Márcio Canuto diz que volta à TV é bênção após pandemia e câncer da mulher

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 20.01.2016: O jornalista Márcio Canuto. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 20.01.2016: O jornalista Márcio Canuto. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aposentado desde 2019, quando optou por encerrar seu contrato com a TV Globo após 21 anos, o repórter Márcio Canuto, 75, está de volta à ativa. A partir do dia 26, ele comandará reportagens e interações divertidas com as torcidas de futebol na cobertura do Campeonato Paulista pela Record.

De acordo com o jornalista, seu trabalho agora será um reflexo de tudo o que fez durante a sua trajetória de 57 anos à frente dos microfones. "É para ser uma cobertura mais divertida, sim, mais aberta, com frescor popular e a reação e a alegria das torcidas. Estarei mais na arquibancada e ao redor do que propriamente dentro do campo", revela.

De acordo com Canuto, a reação da família no momento em que ele decidiu deixar o descanso de lado foi positiva. Aliás, um drama dentro de casa foi um dos fatores preponderantes para que ele aceitasse largar seu sonho de viajar mundo afora e embarcar no novo desafio.

Sua mulher, Líbia, descobriu um câncer e segue em tratamento. Preso dentro de casa pela pandemia, ele viu na oportunidade dada pela nova emissora uma chance de se reanimar perante a situação incômoda de saúde de sua parceira de mais de 20 anos.

"Ela mesma e todos os especialistas diziam que eu precisava viver novos sentimentos. Tudo se encaixou, isso que está acontecendo agora é uma bênção. Ela me apoiou em tudo, somos muito apegados. Estava realmente com a cabeça embaralhada por isso. Esse novo trabalho tem me ajudado a lidar."

Mas a vontade de viajar e percorrer países ainda não está descartada. Canuto conta que pretende cumprir seu contrato válido até o final do Paulistão e que depois, ao que tudo indica, retomará sua aposentadoria. Confira abaixo trechos da entrevista.

PERGUNTA - O que te motivou a deixar a aposentadoria?

MÁRCIO CANUTO - Quando me aposentei, já com 57 anos de trabalho, pensei em ganhar o mundo, viajar, realizar o sonho de conhecer países, mas a pandemia me pegou em cheio. Tinha passagem até comprada e não consegui. Sou inquieto e fiquei muito frustrado, agoniado em casa. Gosto muito do povão, do contato popular, algo que fiz toda a minha vida. E aí apareceu a Record que preenchia todo o meu vazio. Me ofereceu chance de voltar às origens, fazer esporte e ter contato estreito com as torcidas.

Como deverá ser sua cobertura do Paulistão na Record?

MC - É para ser uma cobertura mais divertida, sim, mais aberta, com frescor popular e a reação e a alegria das torcidas. Nada é mais empolgante do que a ótima reação e a exclamação do povo numa arquibancada. É a resposta da alma do povo, um reflexo da beleza do espetáculo. Vou estar no meio da torcida, vou criar situações populares. Estarei mais na arquibancada e ao redor do que propriamente dentro do campo.

E como foi sua recepção na nova casa?

MC - Nunca fui tão bem recebido como na Record. Farei uma cobertura para todas as plataformas. Vai ter os humoristas Bola, Zé Luiz e Carioca no digital. Na TV, terá o repórter Roberto Thomé, o narrador Marco de Vargas. Vou aprender com eles. Chego empolgado e a cada dia estou aumentando essa vontade. No começo tinha até uma certa insegurança pelo retorno, mas para isso estou me preparando. É uma alegria voltar aos braços do povo.

Como tem sido a sua preparação para o retorno à ativa?

MC - Nessa minha volta, terei que ter folego aos 75 anos de idade. Estou me preparando, voltei a fazer exercícios, voltei a ver mais futebol.

Pretende estender seu contrato ao final da competição?

