Lula permanece na prisão, mas volta ao foco no Brasil

Por Louis GENOT
Seguidores do ex-presidente Lula exigem sua libertação, em São Bernardo do Campo, em 8 de julho de 2018

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva permanece preso, mas a confusão judicial que aconteceu no domingo em torno de sua possível libertação voltou a colocar o líder da esquerda no centro do debate eleitoral no Brasil.

O 'timing' era perfeito: dois dias depois da eliminação da seleção na Copa do Mundo, os brasileiros já não estavam mente tomada pelo futebol e a política podia retomar os seu espaço.

E a defesa de Lula escolheu exatamente o fim de semana em que um juiz supostamente favorável aos seus interesses estava de plantão para apresentar mais um pedido de habeas corpus por meio de três deputados do PT.

O ex-presidente, que cumpre há três meses uma pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção, lidera as intenções de voto para as presidenciais de outubro, apesar de sua candidatura ter grandes chances de ser invalidada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No domingo de manhã, sem que ninguém esperasse, a notícia explodiu como uma bomba: o juiz Rogério Favreto, Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) de Porto Alegre, ordenou libertar Lula.

A imprensa não deixou passar o fato de o juiz ter sido membro do PT durante cerca de 20 anos, e que trabalhou em várias ocasiões como conselheiro do governo Lula.

Em um roteiro digno de novela, começou uma troca de ordens entre Favreto e os juízes e procuradores que se opõem à libertação de Lula.

Para acabar com a confusão, o presidente do TRF-4, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, acabou decidindo no domingo à noite que Lula continuaria atrás das grades.

Para os partidários do ex-presidente, o entusiasmou passou rapidamente à raiva.

"Que vergonha para o judiciário brasileiro! Vale tudo pra pra prejudicar Lula e, por consequência, a democracia e o povo brasileiro!", disse a presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

- 'Decisão política' -

Para muitos juristas, a verdadeira vítima de todo este enredo é o próprio judiciário brasileiro, cuja credibilidade ficou fortemente questionada.

"A desmoralização da Justiça brasileira não deveria ser um custo que todos pagam em função de uma atitude estratégica do PT", disse à AFP Ivar Hartmann, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro.

A realidade é que Lula, sem sair da prisão, voltou a ter o foco no Brasil.

Segundo o grupo de análise Eurasia Group, o barulho ao redor da situação jurídica de Lula, de 72 anos, "reforça a capacidade do PT de propagar a narrativa da 'perseguição política' e aumenta as chances de o partido chegar ao segundo turno" das eleições.

A confusão em torno da possível libertação do ex-presidente "tem impacto sobre a campanha e deixa mais incerto um cenário eleitoral sujeito a intervenções inesperadas da justiça", assinalou o jornal Valor Econômico.

Muitos outros candidatos não esperaram para se manifestar.

O deputador de extrema direita Jair Bolsonaro, que lidera as intenções de voto se Lula não puder concorrer, afirmou em um vídeo publicado nas redes sociais que a decisão de Favreto foi, antes de tudo, política.

"Pior que a corrupção no Brasil é a questão ideológica", declarou.

"Manter Lula ou qualquer outro cidadão brasileiro preso não pode ser uma decisão política, mas sim da Justiça", comentou o pré-candidato à presidência Geraldo Alckmin no Twitter.

A ex-ministra ecologista Marina Silva, que aparece em segundo lugar nas pesquisas sem Lula, lamentou em comunicado que o juiz Favreto tenha provocado "turbulências políticas que coloquem em dúvida a própria autoridade das decisões judiciais colegiadas".

Para Ivar Hartmann, o fato de insistir na perseguição de Lula não é necessariamente a melhor estratégia a menos de três meses das eleições.

"Pregaram principalmente para os convencidos. Não acho que os indecisos tenham sido convencidos por essa estratégia", concluiu.