Lulapalooza, ou o petismo enquanto doença

Alex Antunes

Nestes últimos dias, vi vários petistas agarrados à fantasia de que a plateia do festival Lollapalooza, em São Paulo, cantou a musiquinha do Lula. Primeiro, isso me soou absolutamente estranho – por que a banda Cage The Elephant, que não é particularmente politizada, teria tocado o olê-olê-olá “do Lula”, e arrancado com isso uma resposta entusiástica de seu público, que igualmente não é politizado em especial?

Vendo mais atentamente o vídeo compartilhado, algumas respostas aparecem. Primeiro, o que o guitarrista puxou não é “a música do Lula”, é um refrão comum, cantado por exemplo em estádios, com diferentes palavras. Segundo, a plateia está em polvorosa porque o vocalista Matt Shultz está escalando a estrutura que dá sustentação à cobertura do palco. Terceiro, antes mesmo de nos envolvermos em polêmicas a respeito de o público estar gritando Lula, Lolla ou mesmo “pula”, salta aos ouvidos uma fraude.

No vídeo que circulou nos meios petistas, o áudio foi manipulado, ganhando um overdub de um coro lulista retirado de alguma outra gravação. Isso se comprova não só checando o vídeo original da transmissão, onde não se compreende nada da gritaria, mas principalmente o fato de que o coro lulista é mais acelerado do que a guitarra. Quem editou o som não tinha os recursos para ajustar o bpm do coro ao da guitarra, e simplesmente alinhou o início da frase, e aí as vozes dessincronizam da música perceptivelmente (e sempre da mesma forma).

Esse exercício de “pós-verdade” não seria tão grave, e até teria sua graça memética, se não correspondesse a uma ansiedade sebastianista que começa a beirar a histeria. Digo isso porque li, ao longo da segunda feira, embates não entre a esquerda e a direita a respeito do fato (até onde eu pude ver, a direita ignorou o assunto), mas entre petistas e uma esquerda, digamos, mais severa e/ou ética.

Estamos em um momento em que as pesquisas eleitorais, interpretadas erradamente, criaram nos petistas essa alucinação messiânica de que 2018 é o ano “da volta de Lula”, como uma espécie de salvador místico. Ora, mesmo ele estando em primeiro lugar em vários cenários, isso se dá mais por uma fragmentação dos votos (que coloca Bolsonaro na frente de Aécio, por exemplo, mas sem ter ainda uma votação muito expressiva). Segundo, porque a rejeição de Lula supera em larga margem os seus votantes. Quem encarnar melhor o “anti Lula” terá mais chances de levar. E, claro, porque nada na situação jurídica de Lula indica que é certa a sua condição de disputar.

Numa entrevista publicada na Folha de São Paulo de segunda, o pré-candidato Ciro Gomes expõe a dimensão política do problema. “Nesse momento, a candidatura de Lula desserve a ele e ao país. Na melhor das hipóteses, ganha e projeta essa confrontação odienta que está rachando o país. Mas a possibilidade de polarizar e perder é muito alta”. Evidentemente Ciro está sendo estratégico; ele pretende na verdade é herdar o eleitorado de Lula, ou parte dele. E eu, ao contrário, não considero que Lula tenha qualquer chance de vencer. Mas a passagem que trata da polarização é correta.

Nas discussões que vi a propósito do Lollapalooza, petistas acorriam em fúria contra qualquer tentativa (à esquerda) de questionar a fraude do vídeo – porque estão doentiamente dependentes dessa polarização, e a essa fantasia. Chegamos a um ponto em que o psiquismo petista precisa dessa exaltação para sobreviver. E, principalmente, para sobreviver sem fazer a dolorosa autocrítica de seguidos erros, como o da defesa de Belo Monte (fonte gigantesca de propinas) e do modelo econômico desenvolvimentista duplamente equivocado, do ataque aos manifestantes em 2013 e 2014 (copa), da chantagem política que foi a reeleição de Dilma, e da condição de aliado há anos do “golpista” Temer.

