Lula quer reindustrialização, mas o momento e o plano são propícios? Especialistas respondem

Em seu discurso de posse na quarta-feira como ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o vice-presidente Geraldo Alckmin frisou a necessidade de reverter a "desindustrialização precoce" brasileira e expandir a participação do setor no Produto Interno Bruto (PIB). O desafio, porém, não é simples: a indústria opera em patamar semelhante ao de janeiro de 2009 e está quase 20% abaixo do ponto mais alto da série, alcançado em 2011.

Todas as quatro categorias industriais — bens de capital, intermediários, duráveis, semi e não duráveis — registraram queda de janeiro a novembro de 2022, conforme divulgou o IBGE ontem.

Retomar o protagonismo da indústria brasileira em meio ao cenário de desaceleração global, mudanças climáticas e conflitos geopolíticos — como a guerra na Ucrânia e a escalada da tensão entre Estados Unidos e China — exige políticas bem desenhadas. A avaliação de especialistas, contudo, é que este momento desafiador abre oportunidades para o Brasil.

Mas é preciso articulação com o setor privado, melhora do ambiente macroeconômico e avanço na reforma tributária, afirmam.

A desindustrialização citada por Alckmin não é trivial. Estudo do Ibre/FGV, assinado pelos economistas Claudio Considera e Juliana Trece, aponta que a indústria de transformação vem reduzindo sua participação no PIB ao longo dos anos de forma prematura.

Isto é, enquanto em países desenvolvidos a indústria perde espaço para o setor de serviços paulatinamente, no Brasil essa reversão foi antecipada: a produtividade da indústria de transformação começou a cair antes de alcançar seu potencial máximo.

— Em compensação, aumentou-se a importação desses produtos, ficamos mais dependentes e com uma economia frágil. A indústria de transformação está encolhendo em todos os sentidos — avalia Juliana.

Os números dão o tom da deterioração: o Brasil ocupa a 98ª posição em um ranking de desempenho da indústria de transformação com 113 países, elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) a partir de informações da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido).

Para Uallace Moreira, economista e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o discurso de Alckmin foi positivo, visto que demonstrou atenção à conjuntura internacional ao elencar o Brasil como potência em energia renováveis, além de vincular a política industrial à política de inovação e projetar competitividade no mercado internacional:

— O Brasil não representa ameaça nem à China nem aos Estados Unidos, e pode ocupar elos da cadeia de produção de semicondutores para atender à demanda tanto no mercado interno quanto no regional, já que o país é o principal player na América Latina. Outro setor com oportunidades é o de fertilizantes. Temos fábricas paradas, e tanto o agronegócio quanto a indústria manufatureira precisam desse setor. Tem ainda o complexo industrial da saúde e a indústria automotiva, com a produção de baterias elétricas e biodiesel, em que o Brasil pode fazer parcerias com outros países.

Moreira lembra que, no momento em que o mundo busca uma nova governança, o Brasil pode se beneficiar ainda da tendência de nearshoring ou friendshoring, na medida em que países têm buscado encurtar suas cadeias produtivas ao estreitar relações comerciais com países aliados ou próximos geograficamente.

Na avaliação de Rafael Cagnin, economista do Iedi, é preciso que planos estratégicos de reindustrialização contemplem três grandes eixos: modernização, sustentabilidade e competitividade. Isso porque empresas de diferentes setores ainda empregam tecnologias atrasadas, e é preciso modernizar a estrutura produtiva.

Além disso, segundo Cagnin, deve ser pensado um padrão de crescimento que respeite o meio ambiente, considerando a circularidade da cadeia produtiva. No âmbito da competitividade, a redução do “custo Brasil”, via reforma tributária, deve ser uma das prioridades para destravar investimentos:

— É preciso desenhar (a reindustrialização) de forma estratégica e deve-se aproveitar as oportunidades. E isso envolve questões tecnológicas, climáticas e geopolíticas, como a da desorganização das cadeias que estamos vendo.

O desafio de reindustrialização, contudo, é complexo e exige objetivos de curto e longo prazos, na avaliação de Juliana Trece. No curto prazo, é preciso haver melhora no ambiente macroeconômico, com responsabilidade fiscal, para atrair investidores. No médio e longo prazos, é preciso investir em educação para aprimorar a formação de mão de obra qualificada:

— É uma questão econômica estrutural: a nossa produtividade não atrai e dificulta investimentos. E a questão fiscal acaba sendo importante, porque o gasto público está bem comprometido. Por isso, toda sinalização de equilíbrio fiscal é importante. Além disso, é preciso evitar crises políticas. Temos que ter um ambiente de negócios com menos incerteza. Como política de longo prazo, é preciso investir em educação. A indústria de transformação é intensiva em tecnologia.

Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e membro sênior do Policy Center For The New South, avalia que a desindustrialização brasileira, em alguma medida, é reflexo da ausência de um arcabouço favorável e ambiente adequado para negócios:

— Nosso processo de industrialização não foi competente na criação de adaptações locais, de tecnologias, de inovação. E isso ocorre por causa das barreiras comerciais que existem por conta de privilégios tributários, entre outros fatores.

Na perspectiva de reindustrialização, ele alerta para que não sejam repetidos episódios em que subsídios via BNDES foram mal alocados:

— A gente pode ter o desejo de assistir ao retorno da indústria, mas não é algo que se possa fazer simplesmente dando subsídio do BNDES.

Em sua opinião, incentivos a setores ligados a energia verde, infraestrutura e que pertençam a cadeias de recursos naturais são boas apostas. Mas é preciso que a concessão de subsídio ou de proteção comercial preveja o desenvolvimento de capacidades tecnológicas que tornem o subsídio desnecessário no horizonte:

— A escolha tem que ser muito boa, realista, factível e tem que se fazer as coisas de modo que o beneficiário se veja constrangido a investir na formação de capacidades locais que tornem o subsídio supérfluo em algum momento no tempo. Enquanto aquele setor estiver operando com base no subsídio ou na proteção comercial, tem oneração à sociedade.