Márcio França se diz progressista, acena a bolsonaristas e ataca Boulos em sabatina

CAROLINA LINHARES E JOELMIR TAVARES
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 28.07.2020 - Márcio França, candidato do PSB à Prefeitura de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 28.07.2020 - Márcio França, candidato do PSB à Prefeitura de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Candidato a prefeito de São Paulo, Márcio França (PSB) fez acenos a eleitores de esquerda e de direita durante a sabatina Folha de S.Paulo/UOL, nesta terça-feira (3), e disparou ataques contra o rival Guilherme Boulos (PSOL), com quem está tecnicamente empatado em terceiro lugar no Datafolha.

Criticado durante a pré-campanha por ter se encontrado com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), França afirmou que se define como progressista, já que sempre teve "uma vocação para a área social".

A foto com o presidente rendeu ao ex-governador de São Paulo críticas de setores da esquerda. Na sabatina, o candidato disse não se importar com os questionamentos sobre sua posição.

França repetiu o discurso de que convive bem com ideologias diferentes e que dialogará com Bolsonaro se for eleito prefeito. "Acho uma coisa meio 'canseirinha' essa coisa [...]. O fato de o sujeito ser presidente da República ou governador não lhe dá o direito de torcer para que as coisas vão mal", disse.

O ex-governador, que busca angariar o voto anti-Doria na capital, acredita que apoiadores do presidente podem apoiá-lo para brecar as ambições do atual governador paulista na eleição nacional de 2022.

"Seria meio louco falar: 'eu não aceito voto de quem votou em Bolsonaro'", disse, ao mesmo tempo em que buscou pontuar suas diferenças políticas com o presidente. "Nós não temos nenhuma relação de afinidade, nenhum vínculo partidário."

O representante do PSB afirmou contar com a simpatia de policiais militares e civis, normalmente associados ao bolsonarismo, porque promoveu ações de prestígio às duas carreiras quando governou o estado.

"Pessoas que são ligadas a ele [Bolsonaro], em especial por conta dessa relação militar, votaram em mim [em 2018]."

"A minha vocação sempre foi na área social, o que normalmente se enquadra como progressista. Mas eu não tenho uma tampa nos olhos para não ver algumas coisas que acontecem", acrescentou, emendando alfinetadas em Boulos.

França sugeriu que o adversário do PSOL teria problemas, se eleito, por ser inexperiente em cargos públicos. Isso, segundo ele, pode levar a "problemas contábeis" como os que ocorreram na gestão Dilma Rousseff (PT).

O ex-governador também atacou o rival ao falar do embate que ambos travam desde o debate da Band, no início do mês passado, sobre a questão da violência contra a mulher.

França disse ter visto desonestidade da parte do adversário por ele ter relembrado na TV uma fala do então governador em 2018 em que ele defendeu a tese que a Polícia Militar poderia ser mais eficiente se não tivesse que atender a tantas brigas domésticas.

"É fake news porque eu não falei isso [que a PM não tem que intervir em violência doméstica]", rebateu.

Ele afirmou ainda achar "engraçada a hipocrisia humana" e mencionou um vídeo que voltou a circular no fim de semana em que o candidato do PSOL disse que a polícia não deveria ser chamada em acampamentos sem-teto para resolver problemas, inclusive de violência doméstica.

"Eu vi o Boulos falando que é contra a participação de polícia em briga entre marido e mulher. Nesse caso não tem como ele falar que é fake news, porque ele fala claramente essa história. Qualquer caso de agressão é caso de polícia", afirmou França.

Em outra estocada no oponente, o ex-governador disse que "o PSOL defende a extinção da Polícia Militar, o Boulos deve defender também". "Eu respeito as posições deles, mas acho que são radicais demais, liberação de droga, algumas coisas que não compactuam com aquilo que eu mesmo acredito."

