Lula se fecha no 7 de Setembro, e campanha vê efeito eleitoral limitado de atos de Bolsonaro

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Para evitar comparações, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preferiu não se expor a riscos e não participou de nenhuma atividade pública nesta quarta-feira (7), no Bicentenário da Independência.

O petista gravou peças para a propaganda eleitoral e depois acompanhou na própria produtora em São Paulo a repercussão do discurso do presidente Jair Bolsonaro (PL), seu principal adversário na corrida eleitoral, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

No começo da noite, ele voltou para sua casa. Um dos vídeos gravados nesta quarta por Lula aborda o 7 de Setembro. A peça deverá ser divulgada ainda nesta noite.

Lula já havia avisado a aliados, em reunião com o conselho político de sua campanha na terça (6), que ele não teria atividade pública para a data e que esperaria os discursos de Bolsonaro.

A expectativa do ex-presidente era que das falas do atual chefe do Executivo saíssem argumentos que poderiam ser explorados por sua campanha na tentativa de atrair votos de indecisos —e que pudessem contribuir para encerrar a disputa eleitoral no primeiro turno.

A avaliação do comando da campanha, no entanto, é que Bolsonaro jogou para fidelizar seu eleitor.

Tendo passado a tarde ao lado do petista, a presidente nacional do PT e coordenadora da campanha de Lula, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), afirmou à Folha de S.Paulo que Bolsonaro discursou para seu eleitorado "e não para o conjunto da nação".

"Quer manter esse eleitorado para ir ao segundo turno. É nisso que ele aposta", disse Gleisi. Para ela, o atual mandatário não ganhará votos depois de seus discursos nesta quarta.

A presidente do PT também criticou o tom das falas de Bolsonaro. No Rio, o presidente fez um discurso com forte caráter eleitoral buscando atacar Lula, refutar suspeitas de corrupção em seu governo e repetir ameaças ao Supremo Tribunal Federal.

Bolsonaro disse que não é "ladrão" e que a esquerda deveria ser "extirpada da vida pública".

"Que moral ele tem para atacar Lula. Tem de explicar de onde veio o dinheiro para comprar tantos imóveis, principalmente os pagos com dinheiro vivo. Com salário de deputado jamais compraria. Nem a mansão do Flávio conseguiriam", disse Gleisi.

"Extirpar, matar é o linguajar dele. Autoritário e covarde. O Brasil não merece um homem desses como presidente", continuou a parlamentar.

Outros integrantes da campanha compartilham da análise de Gleisi. Para aliados de Lula, Bolsonaro manteve tom agressivo e foi machista durante discurso em Brasília, o que afasta eleitores indecisos.

"O Brasil merece melhor destino. Ele apequena o país. Deprimente. Tudo se tornou ridículo. Ele devia se envergonhar pelo constrangimento internacional que ele faz o Brasil passar", afirmou Edinho Silva, coordenador de comunicação da campanha.

Aliados de Lula defendem que a campanha use a tentativa de Bolsonaro de atrelar Lula à corrupção contra o próprio presidente. Há, em outros partidos, quem defenda explorar a declaração do mandatário de que "não é ladrão" e expor as suspeitas que pairam sobre o governo dele.

Em outra frente, a campanha de Lula viu a realização de um "megacomício" e decidiu acionar o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra a conduta de Bolsonaro neste 7 de Setembro.

Integrantes da equipe jurídica do candidato vão questioná-lo por abuso de poder econômico e político.

"Essa é a velha e surrada estratégia de Bolsonaro, uma tática diversionista. Ele está acuado, sendo acusado de um escândalo de corrupção sem precedentes, com um número enorme de recursos sendo treinados para a compra de imóveis de forma atípica, com dinheiro vivo", diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas e próximo de Lula.

"Ele cria tática diversionista porque não tem o que falar sobre esses questionamentos que lhe são feitos e tenta jogar luz sobre outras pessoas e fatos", continua.

O deputado e ex-ministro Alexandre Padilha (PT) diz que Bolsonaro "não tem moral" para atacar Lula, "nem credibilidade para se explicar sobre os imóveis comprados com dinheiro vivo".

Presidente do PSOL, Juliano Medeiros diz que Bolsonaro "sequestrou" o bicentenário e o transformou "em um ato de campanha", além de afirmar que o atual chefe do Executivo "se isola cada vez mais".

Publicamente, Lula se posicionou sobre o 7 de Setembro na manhã desta quarta. Nas redes sociais, o petista afirmou que tem "fé" que o Brasil "irá reconquistar sua bandeira, soberania e democracia".

"200 anos de independência hoje. 7 de setembro deveria ser um dia de amor e união pelo Brasil. Infelizmente, não é o que acontece hoje", escreveu o ex-presidente.

Na terça (6), Lula usou o horário eleitoral para falar sobre o Bicentenário da Independência e fez críticas a Bolsonaro.

Na reunião com o conselho político, também na terça, o petista afirmou que Bolsonaro está "usurpando" a data.

"Porque, afinal das contas, é a Independência do nosso país. E ele poderia ter tido a grandeza de fazer uma grande festa para o povo brasileiro participar. Mas resolveu fazer para ele, é dele. Ele que já disse 'as minhas Forças Armadas' agora tá dizendo 'a minha Independência'. É triste, mas é assim."

Candidato do PT ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad gravou peças para propaganda eleitoral nesta quarta-feira.

Inicialmente, ele participaria de agenda de campanha em Presidente Prudente, no interior paulista, mas cancelou citando ameaças.

Nas redes sociais, o ex-prefeito criticou o presidente Bolsonaro. "Trágica conjunção de fatores que nos trouxe ao bicentenário da independência com um ser patético, autoritário e corrupto ocupando a presidência da República", escreveu Haddad.

Já o pedetista Ciro Gomes, terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, fez uma transmissão ao vivo após discurso de Bolsonaro no Rio e demonstrou "algum alívio" com as falas do presidente.

Em Ouro Preto (MG), Ciro afirmou que ele e aliados passaram os últimos dez dias "sobressaltados, assustados com um punhado de ameaças da própria boca do Bolsonaro, esse boçal que infelizmente assumiu a Presidência do Brasil".

"Nós estávamos prontos para denunciar e mobilizar uma resistência que fosse necessária se algum desatino mais grave, se alguma atitude mais violenta vitimasse nosso povo brasileiro", disse.