Lula vira alvo por faltar a debate e Bolsonaro por escândalos de corrupção

Bolsonaro participa de debate dos presidenciáveis

Por Eduardo Simões

SÃO PAULO (Reuters) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tornou-se alvo dos demais candidatos à Presidência neste sábado por não ter comparecido ao debate promovido por SBT, CNN Brasil, portal Terra, Estadão, rádio Nova Brasil e revista Veja, enquanto o presidente Jair Bolsonaro (PL) foi criticado por denúncias de corrupção em seu governo.

Os organizadores do debate mantiveram um púlpito vazio no estúdio, para marcar a ausência de Lula, e no início dos quatro blocos do programa o mediador Carlos Nascimento lembrava o local vazio e que o petista foi convidado, mas optou por não comparecer. No horário do debate, o ex-presidente participava de um comício na zona leste de São Paulo.

Além da ausência, Lula também foi criticado pelos adversários por causa dos escândalos de corrupção em seus governos.

"Candidato Lula não veio, talvez porque esteja com salto alto e acha que ganhou e desrespeita a todos nós, seus concorrentes, e a você", disse Ciro Gomes (PDT), terceiro colocado nas pesquisas, afirmando ainda que o ex-presidente não foi ao debate por não ter como explicar promessas descumpridas durante seus oito anos de governo e os escândalos de corrupção durante as gestões petistas.

Simone Tebet (MDB), quarta colocada, também criticou a ausência de Lula e disse que o petista não quer debater propostas para o país.

"Como é que vamos votar num candidato que não tem a coragem de vir a um debate apresentar as suas propostas no momento de maior complexidade da história? Vamos dar um cheque em branco?", questionou.

Soraya Thronicke (União Brasil) e Felipe D'Ávila (Novo) também criticaram a ausência do ex-presidente, que lidera as pesquisas de intenção de voto.

A senadora indagou se o eleitor contrataria um postulante a uma vaga de trabalho que faltasse à entrevista de emprego. O candidato do Novo disse que Lula desrespeita o eleitor ao não comparecer ao debate e chamou o petista de "Barrabás que vem assaltando a nação brasileira".

Pela primeira vez em um debate nesta eleição, o candidato do PTB, Padre Kelmon, aliou-se a Bolsonaro e, escolhido pelo presidente para responder perguntas nas duas oportunidades que teve de indagar, elogiou o atual governo e atacou a esquerda, que chamou de "maldita".

ORÇAMENTO SECRETO, LEITE CONDENSADO E VIAGRA

Em uma das dobradinhas com Padre Kelmon, Bolsonaro voltou a insinuar que um governo Lula poderia perseguir cristãos ao mencionar a situação na Nicarágua, dizendo que o presidente daquele país é "ditador e amigo íntimo do Lula".

Em outro momento buscou exaltar programas sociais de seu governo e foi elogiado pelo candidato petebista pela gestão. Uma das estratégias claras de Bolsonaro, vice-líder nas pesquisas, foi afirmar que seu governo se preocupa com os pobres e com as mulheres, duas fatias do eleitorado em que está em desvantagem em relação a Lula.

Mas o presidente teve em vários momentos de responder por denúncias de corrupção em seu governo e pediu direitos de resposta, tendo alguns deles concedidos.

"Quem vetou o aumento da merenda escolar e gastou milhares e milhares de reais com leite condensado, quem cortou o orçamento da Farmácia Popular, mas manteve viagra, quem foi que atrasou as vacinas para o povo brasileiro, mas não atrasou a prótese peniana para seus amigos, foi o atual governo", disse Soraya citando denúncias contra a atual gestão.

Num dos embates com Bolsonaro, de quem é ex-aliada, a candidata do União Brasil --que afirmou no debate anterior ser uma "mulher que vira onça"-- alertou Bolsonaro a não cutucá-la com o que chamou de "sua vara curta".

Tebet cobrou Bolsonaro pelo orçamento secreto e afirmou que o presidente não conhece a realidade do Brasil, ao citar declarações dele de que não existem pessoas passando fome no país.

"Você não trabalha, anda de jet ski e de moto", disparou a candidata do MDB, afirmando que Bolsonaro não está preparado para governar o Brasil. "Eu não terei um governo corrupto como o do senhor ou do PT."

Diante das cobranças sobre o orçamento secreto, Bolsonaro colocou a responsabilidade sobre o Congresso, disse que não tem controle sobre os recursos e reconheceu que eles teriam melhor destinação se alocados em outras áreas.

O presidente também fez a alegação falsa de que Tebet e Soraya votaram pela derrubada do veto que fez ao orçamento secreto, o que não é verdade. As duas parlamentares votaram pela manutenção do veto e contestaram a alegação falsa do presidente durante o debate.

Bolsonaro também aproveitou a pergunta de um jornalista para reiterar acusações de que o Supremo Tribunal Federal (STF) interfere e atrapalha seu governo.

"A judicialização feita contra o Executivo é clara. Toda semana tem alguma coisa contra o Executivo", afirmou o presidente.

Ciro, por sua vez, teve um debate acalorado com Bolsonaro --com direitos de respostas obtidos pelos dois lados-- quando o presidente lembrou uma operação de busca e apreensão feita pela Polícia Federal contra o pedetista, declarada posteriormente ilegal pela Justiça.

Em resposta, o candidato do PDT citou denúncias de irregularidades contra os filhos de Bolsonaro e o caso revelado pelo portal UOL, que mostrou que familiares do presidente adquiriram 51 imóveis em dinheiro vivo desde a década de 1990.

(Reportagem adicional de Ricardo Brito; Edição de Alexandre Caverni)