MC - Meu contrato é de cinco meses, farei só o Paulistão a princípio e depois volto para Maceió para os meus anseios. Quero viver esses cinco meses e depois reacendo meu plano de viajar o mundo. Minha vida foi muito intensa. Sempre trabalhava em dois ou três jornais. Nunca tinha muita folga, viajava para fazer coberturas. Quero viajar.

Como a sua família reagiu à sua decisão de largar o descanso?

MC - A Líbia [esposa] descobriu que está com câncer. Eu estava há dois anos em casa e há cinco meses convivendo com esse problema. Éramos só nós nos realimentando. No começo foi um impacto grande. Chegou um ponto em que eu estava perdendo força até muscular pela tensão familiar. E ela mesma e todos os especialistas diziam que eu precisava viver novos sentimentos. Tudo se encaixou, isso que está acontecendo agora é uma bênção. Ela me apoiou em tudo, somos muito apegados. Estava realmente com a cabeça embaralhada por isso. Esse novo trabalho tem me ajudado a lidar. Tenho trabalhado muito e isso me traz novos desafios e novas conquistas.

Como está a saúde dela?

MC - Graças a Deus, está tudo certo agora. A Líbia melhorou bastante, vamos fazer a sexta quimioterapia e depois reavaliar o quadro. Mas estamos otimistas. Com fé, esperança e altruísmo vamos superar. Estamos 23 anos casados. Com ela, é uma história de grande paixão. Fomos namorados lá atrás, eu trabalhava como radialista, e ela foi para fora do estado, tinha um ex-noivo. Tempos depois a gente se reencontrou... Deus organiza tudo.

Como o esporte entrou na sua vida?

MC - Comecei quase que de forma acidental. Meu pai tinha sido presidente da Federação Alagoana de Futebol e eu era frequentador, meu colégio era em frente. Em toda folga que tinha na escola eu ia para a federação para saber de notícias, aos 16 anos. Sabia tudo do futebol de Alagoas, os times, as contratações, as camisas de todos. Um dia tinha uma credencial lá sobrando e eu peguei para ir para dentro do campo. Era um sábado de clássico juvenil. Na portaria o segurança me perguntou se eu era jornalista mesmo, eu disse que sim, mas não era.

Foi naquele dia que decidiu ser jornalista?

MC - Depois daquele dia comprei caderno, caneta e comecei a tomar nota do que acontecia nos jogos. Uma resenha minha foi publicada num jornal. Em um mês eu fazia uma página de um jornal local. Recebi proposta para ir ao Diário de Alagoas. Em um ano eu já era editor de esportes desse periódico. Eu era muito mais dedicado do que todo mundo. Ganhei prêmios. Depois fui trabalhar em rádio e mudei tudo lá, sugeri entrevistas no meio das falas para dar maiores pausas à locução e foi um sucesso. Criei um estilo de falar ligeirinho, sabia tudo de informação. Depois fui para a rádio Gazeta como editor de esportes e veio a TV.

O futebol te ajudou a entender melhor o povo?

MC - O futebol aguça a entender o espírito do povo e me fez desenvolver criatividade grande. Comecei a desenvolver a sensibilidade para descobrir bons personagens.

O que o povo representa na sua trajetória?

MC - Em São Paulo fiquei conhecido como fiscal do povo. Todos os dias tinha contato com eles, ora festejando suas conquistas ora escutando suas agruras. A gente conseguiu muita coisa para o povo, nós criamos um jornalismo comunitário.

O que tira dos mais de 20 anos de TV Globo?

MC - Da Globo, levo a maior gratidão. Sempre fui muito bem tratado, minha despedida foi uma coisa histórica, parou a redação numa hora de fechamento de jornal. A Globo me deu o direito de me despedir ao vivo, mas preferi fazer isso depois porque fiquei com medo da minha parte emocional e pelo César Tralli que é meu grande amigo [e âncora na ocasião]. Preferi me despedir na redação, foi emoção grande (se emociona). Fizeram um pequeno documentário, ouviram o povo lamentando que eu estava parando. Depois de tudo isso, o canal ainda me contratou como garoto-propaganda do Globoplay e do BBB 20. Nunca vi isso na história da TV.

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