França também fez críticas ao governador João Doria (PSDB) e ao prefeito Bruno Covas (PSDB), que é candidato à reeleição e lidera pesquisas de intenção de voto, a respeito da gestão na pandemia do coronavírus.

O candidato do PSB chegou a mencionar implicitamente a questão da saúde de Covas, que ainda passa pelo tratamento de um câncer, mas tem a doença controlada.

"Esse sentimento de convocação [a ser candidato] foi porque eu tenho absoluta certeza de que, se eu não for eleito, vai ser o Bruno [Covas], que está numa fragilidade especial nesse momento por diversos motivos. Mas em especial porque ele é refém de um grupo de vereadores, com 40 e tantos vereadores, que tomaram conta da prefeitura e ele apenas deixa rolar. Ainda ainda tem o Doria pra se meter, achando que já é candidato à Presidência da República", disse França.

O uso político da doença de Covas também foi feito por Celso Russomanno (Republicanos), que está em segundo lugar nas pesquisas. Na semana passada, Russomanno afirmou que Covas não terminaria um novo mandato e, quando questionado sobre o motivo, afirmou que "quem tem que responder é o médico dele".

Ao falar de propostas para moradia, tema em que Boulos atua como líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), França ironizou o oponente por ter dito, segundo o candidato do PSB, que já construiu 20 mil casas.

Nesse ponto, o ex-governador defendeu a proposta de distribuição de lotes para construção de moradias, medida semelhante ao que foi implementado em São Paulo na gestão Luiza Erundina (PSOL), que é candidata a vice na chapa de Boulos e já foi colega de partido de França no PSB.

Os lotes urbanizados, segundo França, são mais rápidos e mais econômicos. A ideia é distribuir lotes de 125 metros quadrados e dar R$ 8 mil para que cada família construa sua casa.

No centro da cidade, o candidato defendeu que prédios antigos e abandonados sejam reformados para oferecer apartamentos de 50 metros quadrados aos sem-teto. França afirmou que a existência de 28 mil moradores de rua na cidade é “um carimbo de incompetência coletiva”.

O ex-governador afirmou ainda que é preciso acabar com ocupações em áreas de manancial e afirmou que, como o PT e o MTST, o PSDB também é conivente e explora economicamente esses acampamentos.

“Na Estrada do M'Boi Mirim, que vai para a zona sul, não há um poste que não tenha uma plaquinha dizendo ‘vende-se terreno de R$ 25 mil’, com aval ou pelo menos sob os olhos tranquilos da subprefeitura. É evidente isso está sendo feito por alguém. É uma certa falta de pulso que instiga as pessoas a fazerem as ocupações totalmente tortas", disse.

França falou ainda sobre a proposta de microcrédito para empreendedores. Ele pretende emprestar R$ 3 mil sem juros e sem burocracia mesmo para aqueles que não têm documentação. O acesso à renda, no momento de pandemia e de adoção do auxílio emergencial, tem aparecido com destaque entre as propostas de candidatos em São Paulo.

O candidato do PSB também defendeu a construção de modelos de escolas ideias, com lousa digital e ar-condicionado. Mas admitiu que seriam poucas unidades, de uma a quatro, e que, antes, é preciso reforçar a estrutura das escolas já existentes e resolver o problema da falta de vagas em creches.

França afirmou ainda que é a favor da atuação de organizações sociais na área da saúde e educação, mas defendeu a valorização do servidor público, com aumentos de salários. “Eu defendo as coisas públicas, acho que ao contrário do que falam, o Estado não tem que ser fragilizado.”

O candidato do PSB foi governador de São Paulo de abril a dezembro de 2018. Assumiu o cargo após Geraldo Alckmin (PSDB) renunciar para concorrer à Presidência. Nas últimas eleições ao governo, obteve mais de 10 milhões de votos paulistas, mas perdeu a disputa para Doria.

Também foi eleito prefeito de São Vicente, no litoral de São Paulo, por duas vezes, em 1996 e em 2000.