‘A luta negra não começou agora. Muito pelo contrário’, diz coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da OAB de SP

Suzana Correa
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SÃO PAULO — Premiada em 2020 como uma das pessoas afro-descendentes mais influentes do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU), onde é fellow do Alto Comissariado de Direitos Humanos, Sheila de Carvalho atualmente se divide entre a coordenação da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP e o trabalho como advogada da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora), além de participar da Coalizão Negra por Direitos, iniciativa que congrega centenas de movimentos negros no país.

Em entrevista ao GLOBO, ela conta como o movimento negro se mobilizou — inclusive internacionalmente — para reagir ao assassinato de João Alberto Freitas em um mercado da rede Carrefour de Porto Alegre, em 19 de novembro, e quais suas principais estratégias de organização.

É possível falar em uma nova onda do movimento negro no Brasil hoje?

Precisamos enxergar nossa História e reconhecer que, como sempre falamos, “nossos passos vêm de longe”. Se hoje temos um alcance midiático da agenda de combate ao racismo é por conta de todos os defensores e lutadoras que nos antecederam, que sempre firmaram essa agenda. Há um apagamento histórico da luta negra, mas isso não quer dizer que ela começou agora, muito pelo contrário. Lutamos pela sobrevivência há muitos séculos, de forma articulada e em movimento. Assim somos muito mais fortes. “Eu sou porque nós somos”, é o que dizemos. A lógica é que hoje é algo muito mais compositivo. Dizemos: “nada sobre nós, sem nós”. Sempre fizeram as construções das políticas públicas, dos espaços institucionais, sem a presença de pessoas negras e sem problematizar essa ausência. A representatividade é necessária. Reconhecemos que temos ganhado aliados dentro dessa luta, mas não podemos esquecer que ela vem de muitos e muitos séculos.

Quais que são as principais lideranças do movimento negro no Brasil hoje? É possível apontá-las?

Não, pois o movimento negro é a liderança por si só. Somos muitos soldados dentro de uma frente. E pessoas negras em destaque não necessariamente são partes do movimento negro. Isso é importante reiterar. Temos grandes pesquisadores que têm se colocado de forma isolada, não necessariamente dentro de uma construção do movimento. Mas o movimento negro é muito liderado por mulheres negras, que estão à frente dessa construção há 30, 40 anos, como Wania Sant'Anna e Regina Adami (ativistas do Movimento Negro e de Mulheres Negras no Rio de Janeiro e Bahia). Me vejo como uma soldado, uma advogada que coloca os seus recursos à disponibilidade do movimento. Mas são essas mulheres que carregam o movimento negro nas costas há muitos anos. São minhas referências. Temos também o Douglas Belchior da Uneafro, também uma das lideranças da Coalizão. E juntos fizemos essa ponte junto aos Estados Unidos para impulsionar a agenda internacionalmente, além de acionarmos os nossos coletivos negros, coletivos de direitos humanos da Europa, para também potencializarem esse debate por lá.

Entre os mais jovens, há um nova geração conectada e digital. Como influenciam no movimento?

Não acredito muito num movimento negro de redes sociais. Porque ele deve ser feito a partir do diálogo, da conversa com nossos mais velhos, de forma coletiva. A existência do movimento tem uma metodologia própria. Há maior reverberação das nossas agendas através das mídias sociais, mas não creio no “ativismo de sofá”, no militante de rede social. Participantes utilizam essas mídias para reverberar nossa luta, mas o movimento se organiza nas ruas, nos nossos espaços de construção, quilombos urbanos e rurais, espaços de construção de luta. O movimento negro só pode existir dentro de uma dinâmica de coletividade.

Quais acredita que são os espaços de coletividade mais relevantes do movimento negro brasileiro hoje?

Há o Movimento Negro Unificado, vivo, resistente e atuante, que nasceu na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo e está em todo país. Há a Uneafro, que vem de uma mobilização de cursinhos populares e se organiza em núcleos nas periferias urbanas. Temos a Conaq, que organiza a luta dos quilombos. No campo ou cidade, temos nossos núcleos e grupos ligados a diretrizes de matrizes maiores. Há um ecossistema de organização que faz dos movimentos o movimento negro. Mas ele é extremamente múltiplo e plural. Temos agora o movimento negro que vem a partir da militância universitária, da resistência das mães, das vítimas de violência. Cada um tem seu espaço de construção inicial que pode se reverberar em outras esferas estaduais e nacionais, a depender da dinâmica.

