Lula não vai conseguir chegar e dar tapa na mesa, diz Jerônimo, governador eleito da Bahia

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 09.11.2022 - O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversa com jornalistas após reunião com Alexandre de Moraes, presidente do TSE, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 09.11.2022 - O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversa com jornalistas após reunião com Alexandre de Moraes, presidente do TSE, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - A eleição para o Governo da Bahia foi um desafio de resistência para Jerônimo Rodrigues (PT), que saiu vitorioso das urnas no dia 30 de outubro. Ele foi de candidato desconhecido, ungido após uma crise interna no PT baiano, a vitorioso nas urnas e será o novo governador.

Na campanha, exaltou o caráter coletivo de sua candidatura e vai comandar o estado naquele que será o quinto governo consecutivo do PT na Bahia, sucedendo dois mandatos de Jaques Wagner (PT) e dois de Rui Costa (PT).

Enfrentou uma disputa acirrada no segundo turno, mas saiu das urnas com 52,79% contra 47,21% do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil). Ele também será o primeiro governador autodeclarado indígena do país.

Em entrevista, Jerônimo fala sobre manifestações antidemocráticas que contestam o resultado das urnas, das relações entre o o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Congresso Nacional, faz um balanço do resultado das urnas na Bahia e aponta quais serão suas prioridades.

PERGUNTA - Como avalia os atos com pauta golpista que se espalharam pelo país, incluindo a Bahia? Como lidar com esses manifestantes?

JERÔNIMO RODRIGUES - Precisamos alertar a sociedade brasileira que as eleições acabaram. É hora de pacificar e unificar o Brasil. O que está acontecendo não foi só no pós-eleição. Já vinha acontecendo pela postura de um presidente que criou um ambiente de crise, de que nós temos dois Brasis, de que a bandeira é de um e não de outro. O presidente tem que ter a responsabilidade de trabalhar para unificar o país. Eu estou muito seguro de que o que eles estão pregando não vai acontecer no Brasil, mas essas manifestações são de uma irresponsabilidade, uma brutalidade e uma ignorância muito grande.

Acha que o silêncio de Bolsonaro dá combustível ao avanço das pautas golpistas?

J. R. - É gesto de irresponsabilidade. Um líder nacional, como ele foi eleito em 2018, tinha que liderar uma unidade nacional e se preocupar com temas importantes. O silêncio dele incomoda porque o comportamento dele nunca será o de um líder nacional, como nunca foi. A gente precisa dar um basta nisso em 31 de dezembro e que o Lula possa trazer governadores, prefeitos e construir uma unidade nacional. É essa a missão dele.

Depois das eleições, houve uma onda de ataques a eleitores do Nordeste. Um empresário de Minas falou até em dividir o país. Como vê o avanço deste tipo de discurso?

J. R. - Primeiro, é preciso dizer que o voto dos nordestinos, o voto dos baianos não é um voto de cabresto. Eu entendo que é um voto de gratidão. O Nordeste é outro, a Bahia é outra quando se compara antes e depois do Lula. Então, esse é um voto consciente, de esperança e de expectativa. Por isso, esse tipo de tratamento não cabe e não ajuda a gente a construir uma pátria soberana.

Lula abriu diálogo com o Congresso Nacional e sinalizou a possível manutenção das emendas do relator. Como fazer um planejamento tendo que atender a esse varejo das emendas sem transparência?

J. R. - Estive com Lula e ele deixou muito claro que tem quatro anos e não pode gastar energia em temas que não sejam estruturantes. Ele sabe da dificuldade que é, de uma hora para outra, resolver o funcionamento de algo com o Congresso. Ele não vai conseguir, na força, resolver problemas como o orçamento secreto. Não é que Lula não tenha força, as circunstâncias que não possibilitam radicalidade. O ideal seria radicalizar, a gente poder enfrentar o tema e tomar as decisões mais duras possíveis. Mas não tem como discutir orçamento sem pactuar com o Congresso. Mas é necessário que ele traga de volta o papel do planejamento nacional, pensando a médio e longo prazo.

O senhor acha que o presidente traz para base partidos que estavam com o Bolsonaro, como o PP? Na Bahia, o senhor também pretende retomar essas pontes com esses partidos?

J. R. - Eu farei isso aqui na Bahia, vou conversar com as bancadas. É claro que vamos ter dificuldade com alguns partidos. No caso do PP, com essa direção que está, não tem diálogo. Mas nós faremos o diálogo com alguns parlamentares em torno de projetos de interesse do governo do estado. E o Lula me disse pessoalmente que vai fazer esse arranjo político no Congresso para que possa ter uma quantidade mínima para os projetos, para o debate nacional. Espero que a gente possa ter apoio em torno de temas que o Brasil precisa pactuar.

