Lula recebe Fernández em clima de euforia argentina

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, desembarcou ao meio dia desta segunda-feira em São Paulo e foi recebido pelo presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, no Hotel Intercontinental, realizando um desejo que expressou à campanha do petista em contatos prévios ao segundo turno. Para a Argentina, mergulhada numa grave crise econômica, social e com permanentes turbulências políticas, a eleição de Lula, considerado um aliado chave e estratégico, foi a melhor notícia em muito tempo. O presidente eleito é visto por muitos quase como uma espécie de salvador da Argentina, e do governo peronista, que corre o risco de perder as eleições presidenciais de 2023.

Entre funcionários, aliados políticos e militantes peronistas, circula a ideia de que Lula tem a capacidade de ordenar a caótica Argentina. Não apenas dando um eventual socorro econômico (existem várias ideias sobre a mesa), mas, também, ajudando a complexa aliança de governo argentino a se entender e não arriscar seu futuro político por disputas internas, que geram permanentemente desgaste. A ideia é compartilhada até mesmo por líder estrangeiros como o ex-primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, que passou o fim de semana em São Paulo e expressou a interlocutores sua preocupação pela instabilidade argentina e defendeu a necessidade de que aliados externos, como ele próprio e Lula, ajudem.

O chefe de Estado argentino viajou num avião da Embraer, comprado pela estatizada Aerolíneas Argentinas no segundo governo de sua vice-presidente, Cristina Kirchner (2007-2015), junto a uma comitiva de seis pessoas, entre elas deputados, e funcionários de seu governo como o ministro das Relações Exteriores, Santiago Cafiero.

A viagem foi organizada em tempo recorde pelo embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli, e gerou debate interno. Para alguns membros do governo argentino, teria sido melhor esperar uma provável ida de Lula a Buenos Aires, antes mesmo da posse, lembrando que desde que assumiu o poder, em dezembro de 2019, o chefe de Estado argentino não tinha estado no Brasil e seus contatos com Jair Bolsonaro foram escassos e frios — o último, improvisado e mais longo foi na Cúpula das Américas, em junho passado, em Los Angeles.

Mas Fernández insistiu e, assim que obteve sinal verde de Lula, na noite de domingo, ordenou que tudo fosse rapidamente articulado. No atual governo brasileiro, a vinda do presidente argentino não surpreendeu pelo contrário. Predomina a ideia de que a Argentina tentará colar-se ao Brasil de Lula para conseguir apoio político e econômico. Uma fonte do governo brincou, afirmando que o presidente argentino deve ter chegado a São Paulo com uma lista de pedidos ao presidente eleito. Perguntado sobre reações no Planalto, a fonte respondeu, em tom irônico: “o governo tem outras preocupações no momento”.

A intenção dos argentinos, confirmaram fontes do governo, é discutir questões regionais, articulações na América Latina, e uma lista de propostas que os argentinos já apresentaram a Celso Amorim, principal assessor internacional de Lula, e que incluem projetos nas áreas de infraestrutura, energia, comércio e acordos financeiros, inclusive entre os bancos centrais dos dois países. Na Argentina existe a expectativa de um socorro político e financeiro do Brasil de Lula ao governo de Fernández e Cristina Kirchner.

Antes de chegada de Fernández, o presidente eleito teve uma conversa com o ex-presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, que passou o fim de semana em São Paulo. Ao GLOBO, Mujica disse que “é importante que estejamos perto do Brasil, ao redor do Brasil, acompanhando”.

— Precisamos estar mais juntos para defender-nos. Somos talvez o maior núcleo humano da Terra, que falando pode se entender. O mundo está se agrupando em grandes unidades. Não é contra as nações, mas temos de nos defender num mundo multilateral cada vez mais pesado, é como nas cooperativas, ou você se junta para crescer ou você sucumbe — disse o ex-presidente do Uruguai (2010-2015).

Mujica desejou que "o Brasil recupere sua alegria de viver, porque é o único país do mundo que faz manifestações políticas sambando”.

— Sou um velho amigo [de Lula], e muito interessado — frisou o ex-presidente uruguaio.