Acredita que o caso de Beto Freitas representará um ponto de virada na luta anti-racista no Brasil ou será mais um que, infelizmente, cairá no esquecimento?

Eu acho que esse caso pode ser um ponto de virada, por conta do histórico da diáspora africana em 2020. Dos casos que reverberaram, tivemos George Floyd, Breonna Taylor, protestos na Nigéria; no Brasil, o João Pedro, a Ágata, agora o Beto. Acredito que pode ser um caso significativo e pode ser um ponto de mais engajamento na transformação e na luta por uma sociedade antirracista. Porém, infelizmente, será o único e não mudará tudo. Ainda há muita luta a ser feita, porque infelizmente estamos num dos países mais violentos para a população negra. Não podemos esquecer que, no Brasil, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos. E isso não está mudando.

Existem novas estratégias e pautas no movimento negro brasileiro, originadas a partir de casos como de George Floyd e Beto Freitas?

Acredito que o movimento está se mobilizando de forma diferente. Como se trata de uma empresa global, tentamos fazer uma articulação internacional mais forte em relação a isso. Há conexão nas agendas, por exemplo. Denunciamos o caso por aqui enquanto Coalizão Negra por Direitos e fizemos a ponte com o Black Lives Matter, que denunciou por lá. Foi um movimento institucional que reverberou dentro do espaço internacional, de modo que foi a primeira vez que tivemos um impacto concreto no valor das ações do carrefour na bolsa, no mercado internacional. Vimos que essa mobilização, pressão e articulação internacional de vários grupos de movimentos negros pelo mundo teve um impacto econômico real, mas ainda insuficiente.

Como a Uneafro e a Coalizão Negra agiram após o caso Carrefour, especificamente?

Com a Coalizão, tentamos fazer uma mobilização em articulação com os movimentos locais. A Coalizão Negra por Direitos é uma articulação com 150 organizações e movimentos negros do Brasil inteiro, que atuam para a incidência política nacional e internacional. Já atuou em outros casos similares aos do Carrefour, como no Extra e no mercado Ricoy em São Paulo (em que um adolescente foi chicoteado por seguranças, na zona Sul de São Paulo). Já tínhamos uma atuação de cobrança e responsabilização dessas empresas por conta dessa violência sistêmica que acontecendo dentro dos estabelecimentos. Tanto naquelas ocasiões, quanto nessa, fizemos mobilização de rua, de dar suporte aos protestos. Também atuamos numa frente jurídica para a responsabilização das empresas, porque nesses casos no máximo há responsabilização do agente. Esse não é o primeiro nem um episódio isolado. É algo que temos acompanhado sistematicamente, em várias empresas do setor. Que pessoa negra não tem uma história de violência para relatar que viveu dentro de um desses estabelecimentos? De de uma abordagem inadequada, inapropriada e muitas vezes violenta, por parte desses agentes de segurança e vigilância dentro das redes varejistas?

Qual o impacto do movimento sobre as articulações e protestos em São Paulo e Porto Alegre que sucederam o episódio?

Foi um chamado à ação de entidades ligadas ao movimento. Muitas pessoas autônomas também se juntaram, porque estão revoltadas. Quanto mais teremos que aguentar, quanta violência mais sofreremos? As pessoas estão com uma ânsia de protestar. Mas há dificuldades. Fazer rua, puxar rua, tem toda uma responsabilidade, um cuidado necessário dentro desse momento. Ainda assim, é nossa forma mais efetiva de manifestar o descontentamento e a nossa revolta com o que aconteceu.

As práticas dessas empresas têm mudado com a repercussão desses casos?

Agora têm estratégias diferentes na proposta de contenção de crise, mas não consigo ver o quanto isso tem alterado a nível de práticas adotadas e de um compromisso forte e público de enfrentamento ao racismo. Ainda tenta-se colocar como caso isolado e de responsabilidade da empresa terceirizada de segurança. A falta desse compromisso impacta na possibilidade de medidas mais concretas. Não estamos falando de uma política de diversidade e inclusão como o Carrefour quer, falamos de uma política real de enfrentamento ao racismo estrutural da sociedade brasileira.