Luto por rainha Elizabeth 2ª joga luz sobre futuro das monarquias na Europa

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - O funeral da rainha Elizabeth 2ª vai reunir, nesta segunda (19), dezenas de líderes mundiais, mas alguns têm mais razões para lamentar a morte da britânica. São os seis soberanos dos reinos monárquicos da Europa, que, mesmo após guerras, escândalos ou transformações sociais, sobrevivem no século 21.

Para eles, a chefe de Estado do Reino Unido, que ficou no cargo por 70 anos, era o exemplo maior de resistência, habilidade e carisma. Alguém capaz de, em certa medida, refrear o ímpeto de movimentos pró-república —que, não por acaso, tentam ganhar corpo agora.

Confirmaram presença na cerimônia na Abadia de Westminster, em Londres, a rainha Margrethe 2ª, da Dinamarca, e os reis Willem-Alexander (Holanda), Harald 5º (Noruega), Philippe (Bélgica), Felipe 6º (Espanha) e Carl 16 Gustaf (Suécia). Eles devem ser acompanhados por cônjuges —no caso do sueco, da rainha Silvia, de origem brasileira— e sucessores.

Também são esperadas as famílias reais dos principados de Mônaco e Liechtenstein e do grão-ducado de Luxemburgo. Até um "ex-rei" pode aparecer, o emérito espanhol Juan Carlos.

Desses, Margrethe 2ª é a que mais se assemelha à britânica, de quem é prima distante. É a única mulher soberana regente, conta com altos índices de popularidade e se tornou agora a mais duradoura em um trono europeu.

A mensagem de condolências enviada por ela para o rei Charles 3º de certa forma resume o significado do luto para o grupo real. "Sua mãe era muito importante para mim e minha família. Era uma figura imponente entre os monarcas europeus e uma grande inspiração para todos nós. Sentiremos muito a falta dela."

A dinamarquesa comemorou 50 anos de reinado no fim de semana passado. Como a data coincidiu com o período em que os britânicos se despediam da sua rainha, os eventos do jubileu foram redimensionados, com cancelamentos de situações que poderiam reunir multidões, como uma procissão pelas ruas da capital Copenhague.

"Um dos principais pontos em comum é que ambas são muito conscientes de seus deveres como rainhas. São profissionais, sem relação direta com escândalos e, por isso, muito populares", diz Lars Sørensen, historiador da University College Absalon, na Dinamarca. Como a britânica, Margrethe é aprovada por cerca de 80% da população.

A dinamarquesa é considerada mais informal em seus discursos e mais transparente em suas opiniões pessoais. Por ser a Dinamarca uma monarquia parlamentar como o Reino Unido, Margrethe não tem nenhum poder político. "Seu papel principal é ser um símbolo da nação, dar direcionamentos e ser alguém em quem as pessoas podem se espelhar", afirma Sørensen. Em um famoso discurso em 2018, alertou, por exemplo, para os perigos da vida online em excesso, como o ciberbullying.

Esse posicionamento do soberano contemporâneo como farol para a sociedade civil ajuda a explicar a longevidade dos reinos europeus remanescentes. "A monarquia nesses países tem como tarefa primeira dar atenção, encorajar e apoiar a sociedade civil, que é uma parte vital das democracias", diz à Folha Bob Morris, pesquisador honorário da University College London e coautor do livro "The Role of Monarchy in Modern Democracy" (o papel da monarquia na democracia moderna), de 2020.

Ele menciona momentos em que Elizabeth discursou ao país em abril de 2020, no auge da pandemia da Covid-19, com a frase "We will meet again" (nos veremos de novo), em referência a uma música dos anos da Segunda Guerra; ou quando o rei da Suécia, Carl 16 Gustaf, falou após o tsunami asiático de 2004, que matou mais de 500 suecos, sendo 140 crianças: "Gostaria de ter uma resposta e, como nos contos de fadas, consertar tudo e terminar com 'eles viveram felizes para sempre'. Mas sou só mais um em luto".

Além da empatia do chefe de Estado, os fatores que determinam a sobrevivência das monarquias europeias remontam ao período entre guerras, quando muitas foram abolidas. No início do século 20, quase todos os países da Europa, com exceções como a França, tinham regimes monárquicos.

Na Alemanha, na Rússia e no Império Austro-Húngaro, eles caíram após a Primeira Guerra, enquanto outros, como os de Itália, Iugoslávia, Romênia e Bulgária, foram abolidos após a Segunda Guerra. "No norte da Europa, os escandinavos, o Reino Unido, a Holanda e a Bélgica tiveram um desenvolvimento relativamente estável, sem grandes conflitos sociais, políticos e econômicos. Isso contribui para a manutenção da monarquia", afirma Sørensen.

Morris acrescenta que nesses reinos os soberanos resistem também porque souberam se ajustar ao sistema democrático. "Essas monarquias são controladas por seus governos, são submissas", diz. "Claro que parece estranho existir um sistema hereditário, mas ele é endossado pelo Parlamento democrático. Não é sem legitimidade."

Das sete monarquias europeias, a que tem o futuro mais em risco é a da Espanha, que teve o regime restituído pelo ditador Francisco Franco. A crise econômica de 2008 e uma viagem para caçar elefantes, além de escândalos de corrupção, fizeram Juan Carlos 1º abdicar do trono em 2014. Hoje, a família real é formada por apenas quatro pessoas –e isso é outro problema. "Uma monarquia não pode perder a habilidade de se relacionar com a sociedade civil. Quatro para 46 milhões de pessoas é uma tarefa árdua", afirma Morris.

Parte importante dessa conexão está nas cerimônias, como coroações e, nos últimos dias, a procissão do caixão de Elizabeth 2ª, tudo transmitido ao vivo. Segundo o pesquisador inglês, os eventos majestosos exercem um forte efeito na população. E é por isso, avalia, que a monarquia do Reino Unido é a mais famosa do mundo —além do fato de estar em atividade em mais 14 países, do Canadá à Austrália, passando por Belize e Papua-Nova Guiné.

"É uma forma de marcar a passagem do tempo, de expressar a continuidade da nossa sociedade e de reunir pessoas."

MONARQUIAS NA EUROPA

Andorra

Bélgica

Espanha

Holanda

Liechtenstein

Luxemburgo

Mônaco

Noruega

Reino Unido

Suécia

NO MUNDO

Ao menos 43 países adotam a monarquia como forma de governo, entre parlamentaristas, absolutistas e religiosas

Cerca de 600 milhões de pessoas (7% da população mundial) moram nessas nações