Lula, réu da Justiça

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se tornou réu da Justiça, nesta sexta-feira, 29/07. Junto com o senador cassado Delcídio do Amaral (PT-MS) e outras cinco pessoas, entre eles o banqueiro André Esteves, ele é suspeito de participar de uma trama para evitar a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

Lula é acusado de impedir ou embaraçar a investigação. Ele nega as acusações.

Ao aceitar a denúncia, o juiz federal Ricardo Augusto Soares Leite, de Brasília, disse ter ciência do interesse midiático da decisão “em razão da projeção nacional que, com certeza, será abordada pela imprensa”.

“Diante disto, a fim de prestigiar o direito à correta informação, determino que a Secretaria envie cópia desta decisão para o email que conste nos autos do Ministério Público Federal (MPF) e dos advogados dos denunciados para que, se assim lhes convier, possam explicar tecnicamente a decisão exarada, sem qualquer prejuízo aos meios legais de intimação e de citação”

A decisão que colocou Lula no banco dos réus fecha uma semana de revés para o ex-presidente a um mês da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Na véspera, a divulgação de um laudo da Polícia Federal apontou que o petista e a ex-primeira dama Marisa Letícia orientaram reformas no sítio em Atibaia.

No laudo, já encaminhado ao juiz federal Sergio Moro, peritos afirma que as obras foram realizadas pela OAS. A suspeita é que empreiteira, investigada na Lava Jato, tenha providenciado a reforma de uma cozinha da propriedade no valor de R$ 252 mil.

O imóvel é frequentado pela família do ex-presidente. Ele nega ser o proprietário do local.

A PF tem em mãos mensagens apreendidas no celular do arquiteto escalado pela OAS para a missão. Ele conversa com o dono da construtora, Léo Pinheiro, e com a mulher sobre os trabalhos. Citava encontros na “fazenda do Lula” e relatava encontros com o ex-presidente, com quem aparece em uma foto.

No mesmo dia em que a notícia foi divulgada, os advogados do petista, possivelmente preocupados com um eventual pedido de prisão, protocolaram uma petição ao Comitê de Direitos Humanos da ONU para denunciar uma suposta “falta de imparcialidade” e “abuso de poder” dos procuradores da Operação Lava Jato e de Sérgio Moro, que vai analisar o caso.

As reformas tiveram início em 2010, quando Lula ainda era presidente e vivia o ápice da popularidade. Em seu último mês como presidente, pesquisa Ibope mostrava que ele tinha a aprovação de 87% da população.

Ao fim do mandato, o prestígio do ex-presidente era tanto que ele chegou a ser cotado para assumir no mínimo um alto posto na ONU – possivelmente a FAO.

Sabia, ou deveria saber, que não precisava nem poderia aceitar favores de empreiteiras com interesse em obras públicas.

Por simbólico que seja o episódio – a PF apura ainda a ligação do petista no esquema de compras de medidas provisórias investigadas na Operação Zelotes – é preciso considerar as noções de justiça e grandeza da Lava Jato.

Na mesma edição em que uma reforma na cozinha de um sítio em Atibaia ganhava capa, foto e destaque, foi noticiado que um filho de Sergio Machado, principal delator da Lava Jato e suposto pivô do esquema de propinas para agentes PMDB na Petrobras, gastou 21 milhões (milhões) de libras (de libras) em quatro imóveis no Reino Unido. Apura-se se os seus rendimentos como empresário eram compatíveis com as aquisições.

Tanto num episódio como no outro, o ocaso do ex-presidente tem no noticiário um desfecho melancólico. Pois uma coisa é a apuração sobre o que ele teria ganho em um possível esquema de troca de favores com empreiteiras investigadas. Outra é o que seu governo permitiu que outros ganhassem. Para além das paixões clubísticas e do discurso sobre perseguições, as duas perguntas carecem de explicações e seguem em aberto.


Foto: Paulo Pinto/ Agência PT

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