É possível governar sem o centrão? Como fugir da armadilha da negociação fisiológica?

J. R. - Nos governos Lula e Dilma, nós começamos a construir uma cultura, uma nova forma de fazer política sem um papel submisso ou chantagista do Legislativo. Mas o centrão não vai mudar o seu comportamento de um ano para o outro. O comportamento do centrão é conceitual, é aquele ali. Nós é que temos que evoluir, mas isso não acontece em quatro anos. Lula não vai conseguir chegar e dar tapa na mesa porque não é assim.

A Bahia foi uma eleição apertada no 2º turno. Como o senhor interpreta esse resultado nas urnas?

J. R. - Por um triz não ganhamos no 1º turno. Mas o 2° turno foi importante para a gente dar o gás que o Lula precisava. Também foi um momento de apurar porque muitos prefeitos, lideranças, ex-prefeitos, deputados que estavam com meu opositor vieram para a gente. A avaliação que a gente faz é que a redução da diferença se deu em torno dos votos do ex-ministro João Roma [do PL], que disse que o inimigo dele na Bahia é o PT. E também houve um conjunto de pressão e de assédio eleitoral em torno do presidente atual, naturalmente estava colado com ex-prefeito [ACM Neto]. Foi uma vantagem para eles.

Um percentual grande de baianos apostou na mudança. O senhor falou em uma entrevista recente que é preciso mudar para não criar limo, que é preciso oxigenar. Quais mudanças estão em seu horizonte?

J. R. - Eu vou respeitar a relação com os partidos, não haverá nenhum cavalo de pau. Mas realmente isso que eu tenho dito é real. Nós temos quatro mandatos, estamos há 16 anos. Não estou aqui dizendo que há um cansaço. Mas é preciso ter pessoas novas, com ideias novas para o projeto não cair no cansaço. Vai ser importante a gente trazer sangue novo.

Qual a principal marca que o senhor espera deixar no governo da Bahia?

J. R. - Eu tenho o desejo de, ao final do meu governo, junto com Lula e com o povo da Bahia, erradicar a fome. Eu sei que em quatro anos nós teremos dificuldades para sonhar um projeto desse. Mas dá para reduzir a quantidade de pessoas [com fome], como nós fizemos quando saímos do mapa da fome [em 2014]. E quando eu falo fome, eu falo da falta de comida em quantidade e da segurança alimentar e nutricional porque as pessoas às vezes enchem a barriga, mas não se alimentam. Essa é uma marca que eu desejo muito. A geração de empregos também é uma prioridade, assim como reconhecer a qualidade da aprendizagem da educação baiana.

Lula falou que vai sentar com os governadores e pedir para cada um deles apontar três obras prioritárias. Quais obras pretende indicar?

J. R. - Dentre os projetos estruturantes, nós temos a Ferrovia Oeste-Leste e o Porto Sul, o estaleiro de Maragogipe e também pedimos ajuda no tema da ponte Salvador-Itaparica, veremos qual o melhor desenho. Mas tem outras coisas que são prioridade, como a duplicação de rodovias, o Canal do Sertão e programas de habitação.

Jaques Wagner tinha um estilo mais político de governo, delegava mais. Já Rui Costa é mais centralizador e acompanha os projetos no detalhe. Qual será o estilo do governador Jerônimo?

J. R. - Meu estilo vai ter aspectos dos dois. Eu quero acompanhar os projetos, mas não dá para acompanhar tudo, tenho que delegar. Eu vou dialogar com o Legislativo, com os prefeitos, os empresários, os conselhos. Mas também farei o papel de gestor de acompanhar o orçamento, as contas públicas e as obras.

Espera ver Jaques Wagner e Rui Costa na Esplanada dos Ministérios?

J. R. - Eu acho que a Bahia mostrou agora a força que tem. Tanto Rui quanto Wagner pode contribuir com o Brasil. O próprio [senador reeleito] Otto Alencar [do PSD] é um nome que pode compor. É claro que Lula que vai decidir, ninguém pode tensionar por uma escolha. Mas é preciso destacar a competência, compromisso e a capacidade que o Nordeste e nós da Bahia temos. Temos nomes bons para dar nossa contribuição no cenário nacional.

RAIO-X

Jerônimo Rodrigues, 57

Natural de Aiquara (BA), é agrônomo e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana. Foi secretário estadual de Desenvolvimento Agrário e de Educação na gestão Rui Costa (PT). É governador eleito da Bahia.