Lula paga para ver até onde vai ansiedade do mercado. Mas a conta pode ficar salgada

President-elect of Brazil, Luiz Inacio Lula da Silva, attends a meeting at COP 27 in Sharm el-Sheik, Egypt November 17, 2022. REUTERS/Mohamed Abd El Ghany
O ex-presidente Lula durante discurso na COP 27. Foto: Mohamed Abd El Ghany/Reuters

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou a bucha para o vice e foi viajar.

Enquanto falava no Egito sobre a Amazônia na COP 27, a conferência do clima da ONU, Geraldo Alckmin (PSB) apresentava a minuta da chamada PEC da Transição, em que o futuro governo propõe retirar os custos do Auxilio Brasil, prestes a ser rebatizado como Bolsa Família, do teto de gastos.

O que parecia uma saída temporária, que valeria apenas para 2023, virou um furo permanente no esboço apresentado. Ou se trata de bode na sala ou a coisa está mesmo mais complicada do que previam os analistas.

Uma solução a meio termo seria criar uma porta de saída e manter os investimentos sociais fora do teto pelos próximos quatro anos –a bomba, então, ficaria não para o futuro presidente, mas para o sucessor, ou sucessora, do futuro presidente.

A apresentação da PEC, juntamente com a reestreia de Lula em um fórum internacional, oficializa o início do novo governo a um mês e meio da posse. Nada que cause muito espanto a um país que normalizou excentricidades e vê o presidente em exercício, Jair Bolsonaro (PL), recluso na solidão em que se enfiou desde o fim da campanha.

(Nota mental: então eram apenas eleitoreiros os atos pagos com dinheiro público a patrocinar motociatas e encontros do tipo para saciar a suposta vontade de Bolsonaro de estar sempre perto do povo? Eram).

Alckmin, na apresentação, fez questão de dizer que a prioridade é o “cuidado com o social” e que o projeto visa a “combater a fome, erradicar a pobreza e atender às crianças”.

Marcelo Castro, relator da PEC no Senado, classificou a proposta como uma “medida de salvação nacional”.

O risco, afinal, é que haja um “apagão social” nos primeiros meses da próxima gestão.

A proposta ao Orçamento de 2023 encaminhada por Bolsonaro prevê um valor médio de R$ 405,21 para os beneficiários do atual Auxílio Brasil, além de cortes em programas como o Farmácia Popular e projetos de habitação.

Lula precisa encontrar R$ 175 bilhões para manter o pagamento de R$ 600 do programa social e também a parcela extra de R$ 150 para crianças de seis anos.

A reação do mercado, que começa a multiplicar por cada ano da gestão os investimentos acima do teto, não foi das mais amenas. Ao fim do dia, a Bolsa caiu e o dólar disparou – a tendência foi mantida na manhã seguinte.

Alckmin, que terá a função de acomodar o algodão nos cristais do Palácio, disse que pretende explicar ponto a ponto do projeto até “o pessoal (leia-se "mercado") ficar mais tranquilo”.

Por enquanto não ficou, e as primeiras declarações de Lula mostram que ele (e muita gente) ainda quer pagar para ver. O risco é a conta ficar salgada.

O presidente eleito afirmou que está tudo bem, paciência, se a Bolsa cair e o dólar subir a cada nova fala explicando a importância de se priorizar os gastos sociais. Disse isso atribuindo a especuladores, e não a investidores sérios, o frenesi nos mercados.

A tensão, de toda forma, parece materializada até mesmo no sorriso gélido de Geraldo Alckmin.

A aposta, até aqui, é que os investidores mais açodados ainda não entenderam o projeto. Se entenderem e seguirem não gostando, o risco é transformar em água o esforço fiscal para pagar o auxílio no muque enquanto o poder de compra das famílias mais pobres é corroído pela inflação puxada pelo dólar nas alturas e a fuga de investimentos.

A ver.