Lula não é demônio, diz pastor chamado de 'vergonha' por defender petista

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O pastor Sergio Dusilek só escolheu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na largada uma vez, em 2006. Nos quatro outros pleitos com o petista no páreo, optou no primeiro turno por dois tucanos (Mario Covas e FHC) e Marina Silva.

Mas é sob violentos ataques virtuais e o rótulo de petista roxo, coisa que diz nunca ter sido, que ele deixa a presidência da Convenção Batista Carioca. A entidade tem 528 igrejas no Rio sob sua guarda e está submetida à poderosa CBB (Convenção Batista Brasileira), da qual seu pai já foi presidente.

Dusilek renunciou ao cargo após entrar no olho do furacão eleitoral por ter discursado no primeiro evento evangélico da campanha de Lula, na semana passada, em São Gonçalo (RJ).

Quando pegou o microfone, depois de ter sido apresentado como chefe da seção batista, distribuiu sopapos em Jair Bolsonaro (PL), "esse presidente nefasto", e afagos no ex-governante. "A igreja evangélica tem que pedir perdão ao presidente Lula."

O pastor Pedrão, que ganhou projeção por celebrar o casamento do deputado Eduardo Bolsonaro (PL), foi um dos que arremessaram tomates no irmão batista. "Deus é quem vai perdoar Lula", rebateu em vídeo, emendando uma fala que virou bordão contra Dusilek: "Ele não me representa".

O batista na berlinda acha que evangélicos erram com o massacre público que promovem contra o petista porque "não cabe à igreja de Jesus demonizar ninguém". "Me parece que muitos crentes estão colocando Lula como se fosse um demônio. Não acho certo. Ele é uma pessoa, com seus erros e acertos."

O pastor não retira o que disse e conta que, no dia, até dobrou a aposta. "Quando Lula veio me abraçar, falei do fundo do coração, no ouvido dele: perdão."

Para Dusilek, o fato de "muitas pessoas religiosas reagirem raivosamente, com bastante violência" à sua fala, prova que ele pisou em algum calo. Ou não teria recebido tanto ódio "de pessoas que se dizem cristãs", diz à Folha de S.Paulo em seu apartamento na zona oeste carioca, onde vive com esposa, filha e o gato Obi-Wan Kenobi.

Parece uma galáxia muito distante aquela em que convivia em harmonia com irmãos de fé que divergem politicamente.

Em mensagem privada, um seguidor o chamou de "ridículo", "vergonha para a denominação batista" e "o que a Bíblia diz quando se fala em falsos profetas". Outro questionou por quanto ele se vendeu, como se tivesse sido pago para se aliar à campanha de Lula.

Teve ainda quem dissesse que ele não lê a Bíblia, já que defende "aquele bêbado, ladrão, mentiroso", um homem "que se deleita vendo teatros onde homens enfiam a cara no ânus de outros homens, misericórdia".

"Se tem alguém que segue Jesus e odeia o irmão por espectro político, isso só me faz concluir que a igreja evangélica cresceu no país, mas o Evangelho de Jesus não tem a mesma quantidade de convertidos", afirma.

Dusilek conta que é amigo de Josué Valandro Júnior, líder da Batista Atitude, a igreja da primeira-dama Michelle Bolsonaro. "Tudo bem que a gente quase se digladia às vezes", brinca. Valandro é um bolsonarista convicto.

A pressão para que Dusilek renunciasse deflagrou uma guerra dentro da Igreja Batista, que chegou ao Brasil no século 19, trazida por escravagistas do sul dos EUA. A Convenção Batista Brasileira, que abriga cerca de 14 mil templos, tem inclinação conservadora. Mas há muitos batistas, inclusive de alas independentes, de tendência progressista.

O agora ex-presidente da ala carioca diz que em nenhum momento falou em nome dos batistas. Expressou-se como indivíduo. Ele mostra fotos de um evento em que dividiu mesa com o deputado Hélio Lopes (PL), um dos cães de guarda de Bolsonaro no Congresso, como prova de que não tem problema em dialogar com todos.

Naquela ocasião, diz, ele foi apresentado como presidente da convenção carioca, mas diz que não se colocou como representante de todos os batistas.

Há ainda uma incoerência, segundo o pastor, na nota divulgada pela entidade nacional, que disse não consentir com manifestações em prol de candidatos. Um exemplo vem da campanha de 2018, quando o diretor-executivo da CBB, Sócrates Oliveira, repostou um tuíte do evangélico Arolde de Oliveira, que seria eleito senador naquele ano, defendendo a candidatura de Bolsonaro. Arolde morreu em 2020, de Covid-19.

Dusilek conta que se encontrou com a diretoria batista e se sentiu como um leproso, o que reavivou a memória da avó materna, que décadas atrás frequentou um leprosário, por ter hanseníase. "Disse pra eles que leproso não sou. Sou sarado, lavado e curado por Jesus."