fabrício Queiroz, suspeito de ser operador da rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

"O que o Brasil precisa é gerar empregos, tirar o povo da pobreza. Bolsonaro nunca combinou com democracia. É um falso patriota que entrega nossa soberania aos EUA e condena o povo à pobreza. Um falso moralista que acoberta o Queiroz e outros corruptos e criminosos", disse Lula em fevereiro de 2020.

Procurada pela reportagem, a assessoria do ex-presidente afirmou que ele "acompanha a apuração que está em andamento sobre os casos pela CPI da Covid e pela imprensa".

Nos bastidores, parlamentares do PT avaliam que Lula está à espera de que as investigações sobre as negociações de vacina com a Precisa e com a Davati avancem. Afirmam ainda que o ex-presidente não é comentarista de notícia e não tem poupado críticas ao governo Bolsonaro, sobretudo em relação à economia e combate à pandemia.

Interlocutores do ex-presidente dizem que Lula tem sido cauteloso em seus posicionamentos e que deve, no futuro, comentar os casos denunciados pelos irmãos Miranda e pelo policial militar Luiz Paulo Dominguetti Pereira.

Um exemplo do cálculo político de Lula ante qualquer manifestação é o caso dos protestos de rua pelo impeachment, que o petista levou tempo para apoiar publicamente e ponderou sobre os efeitos de sua presença, optando ao final por não comparecer.

Gleisi rechaça a tese de que Lula, na verdade, não deseje o impeachment de Bolsonaro. "Lula é a grande voz de oposição. O PT está à frente, puxando o processo de impeachment. Lula já se manifestou em redes sociais sobre isso", disse a presidente do partido.

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