Lula relembra sua atuação por sequestradores de Abílio e vira alvo dos Bolsonaros

*ARQUIVO* Brasília, DF - 28/04/2022 - Foto, Ex Presidente Lula (PT). Nesta quinta (28) o Ex Presidente Lula (PT) e Geraldo Alckmin comparecem ao congresso do PSB em Brasília. (FOTO: Antonio Molina/Folhapress)
*ARQUIVO* Brasília, DF - 28/04/2022 - Foto, Ex Presidente Lula (PT). Nesta quinta (28) o Ex Presidente Lula (PT) e Geraldo Alckmin comparecem ao congresso do PSB em Brasília. (FOTO: Antonio Molina/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Uma fala do ex-presidente Lula (PT) sobre sua atuação para a extradição dos sequestradores do empresário Abílio Diniz, ocorrida há mais de 23 anos, virou nova munição do presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados contra o petista na corrida eleitoral pelo Palácio do Planalto.

Na noite desta sexta-feira (17), durante um ato político em Maceió, Lula relembrou em discurso como intercedeu junto ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, em dezembro de 1998, para que atendesse às reivindicações de oito presos por aquele crime.

Na época, o grupo de sequestradores estava há 46 dias em greve de fome e ameaçava iniciar uma greve seca, com a interrupção de ingestão de água. Sete estrangeiros pediam a extradição para seus respectivos países (Chile e Argentina), e o brasileiro, transferência para seu estado de origem (Ceará).

O episódio já era conhecido, e a fala foi feita pelo petista para ilustrar sua antiga relação com o senador Renan Calheiros (MDB-AL), à época ministro da Justiça de FHC.

"Depois de uma longa conversa com o Renan, ele disse: 'Lula, vai conversar com o Fernando Henrique Cardoso que eu tenho toda disposição para mandar soltar o pessoal'. Fui ao Fernando Henrique Cardoso: 'Fernando, você tem a chance de passar para a história como um democrata ou como um presidente que permitiu que dez jovens que cometeram um erro morram na cadeia'", relatou o petista.

"Ele disse: 'Se você conversar com eles, e eles acabarem com a greve de fome, eu solto eles'. Eu fui na cadeia no dia 31 de dezembro e falei com os meninos: 'Vocês vão ter que dar a palavra para mim e garantir que vão acabar com a greve de fome agora e vocês vão ser soltos'. Eles respeitaram a proposta, pararam a greve de fome, foram soltos e não sei onde estão agora."

A fala foi criticada por Bolsonaro, neste sábado (18), durante um culto em Manaus (AM).

"Eu pergunto a vocês: se alguém sequestrar um filho de vocês, como vocês se sentem? Caso esse crime fosse desvendado, como foi o sequestro de Abílio Diniz, você ia querer que o sequestrador fosse posto em liberdade?", disse o presidente.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do presidente, também comentou o caso. "Se alguém sequestrar seu filho ou cometer outra barbaridade e quiser ficar livre, certamente Lula intercederá pela soltura deste criminoso", escreveu o deputado.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), primogênito do presidente, disse que o ex-presidente "minimizou o crime". "É este sujeito que romantiza o crime e passa a mão na cabeça de vagabundo que quer ser presidente do Brasil."

A fala sobre o sequestro de Abílio Diniz é mais um discurso do próprio Lula usado como arma dos bolsonaristas.

Também serviram como munição contra o petista pronunciamentos em que disse que o aborto deveria ser um "direito de todo mundo" e no qual disse que Bolsonaro "não gosta de gente, ele gosta de policial" .

A atuação de Lula em favor dos sequestradores de Abílio foi pública na ocasião. Eles, porém, não foram soltos, como disse o ex-presidente.

Os cinco chilenos e dois argentinos foram extraditados nos meses seguintes para seus países, onde cumpriram suas penas. O único brasileiro envolvido no caso foi transferido para o Ceará, seu estado natal.

Eles estavam presos havia quase dez anos e alegavam que a Justiça brasileira não aplicava a progressão de pena como previsto em lei. Um casal de canadenses, também preso pelo crime, já havia sido extraditado para seu país meses antes da atuação de Lula.

A prisão do grupo ocorreu na véspera do segundo turno da eleição de 1989, na qual Lula concorria com o ex-presidente Fernando Collor, atualmente senador pelo PTB-AL.

Os sequestradores foram detidos com camisas do PT, episódio no qual a polícia paulista foi acusada de atuar para prejudicar o partido nas eleições.

O caso continuou a ser usado nas eleições presidenciais seguintes como objeto de crítica ao PT. Nos últimos anos, porém, estava esquecido.

Os sequestradores alegaram motivação política para o crime. O resgate cobrado, de US$ 30 milhões, teria como objetivo financiar ações revolucionárias na América Latina.

As ligações dos presos com movimentos da esquerda latino-americana ficaram provadas quando, em maio de 1993, um bunker explodiu acidentalmente em Manágua, Nicarágua. O local era alugado pela FPL (Frente Popular de Libertação), de El Salvador.

Na época, o jornal Folha de S.Paulo mostrou que ali havia um arsenal que incluía mísseis terra-ar, fuzis AK e um dossiê com a rotina de empresários em vários países, entre eles, Abílio Diniz. No local também foram encontrados documentos dos canadenses David Spencer e Christine Lamont, presos no caso do brasileiro.

O Departamento de Estado norte-americano investigou o dossiê e constatou a existência de uma rede mundial de sequestros, com ramificações em 12 países do mundo, cujas ações tinham finalidade política. O sequestro de Diniz teria sido uma dessas ações.

A motivação política, porém, foi alvo de controvérsia à época dos fatos. Até ser preso, o grupo não havia soltado nenhum manifesto sobre suas intenções supostamente políticas ou as citado no contato com a família. À época, havia grupos também que, sob pretexto político, usavam o crime para proveito financeiro próprio.

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