Luto yanomami é um dos mais longos e tristes do mundo

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Yanomami quer dizer seres humanos. Para uma das etinias mais ameaçadas no país e mais isoladas, a floresta quer dizer vida, mas também morte. O luto deles é um dos mais longos de que se tem conhecimento. Os filhos de Joana, de 4 anos, e de Betânia, de 5 anos, que foram sugados e cuspidos por uma draga de garimpo no Dia das Crianças, só tiveram os corpos incinerados há três dias. Depois de 12 de outubro, quando os corpos deles flutuaram no Rio Parima, os restos mortais foram levados para o coraçao da mata. É lá que uma cerimônia de rasgar corações se repetiu diariamente, por dias. Pai e mãe, amigos, conhecidos da aldeia, vão até lá e choram no local da despedida, enquanto os corpos se fundem de novo à terra. Somente ao fim do martírio coletivo do reahu, eles são queimados numa fogueira. As cinzas vão para uma cuia onde permanecem por até um ano até que um novo ritual acontece e elas são, enfim, enterradas.

- O luto é sagrado. Todo mundo, todos os dias, se reúne para chorar pelos mortos - conta Júnior Hekurari Yanomami, de 34 anos, um dos poucos da aldeia que sabem falar português e que, por ter conduzido os bombeiros até o lugar onde os corpos foram achados, está há dias em Boa Vista, Roraima, acompanhando as investigações do Ministério Público Federal.

Os pequenos yanomamis da comunidade Macuxi Yano sequer tinham nomes e eram identificados pelas mães que, por sua vez, ganham nomes brancos das equipes de saúde, passando a usar dois nomes, um deles e um outro dado pelos forasteiros que, ao menos, ajudam. A cultura de só "batizar" os filhos quando eles vingam passou a ter uma razão mais atual. De tanto morrer de diarréia, subnutrição ou contaminação por mercúrio antes dos cinco anos, as crianças só passam a ter uma identidade própria lá pelos 10 anos. Ao todo, 300 crianças da etnia morrem por ano. De todas as mortes mais tenebrosas, talvez a mais terrível seja o câncer de fígado provoado pela ingestão de mercúrio resíduo produzido pelo garimpo ilegal e contamina as aguas em que brincam e se banham. Cerca de 10 a 15 morrem assim.

- Como ingerem a água, as crianças começam a ter diarreia, a ficar com o estômago inchado e a perder cabelo. E quando a aldeia descobre,o câncer já se instalou - conta Júnior para os brancos e Hekurari para os seus, que aprendeu a falar com os "de fora" graças a um funcionário da Funai que o levou para estudar na capital, em Boa Vista.

Ate os anos 1990, havia postos da Funai nas imediações das aldeias. Hekurari diz que era um período mais tranquilo porque a comunidade conseguia ter algum suporte para se manter em seu lugar, junto à floresta. Agora, a qualquer dor de caberça, é preciso caminhar até dois dias para buscar atendimento médico. Muitos não resistem. Comer tambem virou uma saga diaria. Às vezes, dependendo do tanto de poluiuiçao, os peixes só podem ser fisgados a longas distâncas e precisam caminhar com fome por até dez dias. O medo do fim é real. Hekurari diz que muitas crianças querem aprender a ler e escrever para, sobretudo, defender sua cultura. Mas, até hoje, nenhuma promessa de levar uma escola para a região a 340km de capital vingou. Noventa e nove por cento deles não sabem ler ou escrever. E se comunicam apenas em Yanomam.

É por isso que Hekurari vai voltar no sábado para tentar saber das mães Betânia e Joana o que elas sabem sobre a draga que agora fica a menos de sete quilômetros do núcleo da comunidade e matou o filho delas. O tamanho da dor não permitiu que elas sequer falassem no dia da tragédia:

- Elas só chovaram, choravam. Não conseguiam falar. Às vezes, gritavam por que com o meu filho? - recorda ele, que faz parte de uma família de 11 irmãos. - Hoje somos cerca de 30 mil. Há muitas mortes, mas tambem muitos novos nascimentos. Por isso nos anos 1990 éramos cerca de 14 mil e hoje somos 30 mil, vivendo em condições muito diferentes da nossa cultura, que é caçar e plantar, e ameaçados pelo garimpo e pela falta de atenção básica.

Ele diz, entretanto, que falta uma atenção para os yanomamis, que são uma etnia complexa. Há mistérios até para eles próprios. Hekurari diz que os moxihatetema se concentram num ponto ainda mais inacessível e, há mais de um ano não sao sequer vistos por imagens de satélites. Nem entre eles. Ele diz que acreditam que estejam em situação ainda pior porque a presença de garimpeiros avançado para o interior da mata.

- Pela foto que vimos do alto, acreditamos que sejam hoje cerca de 120 pessoas - estima o representante dos yanomamis, ressaltando que, apesar do desejo de preservação das traidções e da natureza, a etnia nao só nao rejeita o desenvolvimento como gostaria de ter mais acesso a recursos, inclusive tecnológicos. - As crianças são fascinadas por celular.

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