Lula ou Bolsonaro: a derrota da reeleição ou a primeira virada? Disputa presidencial terá resultado inédito

RIO DE JANEIRO - O Brasil que vai às urnas hoje viverá um momento inédito na História da Nova República: ou pela primeira vez um presidente não conseguirá se reeleger para mais quatro anos de mandato ou haverá uma nunca antes vista virada do primeiro para o segundo turno nas eleições para o Planalto desde a disputa de 1989.

Há quatro semanas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 57,2 milhões de votos (48,4%) contra 51 milhões (43,2%) de Jair Bolsonaro (PL). Agora, segundo as pesquisas divulgadas na noite de ontem, a curta diferença da primeira etapa da disputa se mantém semelhante — os últimos levantamentos de Ipec e Datafolha apontam, respectivamente, distâncias de oito e quatro pontos, entre o petista e o candidato do PL.

São muitos os aspectos que tornam a disputa de hoje especial. Nunca um presidente em exercício havia enfrentado um ex-presidente da República no voto. É também a primeira vez que as pesquisas mostraram uma situação tão cristalizada na opinião pública, com o primeiro e o segundo colocados da disputa tendo, juntos, desde o início do ano, mais de 70% das intenções de votos espontâneas dos eleitores.

Os dois maiores líderes populares do país em mais de quatro décadas de eleições diretas mobilizaram a sociedade civil como nunca antes. Para o bem, a polarização transcendeu a política e estimulou a declaração pública de votos de empresários, artistas, atletas, influenciadores digitais e lideranças católicas e evangélicas. Para o mal, a polarização transcendeu a civilidade e houve o registro de diversos episódios de violência nas ruas entre apoiadores de Lula e Bolsonaro, alguns até mesmo terminando em homicídios.

Tamanha rivalidade se refletiu nas redes sociais, campo de batalha em que a esquerda conseguiu ser mais competitiva do que em 2018, quando a direita surfou sozinha em WhatsApp, Facebook e outras plataformas. Em uma guerra digital sem precedentes, os dois lados raramente falaram de propostas para o país e focaram em aumentar a rejeição do adversário seja com ofensas pessoais ou mentiras.

A circulação em massa de desinformação não se restringiu a perfis anônimos e sites apócrifos. A eleição de 2022 foi marcada por ter políticos com mandato e os próprios postulantes ao Planalto ignorando a verdade dos fatos em diversos momentos. No último debate da TV Globo, por exemplo, enquanto Lula usou a fake news de que Bolsonaro vai acabar com o 13º salário e as férias em um eventual novo governo, o presidente devolveu com a informação falsa de que o petista havia se encontrado com chefes de facção criminosa durante uma visita ao Complexo do Alemão, no Rio.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi chamado a arbitrar a guerra entre as campanhas. A Corte, presidida pelo ministro Alexandre de Moraes, precisou atuar em mais de mil processos, concedendo direitos de resposta em programas de TV e nos perfis dos candidatos na internet. Foi também pelas mãos do Judiciário que uma das grandes novidades da eleição foi oficializada — o passe livre chegou a mais de 300 cidades para conter a abstenção.

Pelo Brasil, as disputas para governador que foram para o segundo turno também terão suspense na hora da divulgação dos resultados. Dos 12 estados onde haverá votação, em oito há empate técnico entre os candidatos, como Alagoas e Bahia, segundo os levantamentos do Ipec, único instituto a ter feito sondagens em todos eles. Apenas em Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Amazonas há um líder claro nas pesquisas. Em São Paulo, os resultados de ontem apontam uma margem apertada em favor do ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas (Republicanos), contra o ex-prefeito Fernando Haddad (PT).