Evidentemente, essa versão cindida da realidade, despolitizada e irrealista, não envolve e não convence ninguém fora da própria bolha petista. Não é uma questão de lógica; é meramente a sustentação de um transe. Já faz um tempo que eu, que me considero de esquerda (ainda que tenha uma definição bastante própria de esquerda), lido com isso tratando petistas convictos como malucos, tolos ou, no mínimo, politicamente ingênuos.

Mas agora quem se considera parte de um “campo progressista” (do qual o PT faria parte) começa a ter que encarar com dificuldade cada vez maior a necessidade de trazer os petistas ao bom-senso, a alguma reflexão política saudável e produtiva. O assim chamado campo progressista vai buscar uma discussão política, e vai encontrar uma patologia. Eu costumo usar o termo yang do yang, para falar da exaltação patriarcal que parte das coisas para chegar nelas mesmas: o poder do poder (autoritarismo), o dinheiro do dinheiro (capital financeiro), o sexo do sexo (fetiche, pornografia).

Pois agora temos “o Lula do Lula”, uma projeção tautológica, autorreferente; um último biombo para tentar não encarar o vazio frustrante da implosão de um projeto grandioso. Projeto que o próprio Lula se encarregou de avacalhar, diga-se, quando não investiu seus 80% de aprovação em algum choque de transformação na nossa estrutura burocrática, preguiçosa e subserviente de funcionamento – que o PT no poder acabou por assimilar e reproduzir, numa versão mais pobrinha.

Por tudo isso a reação violenta, de “fúria santa”, aos questionamentos (à esquerda) da veracidade do tal vídeo. Que gerou, na realidade paralela dos blogs petistas, manchetes constrangedoras como “Banda Cage The Elephant manifesta apoio a Lula”, “Lollapallosa reúne milhares contra Temer que pedem Lula lá”, “Crescimento da luta contra o golpe: Lula é ovacionado em um show”, “Público grita o nome de Lula e Globo é obrigada a transmitir”, “Ex-presidente Lula rouba a cena no Lollapalooza” e assim por diante.

O engraçado é que vem exatamente de uma fonte petista, a Fundação Perseu Abramo, um antidoto a tal delírio. É uma pesquisa sobre “Percepções E Valores Políticos Nas Periferias De São Paulo”, que busca entender “a visão de mundo e o imaginário social” nas periferias. Ou seja, numa das principais bases do voto petista – em boa parte perdida para o candidato Dória, na última eleição paulistana.

O que se vê é que a pesquisa, um pouco a contragosto, imagino, detecta nesse estrato social uma visão muito mais ligada à realização individual do que a um ideário do coletivo. Permite, por exemplo, compreender que parte da mística de Lula tem menos a ver com o incremento na justiça social que ele pode propiciar do que com a percepção dele como exemplo de sucesso. Ou seja, ele se realiza mais como modelo (mesmo que ilusório, inalcançável) do que como substituto (ou salvador da pátria). Por isso, ele é lembrado do mesmo modo que é lembrado Silvio Santos – ou o próprio João Dória.

Essa é uma leitura chocante para o psiquismo petista, porque mostra que, de certa forma, o (ex) eleitor petista periférico (a quem supostamente o partido representaria, e mesmo “protegeria”) é muito mais desassombrado com a realidade, muito mais pragmático. E portanto mais fluido em suas convicções políticas do que a área de influência mais, err, intelectualizada do partido. Que, num paradoxo com a sua supostamente melhor formação política, mantém com a figura de Lula e com a organização uma relação deslumbrada, acrítica, que se aproxima da religião.

E é nisso eu convirjo com quem desqualifica o vídeo. Ele é parte do engodo, da pós-verdade e da doença social que nos acomete, e não seu antídoto. É por isso que costumo bater na tecla de que qualquer evolução do pensamento de esquerda no Brasil, para se descolar dos clichês militantes do século passado, passa forçosamente pelo desmantelamento do aparelho petista. E de seu poder de hipnose. Ou, diríamos, da fonte do petismo enquanto perturbação psicossocial.

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