Lula usou milicianos para atacar Bolsonaro e hoje vê elo de ministra

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 29.12.2022 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 29.12.2022 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou elo com milicianos para atacar Jair Bolsonaro (PL) tanto durante o governo do ex-mandatário como na campanha eleitoral na qual se enfrentaram.

Agora, a divulgação sobre elo do grupo político da ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil), e o ex-PM Juracy Prudêncio, o Jura, condenado a 26 anos por comandar uma milícia na Baixada Fluminense, provoca constrangimento no início do mandato de Lula.

O presidente até agora não se manifestou. O ministro da Justiça, Flávio Dino (PSB), afirmou que "políticos do Brasil têm foto com todo mundo". O deputado Marcelo Freixo (sem partido), futuro presidente da Embratur, afirmou que a sua relação com a ministra é "recente e de diálogo".

A operação Anjo, deflagrada em 18 de junho de 2020, avançou alguns passos na elucidação dos laços de Fabrício Queiroz e da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. Queiroz, amigo do ex-presidente, é um dos eixos do esquema da "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia.

Mas a benevolência da família Bolsonaro com as milícias é anterior ao episódio da "rachadinha".

Ao longo dos anos, uma série de discursos do ex-presidente e de seus filhos minimizou a gravidade das ações desses grupos -além de ter defendido e exaltado policiais suspeitos de atuação criminosa.

O miliciano Adriano da Nóbrega, por exemplo, estava preso quando foi homenageado por Flávio com a Medalha Tiradentes, mais alta honraria da Assembleia Legislativa.

Nóbrega também foi destaque de um discurso de Bolsonaro. No plenário da Câmara dos Deputados, em 2005, o então deputado federal afirmou que o ex-capitão era um "brilhante oficial".

Outro ponto que aproxima Flávio Bolsonaro das milícias é sua relação com Valdenice Meliga, tesoureira de sua campanha ao Senado.

Val, como é conhecida, recebeu procuração para assinar cheques da campanha. Ela também foi tesoureira do diretório estadual do PSL, antigo partido do senador.

Dois irmãos de Valdenice, os PMs Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, foram presos em agosto de 2018 pela Operação Quarto Elemento, que mirou uma quadrilha de policiais especializados em extorsões.

Relembre momentos que Lula usou elo com milicianos para atacar Bolsonaro:

Entrevista na prisão Em entrevista exclusiva concedida à Folha e ao jornal El País, em 26 de abril de 2019, quando ainda estava preso, Lula comparou o tratamento que a imprensa dava a ele com o que reservava a Bolsonaro.

"Imagine se os milicianos do Bolsonaro fossem amigos da minha família?", questionou, referindo-se ao fato de Flávio Bolsonaro, filho do então presidente, ter empregado familiares de um miliciano foragido da Justiça em seu gabinete quando era deputado estadual pelo Rio.

Primeiro ato de rua no Nordeste Em novembro de 2019, Lula voltou a atacar Bolsonaro. No Recife, em seu primeiro ato de rua no Nordeste desde sua soltura, o petista declarou que dedicaria cada minuto de sua liberdade para libertar o Brasil "dessa quadrilha de miliciano que toma conta desse país".

"Eles estão destruindo o país em nome do quê?", afirmou. "Eles estão fomentando a milícia em nome do que neste país?"

Discurso após sair da prisão Em 2020, o então ministro Sergio Moro pediu a abertura de um inquérito contra Lula, por ele ter chamado Bolsonaro de miliciano em discurso depois de sair da prisão.

Quando comandava o Ministério da Justiça, Moro pediu que Lula fosse investigado com base na Lei de Segurança Nacional por crime contra a honra do ex-presidente Bolsonaro.

No vídeo usado como base para a abertura da investigação, Lula dizia haver um miliciano no governo.

"Nós vamos ter que levantar a cabeça e lutar porque não é possível que um país do tamanho do Brasil tenha o desprazer de ter no governo um miliciano responsável direto pela violência contra o povo pobre, responsável pela morte da Marielle, responsável pelo impeachment da Dilma, responsável por mentirem a meu respeito", afirmou o petista.

Em maio do mesmo ano, o inquérito foi arquivado. A Justiça acolheu pedido do Ministério Público Federal.

Comício em 12 de outubro de 2022 Em novembro, Bolsonaro pediu a abertura de ação penal contra Lula, por ter sido chamado pelo petista de genocida, miliciano e assassino.

Na ação, foi anexado vídeo com imagens de comício realizado no dia 12 de outubro no Complexo do Alemão, no qual, segundo a representação do Palácio do Planalto, Lula teria associado Bolsonaro a milicianos e ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), ocorrido em 2018, no Rio de Janeiro.